As imagens do dia a dia que se dão a oferecer são por vezes simultaneamente caricatas e cheias de beleza, não pela plasticidade dos actos ou acontecimentos mas pelo que trazem de significado.
Ainda hoje de manhã, passando por um autocarro carregando miúdos, provavelmente para uma visita de estudo a algures, talvez simplesmente para os encaminhar às actividades extra-curriculares, lá estava o espectáculo das mães e avós quase chorosas, um festival de adeuses que parecia nunca mais terminar. Quem via de fora poderia ser levado a pensar que lhes roubavam as crianças para as levar para escusos destinos, para as obrigar a indescritíveis tarefas roubando-lhes a inocência e a infância. Mas os sinais estavam lá para quem os quisesse decifrar: a farda do colégio, bibes e panamás, a professora à frente atabalhoadamente procurando sentar toda a troupe, a escola mesmo por detrás emoldurando a cena...
Tratava-se obviamente da normalidade escolar, talvez menos normal por ser realmente uma viagem ao "terreno" onde as coisas acontecem e se dão a aprender mais depressa, mas ainda assim nada de substancialmente incomum.
Porquê então o exagero cénico dos braços no ar, o encosto ao autocarro como para prolongar o tempo e o contacto, mesmo se lá dentro os putos em brincadeiras já nem reparam? Talvez porque dessa forma o amor seja mais profusanmente ilustrado ante o mundo juíz e carrasco das emoções alheias, ser mas também parecer, para que lhe seja dado crédito e bendizida a existência.
Como se entregando-se aquela dança enérgica de braços no ar e quase prantos, "ai o meu menino", dissessem a Deus e aos passantes "eu gosto tanto dele, não sou como essas que os largam e vão-se embora". Não me espantaria que em casa o deixem esquecido ante o televisor, "está tão entretido o pequenino" mas na rua dá-lhes para o sentimento, o que se há-de fazer?
Quando é dada a partida ao autocarro desmobilizam-se as matriarcas, nada de mais adeuses à traseira da camioneta, apenas duas ou três das que se mantiveram calmas, encostadas ao muro ainda olham embevecidas, serão das que sofrem e riem em silêncio, no recato dos seus sentimentos, sem trânspor as fronteiras do privado.
Depois de desaparecido na curva, uns 200 metros adiante, desmobilizam igualmente. Uma delas caminha, passo sereno, pela calçada e entra na mercearia do bairro. Sai de lá com um pacote de rebuçados na mão. Hoje enquanto contará as histórias, rirão juntos partilhando a aventura, e o pirralho herói terá a sua justa recompensa.
