Le Pont Des Arts acaba por ser o ponto de partida mais adequado para partir rumo à descoberta da Paris dos pintores de rua, das paisagens cartão postal, dos alfarrabistas de beira-rio.
Situada mesmo ao lado do Louvre foi originalmente construída em 1804. A estrutura de ferro forjado assente sobre pilares de pedra testemunham a engenharia da época, nos primórdios da Revolução Industrial.
Em 1985 voltaram as obras para devolver à estrutura o brilho e funcionalidade naquela que ficou a ser uma ponte exclusivamente pedonal. Os artistas escolheram-na para poisar os seus cavaletes e recolherem a partir dali a inspiração que guia os traços na tela. É uma ponte ligeira, elegante, daquelas que enganam o olhar fazendo-se de mais rígidas e robustas do que são na realidade. Os milhares de pés em passagem vêem devolvida toda a trepidação e vibração como um terramoto em pequenino mas os artistas permanecem impassíveis, imperturbáveis, como que acometidos pelo feitiço da fada verde dos impressionistas, o bom e velho absinto.
Por baixo o Sena navegando no seu percurso silencioso e silenciado. A poluição deixa-o moribundo e sem resposta. A cidade olha-se em espelho baço procurando a devolução de alguma coisa, a confirmação da beleza e da vaidade. "Sena meu, há alguma cidade mais bela que eu?"
Já não devolve uma resposta capaz, fica indeciso, duvidoso. Os milhares de turistas que se sentam nas suas margens segredam confidências que o deixam a pensar. Uns dizem que Nova Iorque é mais imponente, outros que Londres é mais viciante, alguns que não há como a luz de Lisboa, outros que não há história como a de Roma.
Paris pergunta novamente, busca conforto na confirmação da beleza. O Sena já não sabe e a cidade também não por causa dos reflexos distorcidos.
Dizem que as cidades recolhem dos rios que as banham parte da sua personalidade. Acho que não, nenhum rio se rala, toda a água trazida as abandona na torrente, seguindo em frente sem olhar para trás. As cidades é que bebem das qualidades dos rios, do seu ímpeto, da sua imagem...
Na Pont Des Arts e olhando com atenção, não sei se são artistas os pintores que lá param... os motivos repetidos, as telas sempre iguais. São sempre o mesmo Louvre deitado sobre a margem, os mesmos arcobotantes de Notre Dame, a mesma fachada da Madeleine. Há até quem monte o cavalete e exiba a Torre Eiffel, de tão afastada não se dá visto, recolhida noutra curva do rio. Pintar à vista não consegue e de memória não convence. Porquê ali de onde a paisagem é tão distractiva, tão plena de estímulos e inspirações?
Le Pont des Arts, afinal é como as ruas da Baixa Pombalina organizadas por profissões, artistas de ramos diversos. É uma espécie de ghetto cultural para onde remetem os fiéis do pincel e óleo mantendo o resto da cidade limpa. Ainda há muito para fazer nesse sentido... muitas almas para converter e atrair ao passadiço.
Acabei de me lembrar de algo macabro: imaginem que queriam honrar os heróis da revolução, a Praça da Bastilha despida de castelo-prisão. Avante guilhotineiros, a vós o vosso espaço!

Sem comentários:
Enviar um comentário