terça-feira, 29 de maio de 2007

As imagens do dia a dia que se dão a oferecer são por vezes simultaneamente caricatas e cheias de beleza, não pela plasticidade dos actos ou acontecimentos mas pelo que trazem de significado.
Ainda hoje de manhã, passando por um autocarro carregando miúdos, provavelmente para uma visita de estudo a algures, talvez simplesmente para os encaminhar às actividades extra-curriculares, lá estava o espectáculo das mães e avós quase chorosas, um festival de adeuses que parecia nunca mais terminar. Quem via de fora poderia ser levado a pensar que lhes roubavam as crianças para as levar para escusos destinos, para as obrigar a indescritíveis tarefas roubando-lhes a inocência e a infância. Mas os sinais estavam lá para quem os quisesse decifrar: a farda do colégio, bibes e panamás, a professora à frente atabalhoadamente procurando sentar toda a troupe, a escola mesmo por detrás emoldurando a cena...
Tratava-se obviamente da normalidade escolar, talvez menos normal por ser realmente uma viagem ao "terreno" onde as coisas acontecem e se dão a aprender mais depressa, mas ainda assim nada de substancialmente incomum.
Porquê então o exagero cénico dos braços no ar, o encosto ao autocarro como para prolongar o tempo e o contacto, mesmo se lá dentro os putos em brincadeiras já nem reparam? Talvez porque dessa forma o amor seja mais profusanmente ilustrado ante o mundo juíz e carrasco das emoções alheias, ser mas também parecer, para que lhe seja dado crédito e bendizida a existência.
Como se entregando-se aquela dança enérgica de braços no ar e quase prantos, "ai o meu menino", dissessem a Deus e aos passantes "eu gosto tanto dele, não sou como essas que os largam e vão-se embora". Não me espantaria que em casa o deixem esquecido ante o televisor, "está tão entretido o pequenino" mas na rua dá-lhes para o sentimento, o que se há-de fazer?
Quando é dada a partida ao autocarro desmobilizam-se as matriarcas, nada de mais adeuses à traseira da camioneta, apenas duas ou três das que se mantiveram calmas, encostadas ao muro ainda olham embevecidas, serão das que sofrem e riem em silêncio, no recato dos seus sentimentos, sem trânspor as fronteiras do privado.
Depois de desaparecido na curva, uns 200 metros adiante, desmobilizam igualmente. Uma delas caminha, passo sereno, pela calçada e entra na mercearia do bairro. Sai de lá com um pacote de rebuçados na mão. Hoje enquanto contará as histórias, rirão juntos partilhando a aventura, e o pirralho herói terá a sua justa recompensa.

Insular

A minha casa é insular. Um porto de abrigo no mar revolto. Uma enseada calma e reservada das ondulações extremas do oceano. E mesmo dentro da cidade.
Sinto-me como um navegador, um homem da água que anseia pelo conforto da terra rija para se sentir completo.
A cada manhã a primeira tarefa é medir o tempo, abrir a janela e avaliar os humores do clima para logo de seguida me encerrar na cabine da barba e banho preparando-me para a aventura diária. E depois zarpar para lá das amuradas protectoras da ilha.
O sustento assim obriga, à faina abnegada e ao trabalho desmesurado para que todos os dias haja que comer. E o ter que comer inclui nestes dias vertiginosos o ter o que vestir, o ter carro para andar e a televisão para poisar o olhar, e o leitor de DVD, e outro carro, e as férias no Brasil, e o computador portátil, e o PDA, e o novo telemóvel... Assim me dizem todos os colegas, que nunca nada chega para serem completos. Estranho essa necessidade, bastam-me os horizontes abertos e a imagem do nascer e pôr do sol. Chega-me o apelo dessa natureza imensa que me serve sem pedir quase nada de volta, talvez só um pouco de respeito...
Nunca há peixe suficiente para pagar as necessidades e a frustração cresce à medida que se aproxima o final do dia. Faina insuficiente para cumprir a totalidade dos desejos. Mesmo sendo poucos e justos. Haja saúde, pelo menos.
No regresso à ilha, apesar de todas as dificuldades há um crescendo de satisfação. Será talvez da segurança do porto, do ondear que fica para trás, da possibilidade de descansar sem o mareio que nos deixa permanentemente em prevenção.
Contra a impossibilidade da perfeição a satisfação faz-se de substância simples, a certeza de mais um dia vivido e a certeza de poder viver outro dia mais, em paz, apaziguado.
Descarrega-se o produto no cais e todo pesado há mais haver que dever... menos mal... sem remédio, sobe-se a calçada até ao lar e lá se repõem as forças que o trabalho roubou, virão outros desafios amanhã ou nos vindouros posteriores.
Chegado à ilha sou mais eu, e sendo mais eu posso ser mais para os outros. O mar dá pouco espaço para festas...
Mas como qualquer insular rodeado de mar, torna-se impossível fugir a ele. O chamamento do lar permanece, ainda assim mais forte e importante, como se fosse uma espécie de escudo ante o bulício do mundo. Sento-me no velho cadeirão de madeira, como um trono na varanda, e os olhos postos no azul do céu deitado no quadrado de água lá em baixo. Basta-me a simplicidade dos pequenos momentos para ser rei neste meu mundo.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Uma Aventura

