Há muito tempo que não acontece nada extemporâneo, inesperado, que saia do poucochinho. Assim estilo... eu sei lá... decidir ir jantar a Évora num repente e ir, sem pensar nos cento e tal quilómetros que a carne de porco à alentejana vai custar. Ou assim género "se um desconhecido lhe oferecer flores" directamente no emprego. Ou então comemorar o dia dos namorados em pleno mês de Março no Castelo das Sete Rainhas, esse mesmo, a praça de armas de Óbidos.
Chamar estes acontecimentos de extemporâneos é remeter a vida que levamos para o reino do desinteresse, constatação dolorosa e crítica da prisão castradora em que nos encafuamos no "dia a dia".
As rotinas têm o seu lado bom, dão-nos conforto e segurança no domínio das situações, conferem previsibilidade óptima para anteciparmos o rumo dos acontecimentos e não nos deixarmos arrastar por eles. Mas também há um lado perverso sob a forma de uma espécie de transe que nos impede de ver que há mais vida para além daquela que arquitectámos para a nossa matriz diária.
E suspiramos porque os dias são todos iguais...
Olhemos para as nossas mãos e para o espelho que nos reflecte o rosto. É nelas e nesse ser que nos olha que está a solução para esses "males". Quem é que sempre quis ser músico? Ponha o braço no ar! É com essa mão que escreve? Então asine a inscrição numa escola de música. Quem é que está farto do trabalho até às 10 da noite sem que o patrão sequer saiba, ou então não reconheça? Então, disponibilidade das 9 às 18, mas disponibilidade a sério, dar o litro para tudo fazer e depois ir para casa que está lá a mulher e filhos à espera, vestidos e prontos para irem ao cinema.
Lembra-se do vizinho do 4º esquerdo? Sim, esse mesmo. Morreu com um ataque cardíaco. Fartava-se de trabalhar, andava sempre triste e carrancudo. Agora é pó. Cremado. Lançado ao vento.

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