Os médicos dizem que andar de bicicleta faz bem. Referem as vantagens para o sistema cardiovascular, a perda de peso, o fortalecimento dos músculos, a melhoria na capacidade respiratória... Em tudo isso estão certos, foi para isso que estudaram e é até do domínio público.
Contudo esquecem, ou não sabem o que é realmente mais importante e o motivo pelo qual milhares de pessoas por esse mundo fora saem de casa montados nas suas bicicletas, rumo ao emprego, às compras simples do dia, ou então por puro lazer.
As pessoas fazem-no porque não é poluente, fazem-no porque é rápido, porque vão em contacto com os elementos. Fazem-no porque acabada a cavalaria andante, tiveram de buscar alternativas, e esta é a que melhor entende a liberdade do conceito. Pode-se ir de bicicleta até ao fim do mundo, disso podem ter a certeza. Não se fica dependente de combustível, a manutenção é reduzida, viaja-se a um ritmo que nos coloca em real contacto com os locais.
No meu caso, a bicicleta é um veículo de evasão, um meio para afastar as preocupações ao mesmo tempo que me afasto das cidades, rumo ao campo, à natureza, à liberdade dos grandes espaços. Deram-lhe o nome de BTT - a bicicleta todo o terreno. E eu acedo a ir a todos os terrenos.
Agora nasceu o interesse pelas maratonas, participar em provas com mais gente para testar a resistência e a capacidade de sacrifício. Competir comigo mesmo, com a medalha a ser atribuída à capacidade de chegar ao fim, doam as pernas, doa o corpo, doam as eventuais feridas do caminho. Mas chegar ao fim!
Portalegre e a sua maratona simbolizam esse espírito e os milhares de betetístas que lá acorrem compreendem certamente isto que acabei de dizer. Outros não. Aqueles que atiram ao chão os invólucros das barras de cereais, que deixam as camâras de ar furadas no meio dos montes, que só olham para a frente e para o pódio, ignorando a partilha da experiência, a entreajuda, a camaradagem, estão a milhas deste sentimento.
Creio, felizmente que não é a maioria. E depois há o coloridos dos jerseys, a variedade de modelos de velocípedes, os carbonos, os titânios, os alumínios e os aços. Há as gentes de todo o país e até do entrangeiro. E o tiro de partida que a todos coloca em marcha. Depois somos nós e o terreno, nós contra o tempo e as dificuldades do traçado.
As subidas são o mal que todos temem, é aí onde o sacrifício é feito e onde as capacidades mais têm de ser mobilizadas. Eu gosto, escolho uma relação de mudanças ao meu gosto, nem muito leve , e certamente que não pesada e atiro-me às curvas de nível, a respiração pausada, regular, inspira pelo nariz, expira pela boca...
Há uma imagem que recordo da última participação: uma subida estreita, entupida por tanta gente, impossível de fazer montado por causa da multidão. Pé ante pé, bicicleta ao lado a empurrão e o olhar para trás, para avaliar a posição relativa para saber se se estava à frente. As cabeças saltitando pareciam lembrar um exército, o de Aníbal atravessando os Alpes com os seus elefantes, ordenados, ritmados, como uma peça numa engrenagem maior.
Afinal, o resumo da nossa importância: uma peça numa engrenagem maior.
Melhorei o registo em relação ao ano anterior, roubei tempo e posições mas tampouco é isso o mais importante.
Ver a Serra de São Mamede lá de cima, os vales verdes, o recorte das ribeiras, os prados cobertos de flores, as pistas encurvadas por entre os sobreiros, tudo contribuí para distrair a mente enquanto o corpo se dá ao manifesto.
A cada saída de bicicleta é um mundo novo que se descobre e nós descobrimo-nos com ele. Somos sempre capazes de mais do que julgamos e cada pedalada extra é um ganho acrescentado. Para o olhar fica a contemplação, para a alma a satisfação de saber que há mais para além da pequenez do dia a dia.
quarta-feira, 20 de dezembro de 2006
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