Depois de instalado na casa nova há sempre coisas que teimam em não ficar completamente arrumadas. A biblioteca é uma dessas "coisas". As colecções ganham logo o seu destaque, ficam bem todas juntas, com as lombadas do mesmo tamanho a darem um ar de classe às prateleiras. Depois há os outros, os "diversos", livros de editoras variadas, de múltiplos autores, comprados ao sabor do capricho e que dão um ar de certa anarquia aos locais onde se arrumam.
No meio desta balbúrdia toda lá andam os livros do meu passado. Antes da chegada do Harry Potter, do Eragon e de outros heróis, já o Chico, o Pedro, o João, a Teresa e a Clara, para não falar do Faial preenchiam o imaginário dos infantes e juvenis deste país. Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada conseguiram a proeza de por os jovens de livros na mão, descobrindo nas páginas dos livros d’”Uma Aventura” o prazer da leitura e o gosto das letras em português.
Marcaram uma geração que os lia na escola, ou em casa, ou nos transportes públicos. Tal como Enyd Blyton fizera antes delas com “Os cinco”, eram os nossos pais leitores de descoberta, a receita era simples e de fácil utilização: um grupo com as mesmas características que o público-alvo, o inseparável companheiro animal e a possibilidade de salvar o mundo, mesmo se é apenas o mundo do bairro, das más intenções e dos bandidos sem escrúpulos. Hoje olho e vejo que nunca seria possível igualar na realidade aquela ficção mas não levo a mal. Tenho a minha colecção nas prateleiras da biblioteca e volta e meio regresso às mesmas histórias, com um sorriso estúpido na cara ante as piadas das personagens ou os desfechos previsíveis. Tenho uns trinta livros, alguns que ainda nem sequer li, outros que repeti com insistência. O meu filho quando tiver a idade vai achar que são uma estopada mas estarão ali para ele descobrir que é essa a opinião que tem. Moldará a sua opinião de acordo com as suas aprendizagens e nisso, aqueles e outros livros terão uma palavra a dizer.

É uma colecção que pertence aos que cresceram na década de 80 do século XX e é perfeitamente compreensível que a geração da playstation e da Internet não vá em historietas tão naif depois de ter chegado aos últimos níveis dos jogos de computador mais realistas que a tecnologia já produziu. Mas o mérito dos livros terem preenchido as tardes livres e os furos da escola de uma geração ninguém lhes tira. Eu gosto deles e gostava de agradecer às autoras momentos como aquele “pericolossen”, ou aquele “olha são gemas! Não, responde o Chico, uma é gema, a outra é Clara!”, piadas do fundo da algibeira, mas tão autênticas ontem como hoje nas bocas dos miúdos.
Bem, chega de saudosismos por hoje, tenho de ver se arranjo literatura moderna com que me entreter… se continuo assim ainda me chamam velho.
Depois da paragem para ver o frio passar, o regresso às viagens nossas de todos os dias.

Depois da hibernação, fome e sede de contar coisas, transmitindo alvoroços interiores, uns simplórios, quase saloios, outros dignos de debate académico, ora tese, ora antítese...

O que vier virá, e se verá se ganham o seu lugar no rol das coisas a recordar.

Hinberno!

EM HIBERNAÇÃO!