No centro do país, logo a seguir a Penacova para quem vem da A1, eleva-se a Serra do Bussaco. Nas suas encostas esconde-se um dos mais belos tesouros, parte obra do homem, a outra presente da natureza, dos que existem no nosso país. Por detrás de grossos muros, aqui e ali esboroados ante o poder destrutivo dos elementos, fica a Mata nacional do Bussaco e no seu interior o devaneio neo-manuelino de Manini. Os retorcidos de pedra de ança, os arcos calcários de fino recorte e aplicado esculpido parecem, iluminados pelo sol, intrincadas peças de filigrana. E tão extremosa peça de joalharia só poderia ser usada com o vestido mais vistoso e raro, oriundo da mais nobre procedência. Nisto se aplicou a natureza, oferecendo ao olhar um padrão de frescos verdes, castanhos carregados, pitadas de amarelo d’oiro numa mescla florestal que seduz a vista e conduz o olhar pelas copas diferentes das muitas espécies diferentes. Passear por aquela mata é entrar num reino encantado, não surpreendendo se algum duende ou ser de índole fantástica nos saltar ao caminho, sensação incrementada pela existência de pequenas construções ao longo dos carreiros em representação da via sacra. As dimensões reduzidas remetem para a lembrança de crianças, espécie de casinhas de bonecas não fosse a sacramental função. Passos de expiação, passos de reflexão, uma ama por todas as almas… São vestígios históricos de monges eremitas, Carmelitas Descalços descrentes nos homens como crentes em Deus, alicerçando a sua salvação eterna no afastamento total da sociedade, dos seus irmãos, porque afinal como dizem, somos todos… O sonho de Manini nasceu das ruínas do Convento de Santa Cruz do Bussaco, erigido para a glória do Senhor. Onde dantes haviam celas, hoje existem suites de luxuriante beleza e ostentação, e onde dantes reinava a frugalidade, hoje assiste-se ao banqueteamento do corpo, mais do que do espírito, violando com o pecado da gula e da vaidade a santidade da existência. E adicione-se também a luxúria, que ninguém pense naqueles quartos como meras alcovas para dormir… Caminhar por entre os bosques de espécies exóticas e autóctones num estranho equilíbrio botânico é ter oportunidade de experimentar a rendição dos sentidos, pois para onde quer que se olhe, onde quer que as mãos toquem, há sensações novas e vibrantes. O borbulhar da água saltitante nos degraus da famosa cascata, o tamanho avassalador dos fetos que rodeiam o lago, o ar puro e fresco que se inspira profundamente… como negar a evidência de um festim sensacional para as entranhas do ser? Mas como em todos os locais cenográficos é para cima que os caminhos levam, num crescendo de espectacularidade. A Cruz Alta é o ponto cimeiro, o passo final da representação encenada para recordar as agruras de Cristo nos últimos dias na Terra. Lá no topo a paisagem é toda muita abraçando a totalidade do horizonte. São 360º de serras verdes e uma branca, a Estrela nevada lá muito ao longe. Há aldeias e vilas e cidades à vista, aglomerados esbranquiçados no regaço dos relevos, abraçados a toda a volta por um país imenso. Não percebo a tal da pequenez quando todo o horizonte nos pertence, a nós, olharapos embasbacados e a nós povo, embasbacados rapa-tachos. De tanto nos fazermos de anõezinhos teremos acabado com o convencimento da pequenez? Mas mais do que pequeninos, somos sobretudo esquecidos… não fazemos caso das façanhas imputáveis, aos descobrimentos, à coragem, aos mundos que ofertámos ao mundo. Talvez precisemos todos de uma Cruz Alta para compreender o nosso lugar. Cruzes carregamos muitas e nem sempre sabemos escolher as mais leves. É só quando saímos do castrador impacto das nossas fronteiras que revelamos a veracidade dos nossos genes. É ver-nos a ser cientistas, escritores, professores, médicos, artistas, trabalhadores e operários da mais alta estirpe e elevado gabarito. Perante a beleza que se oferece da Cruz Alta é fácil entregarmo-nos a um assoberbado orgulho que engrandece os nossos sentimentos. Mas não seria preciso tanto, bastaria recuar na História e pensar mas invasões francesas e no desfecho de uma certa batalha… Essa mesma que vai buscar o nome àquele local onde os exército estrangeiro de intenções conquistadoras, comandado por Massena foi derrotado e mandado para trás. Naquela altura, quando toda a Europa já se dobrava para fazer vénias a Napoleão, nós, os tais pequenos, sem ambição e sem objectivos ainda lhe dávamos luta. E que luta! 65000 franceses, bem armados e equipados contra 25000 dos nossos, mal calçados e pior armados e outros tantos de Inglaterra, um pouco melhor ataviados. Fechando os olhos talvez o vento ainda traga algum do cheiro a pólvora e o barulho dos canhões. Uma ou outra bala rasante furando as folhas largas dos castanheiros ou das borracheiras.
O devaneio de Manini talvez represente isso mesmo, o sonho de um país que se permite sonhar como país, que defende esse sonho vai para 800 orgulhosos anos, independente e senhor do seu destino.
Havia quem quisesse para esse sonho um 5º império, mas disso rezarão outras crónicas…
O devaneio de Manini talvez represente isso mesmo, o sonho de um país que se permite sonhar como país, que defende esse sonho vai para 800 orgulhosos anos, independente e senhor do seu destino.
Havia quem quisesse para esse sonho um 5º império, mas disso rezarão outras crónicas…

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