quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Quebrou-se o encanto...


Quebrou-se o encanto e esvaiu-se o conforto proporcionado pela ignorância. Não aquela de nada saber mas a outra de assumir verdades que o não são. Ante a evidência da limitação do espiríto não me resta mais nada a fazer senão aceitar o retrocesso, o voltar atrás da condição humana: perdeu-se a capacidade de aprender e regenerar o ser. Simplesmente isso. Quando se julga que se atingiu a superioridade o espiríto fica preguiçoso, desleixado, entra num marasmo ignorante, que todos subestima e todos afasta. Eu afasto-me neste momento. Não é um jogo em que queira participar, porque não gosto de ver perder...

O pedestal em que alguns se colocam tem má acústica e fica longe. Os de baixo cansam-se antes de lá chegar e gritando não se conseguem fazer ouvir. E num assomo de clarividência autista, aquele que se senta no trono alto só vê a ausência de reacções. Não sente os apelos nem os atropelos, os desdobramentos e o esforço pelo bem comum. Lá em cima onde a multidão não chega, e os ecos chegam adormecidos, cresce a sensação da solidão. Primeiro uma impressão desconfortável que atravessa o corpo, depois o silêncio que ocupa a maior parte dos dias, lá mais para o frente o monólogo apaixonado em torno da incompreensão.

Já não sensação mas solidão cheia e farta, vive-se no castelo de cartas sem perceber a fragilidade dos alicerces. Como monarca em reino do absoluto, não é preciso questionar o milagre dos produtos acabados, das tarefas realizadas, dos serviços cumpridos. A aparição é o milagre da organização desse estado de perfeição auto induzido e sem compreender a intrincada relação de acções e cooperações, de trocas e ajudas entre a populaça, recolhe-se ao leito com a grata recompensa do fruto colhido. A árvore não precisa que lhe digam que tem de dar os seus frutos. Tampouco precisa de agradecimento. É um estádio natural da sua vida e quem mais digno para se saciar que um monarca do absoluto?

Lá em baixo, desmobilizam as tentativas, fartos de gritar e tentar trepar até ao cimo da montanha. No topo, o escuro da paisagem toma conta da vista, embalando os olhos num sono negro, sem novidades, sem aprendizagens...

No céu, os deuses repetem até à exaustão as receitas de antanho. E a vida continua lá em baixo na terra aprendendo a cada dia a forma de melhorar o anterior. O legado de Darwin permanece vivo.

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