terça-feira, 29 de maio de 2007

Insular

A minha casa é insular. Um porto de abrigo no mar revolto. Uma enseada calma e reservada das ondulações extremas do oceano. E mesmo dentro da cidade.
Sinto-me como um navegador, um homem da água que anseia pelo conforto da terra rija para se sentir completo.
A cada manhã a primeira tarefa é medir o tempo, abrir a janela e avaliar os humores do clima para logo de seguida me encerrar na cabine da barba e banho preparando-me para a aventura diária. E depois zarpar para lá das amuradas protectoras da ilha.
O sustento assim obriga, à faina abnegada e ao trabalho desmesurado para que todos os dias haja que comer. E o ter que comer inclui nestes dias vertiginosos o ter o que vestir, o ter carro para andar e a televisão para poisar o olhar, e o leitor de DVD, e outro carro, e as férias no Brasil, e o computador portátil, e o PDA, e o novo telemóvel... Assim me dizem todos os colegas, que nunca nada chega para serem completos. Estranho essa necessidade, bastam-me os horizontes abertos e a imagem do nascer e pôr do sol. Chega-me o apelo dessa natureza imensa que me serve sem pedir quase nada de volta, talvez só um pouco de respeito...
Nunca há peixe suficiente para pagar as necessidades e a frustração cresce à medida que se aproxima o final do dia. Faina insuficiente para cumprir a totalidade dos desejos. Mesmo sendo poucos e justos. Haja saúde, pelo menos.
No regresso à ilha, apesar de todas as dificuldades há um crescendo de satisfação. Será talvez da segurança do porto, do ondear que fica para trás, da possibilidade de descansar sem o mareio que nos deixa permanentemente em prevenção.
Contra a impossibilidade da perfeição a satisfação faz-se de substância simples, a certeza de mais um dia vivido e a certeza de poder viver outro dia mais, em paz, apaziguado.
Descarrega-se o produto no cais e todo pesado há mais haver que dever... menos mal... sem remédio, sobe-se a calçada até ao lar e lá se repõem as forças que o trabalho roubou, virão outros desafios amanhã ou nos vindouros posteriores.
Chegado à ilha sou mais eu, e sendo mais eu posso ser mais para os outros. O mar dá pouco espaço para festas...
Mas como qualquer insular rodeado de mar, torna-se impossível fugir a ele. O chamamento do lar permanece, ainda assim mais forte e importante, como se fosse uma espécie de escudo ante o bulício do mundo. Sento-me no velho cadeirão de madeira, como um trono na varanda, e os olhos postos no azul do céu deitado no quadrado de água lá em baixo. Basta-me a simplicidade dos pequenos momentos para ser rei neste meu mundo.

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