
Da Lagoa de Mira a Mira vão meia dúzia de quilómetros. Meia dúzia é exagero, é quase navegação à vista, basta contornar a água para lá se chegar. É um instante. E foi um instante precioso.
Nesta história entram 4 personagens, 2 principais, 1 secundária e 1 figurante. Do figurante não ficou memória, nem o nome se guardou. Apanhou boleia e entrou num filme quase por acaso. A personagem secundária, por sua vez, teve um daqueles papéis sem os quais o enredo não avança pois se não fosse ter perdido os óculos, não teria pedido boleia para ir a Mira comprar lentes, a amiga não teria ido com ela e as personagens principais não se teriam cruzado. Perder-se-ia um excelente romance. Uma vida a dois destinada a durar para sempre.
Foi assim que aconteceu: era uma vez a Gaby, vamos chamar-lhe assim para dar nome à personagem, que perdeu os óculos. Sem eles, digamos que fica sem ver lá muito bem: dores de cabeça começam a atormentá-la, passa a viver num mundo de formas difusas e desfocadas... a bem dizer fica para lá de cegueta. Em casa tinha outros mas ia demorar-se ali todo o fim de semana e era incomportável estar 2 dias naquela situação.
No hotel, ia o actor principal a passar com as chaves do carro a tilintar na mão, absorto nos seus pensamentos, e logo a Gaby lhe fez o "fadinho" para a ajudar a encontrar um oculista. Certamente que em Mira haveria um, não parecia ser terra assim tão pequena...
- "Eu pago a gasolina. É que não consigo ver nada sem óculos!"
Deixou-se convencer, sair do aldeamento até seria bem vindo para vencer o marasmo da fria tarde de Novembro naquelas latitudes. Quando deu por ele já tinha o carro lotado de acompanhantes: o figurante que estava farto do café rasca do aldeamento e a amiga que ia com a estouvada da esquecida para evitar que se metesse em sarilhos. Uma espécie de anjo da guarda. E ele anjo da guarda das duas. O outro, faz de conta, era como o burrico do presépio, simplesmente para compor o cenário.
Durante o curto trajecto ambos os anjos trocaram olhares e observações: ela avaliando a segurança e suavidade da condução, as mudanças escolhidas e a doçura dos gestos, ele descobrindo os olhos castanhos reflectidos no retrovisor. Dir-se-ia que foi o início de alguma coisa...
Em Mira o oculista estava fechado. Nada de lentes de contacto para ninguém. Foram então beber o tal café. Encontraram um saboroso e cheiroso expresso, cheio de espuma e qualidades, e o dono do estabelecimento cheio de conhecimentos. Logo foi informando que junto ao mar, na localidade sobranceira ao oceano, num centro comercial "ali próximo do centro", havia ma óptica que "com toda a certeza está aberta".
A troupe enfiou-se no carro, contornou a lagoa, passou o aldeamento e fez-se à dita terrinha. tal como vaticinado, a loja estava aberta e, golpe de sorte, haviam as lentes desejadas. Regressaram ao hotel, a Gaby feliz que nem um rato, a conversa amaciada pelo sucesso, os assuntos escorreitos como cerejas e a combinação de uma bebida tardia, depois do jantar, quem sabe um pé de dança no escuro da discoteca.
Assim aconteceu, a bebida, mais assuntos explorados, o figurante que não apareceu e a Gaby encostada a um canto a curar a embriaguez. Restaram os dois. Sussurros ao ouvido para vencer a música alta, mais um pouco de bebida, mais sussurros, uma mão sobre a mão, uma carícia ao de leve, um olhar mais penetrante, um silêncio incómodo. O pressentimento de um beijo. O suave toque dos lábios, primeiro a medo, depois com vontade. O entrelaçar de um abraço.
E a eternidade condensada num momento!
Nesta história entram 4 personagens, 2 principais, 1 secundária e 1 figurante. Do figurante não ficou memória, nem o nome se guardou. Apanhou boleia e entrou num filme quase por acaso. A personagem secundária, por sua vez, teve um daqueles papéis sem os quais o enredo não avança pois se não fosse ter perdido os óculos, não teria pedido boleia para ir a Mira comprar lentes, a amiga não teria ido com ela e as personagens principais não se teriam cruzado. Perder-se-ia um excelente romance. Uma vida a dois destinada a durar para sempre.
Foi assim que aconteceu: era uma vez a Gaby, vamos chamar-lhe assim para dar nome à personagem, que perdeu os óculos. Sem eles, digamos que fica sem ver lá muito bem: dores de cabeça começam a atormentá-la, passa a viver num mundo de formas difusas e desfocadas... a bem dizer fica para lá de cegueta. Em casa tinha outros mas ia demorar-se ali todo o fim de semana e era incomportável estar 2 dias naquela situação.
No hotel, ia o actor principal a passar com as chaves do carro a tilintar na mão, absorto nos seus pensamentos, e logo a Gaby lhe fez o "fadinho" para a ajudar a encontrar um oculista. Certamente que em Mira haveria um, não parecia ser terra assim tão pequena...
- "Eu pago a gasolina. É que não consigo ver nada sem óculos!"
Deixou-se convencer, sair do aldeamento até seria bem vindo para vencer o marasmo da fria tarde de Novembro naquelas latitudes. Quando deu por ele já tinha o carro lotado de acompanhantes: o figurante que estava farto do café rasca do aldeamento e a amiga que ia com a estouvada da esquecida para evitar que se metesse em sarilhos. Uma espécie de anjo da guarda. E ele anjo da guarda das duas. O outro, faz de conta, era como o burrico do presépio, simplesmente para compor o cenário.
Durante o curto trajecto ambos os anjos trocaram olhares e observações: ela avaliando a segurança e suavidade da condução, as mudanças escolhidas e a doçura dos gestos, ele descobrindo os olhos castanhos reflectidos no retrovisor. Dir-se-ia que foi o início de alguma coisa...
Em Mira o oculista estava fechado. Nada de lentes de contacto para ninguém. Foram então beber o tal café. Encontraram um saboroso e cheiroso expresso, cheio de espuma e qualidades, e o dono do estabelecimento cheio de conhecimentos. Logo foi informando que junto ao mar, na localidade sobranceira ao oceano, num centro comercial "ali próximo do centro", havia ma óptica que "com toda a certeza está aberta".
A troupe enfiou-se no carro, contornou a lagoa, passou o aldeamento e fez-se à dita terrinha. tal como vaticinado, a loja estava aberta e, golpe de sorte, haviam as lentes desejadas. Regressaram ao hotel, a Gaby feliz que nem um rato, a conversa amaciada pelo sucesso, os assuntos escorreitos como cerejas e a combinação de uma bebida tardia, depois do jantar, quem sabe um pé de dança no escuro da discoteca.
Assim aconteceu, a bebida, mais assuntos explorados, o figurante que não apareceu e a Gaby encostada a um canto a curar a embriaguez. Restaram os dois. Sussurros ao ouvido para vencer a música alta, mais um pouco de bebida, mais sussurros, uma mão sobre a mão, uma carícia ao de leve, um olhar mais penetrante, um silêncio incómodo. O pressentimento de um beijo. O suave toque dos lábios, primeiro a medo, depois com vontade. O entrelaçar de um abraço.
E a eternidade condensada num momento!

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