segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Hotel Astória

Andou um dia inteiro pelas ruas de Coimbra, errante, queimando tempo, vendo todas as montras que encontrava, entrando em cada igreja e lendo cada placa informativa dos monumentos. Mesmo assim sobrava tempo, entupido nessa ampulheta universal que a todos rege. Por mais que se esforçasse em olhares demorados e passos lentos, cada mirada para o relógio só confirmava essa conspiração que atentava contra si. O encontro estava marcado para as 5 horas junto ao Hotel Astória no Largo da Portagem. Daí partiriam para as serras acompanhando o Mondego em busca de algum refúgio. Dos chamados problemas da vida, das pessoas, do trabalho, do próprio mundo quando este começa a pesar demasiado.
A demora estava a ser demasiada, a própria cidade arriscava-se a não chegar para gastar tanto tempo...
Andava, andava... e quanto mais andava mais vinha parar ao mesmo sítio, como se o anfiteatro natural onde a cidade foi erigida lhe conduzisse os passos sempre na mesma direcção. No seu périplo pela cidade do conhecimento verificou as suas origens antigas. Os panos de muralhas restantes, as portas acasteladas, as torres resistentes e adaptadas a outros fins evocavam um passado muçulmano eloquente, do qual nem sequer a Universidade, no alto, ex-libris por mérito próprio, escapa. O seu traçado vai buscar a esquadria à fortificação árabe destinada a ocupar a posição cimeira. Depois, por ali abaixo, ruas, ruelas e becos confundem-se com qualquer localidade mourisca com os seus cotovelos apertados, os recantos escondidos e as passagens estreitas. A chegada dos cristãos não foi suficiente para "civilizar" essa aparente desordem, talvez porque não fossem assim tão "civilizados", quiçá porque não tinham arte nem engenho para melhorar o que encontraram.
Perdurou assim o esquisso até aos dias actuais que a mole de estudantes vestidos de negro soube re-inventar e dar fama com as suas serenatas, as suas tertúlias, as suas bebedeiras... À luz do dia as Repúblicas ainda existentes repousam dos desavrios nocturnos. Não fossem os escritos irreverentes nas paredes e nada as denunciaria na pacatez sonolenta do centro histórico.
Às 5 em ponto lá estava ele em frente ao Astória lançando o olhar sobre o Basófias, esse rio empola-tudo que se fazia de grande no Inverno para minguar à farta no pico do calor. Hoje um dique próximo disfarça tamanha gabarolice. é um acordo que serve ambas as partes: o rio não passa vergonhas, a urbe vê-se ao espelho todo o ano.
5 horas e ele lá. Duas mãos vindas de trás tapam-lhe os olhos. Uma voz adoçicada sussurra-lhe ao ouvido um desafio de adivinhação. Ele aceita e acerta. Eles beijam-se. As intenções de antes perdem razão de ser, ir para as montanhas buscar os ares da serra fez-se desejo desnecessário.
A noite em Coimbra fez-se de maiores encantos.

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