quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

O mapa espinho


Havia na parede do meu quarto um mapa. Era um mapa de Portugal, parecido com aqueles que haviam nas escolas primárias, com as províncias de cada cor, as principais cidades e as zonas de maior relevo.

O meu ajuntava ao panorama as estradas e autoestradas, sistema capilar de circulação nacional e marcava com algum rigor muitas terras, terrinhas e terreolas. Um dia dei comigo a espetar-lhe alfinetes, cada nome que me era familiar por já lá ter estado recebia a sua espetadela. Estava a usar daqueles com uma bola colorida na extremidade, pensava que assim seria mais fácil visualizar no conjunto do país as zonas que tinha tido oportunidade de conhecer. É um facto que deu essa visão de conjunto mas em certos casos havia demasiado conjunto! As bolas de plástico encavalitavam-se umas nas outras porque os locais que marcavam eram igualmente próximos no terreno. Só que assim, tornava-se impossível ler os nomes e descobrir novamente que itinerários haviam sido cumpridos.

Um a um arranquei cada um daqueles alfintes de cabeço bojuda e substitui-os por normais, de cabeça metálica, pequena e discreta. Não demorou a parecer-se com um porco espinho com uma série de alfinetes metálicos sobressaindo do papel colorido, desde Braga a Bragança, de Évora a Évoramonte, de Lisboa a Almeida. Obviamente as maiores concentrações acompanhavam o litoral e o traçado das autoestradas, consequência natural e directa do (des)ordenamento do território realizado nas últimas décadas. Mas aqui e ali afastando-se desses itinerários principais para dar de caras com um Penedono, um Montesinho, um Mourão, um Marmelete, ou um Deixa o Resto.

Lembro-me de ter pensado que parecia um país numa sessão de acumpunctura, sabe-se lá para tratar que males. Pensei melhor. As agulhas, afinal, não tratavam Portugal, destinavam-se a apaziguar outro mal: os meus bichos carpinteiros.

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