Havia na parede do meu quarto um mapa. Era um mapa de Portugal, parecido com aqueles que haviam nas escolas primárias, com as províncias de cada cor, as principais cidades e as zonas de maior relevo.
O meu ajuntava ao panorama as estradas e autoestradas, sistema capilar de circulação nacional e marcava com algum rigor muitas terras, terrinhas e terreolas. Um dia dei comigo a espetar-lhe alfinetes, cada nome que me era familiar por já lá ter estado recebia a sua espetadela. Estava a usar daqueles com uma bola colorida na extremidade, pensava que assim seria mais fácil visualizar no conjunto do país as zonas que tinha tido oportunidade de conhecer. É um facto que deu essa visão de conjunto mas em certos casos havia demasiado conjunto! As bolas de plástico encavalitavam-se umas nas outras porque os locais que marcavam eram igualmente próximos no terreno. Só que assim, tornava-se impossível ler os nomes e descobrir novamente que itinerários haviam sido cumpridos.
Um a um arranquei cada um daqueles alfintes de cabeço bojuda e substitui-os por normais, de cabeça metálica, pequena e discreta. Não demorou a parecer-se com um porco espinho com uma série de alfinetes metálicos sobressaindo do papel colorido, desde Braga a Bragança, de Évora a Évoramonte, de Lisboa a Almeida. Obviamente as maiores concentrações acompanhavam o litoral e o traçado das autoestradas, consequência natural e directa do (des)ordenamento do território realizado nas últimas décadas. Mas aqui e ali afastando-se desses itinerários principais para dar de caras com um Penedono, um Montesinho, um Mourão, um Marmelete, ou um Deixa o Resto.
Lembro-me de ter pensado que parecia um país numa sessão de acumpunctura, sabe-se lá para tratar que males. Pensei melhor. As agulhas, afinal, não tratavam Portugal, destinavam-se a apaziguar outro mal: os meus bichos carpinteiros.

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