terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Dizem que o cinema antigo tinha outra magia, os actores e actrizes eram de outra estirpe e os argumentos com mais enredo. Os filmes não primavam pelos efeitos especiais, ora porque a tecnologia não permitia mais , ora porque os géneros mais em voga não necessitavam de tais enganos. Mas como ainda ainda sucede, alguns temas mereciam outro empenho por parte da realização: o terror e a sci-fi . Em comparação não eram necessariamente melhores, tecnicamente não eram certamente e artisticamente a avaliação depende de cada um. Eram diferentes, com tudo o que de valorativo ou pejorativo a palavra encerra...
Os defensores falam de uma chama, um toque de subtil chamamento ao público que nutria pelos artistas verdadeiras paixões e reconhecimento. Há quem diga que o cinema era mais autêntico...
No outro dia, enquanto fazia zapping passei os olhos por um separador de um canal qualquer, no intervalo de uma série qualquer que jogava com imagens dos filmes mudos. Não eram filmes quaisquer. O preto e branco e as expressões exageradas continham realmente algo de diferente, especialmente tratando-se de películas de terror onde o susto e a emoção exarcebada constituem as reacções ansiadas, e frequentemente alcançadas.
Compreendi que a tal magia, a tal autenticidade, a tal genuinidade eram conferidas não pelo milagre da tecnologia, mas pelo mistério da humanidade, que encerra em si a capacidade de ser tudo pela força da expressão. Aqueles actores eram realmente actores. Qualquer filme moderno já teria sangue e tripas de fora, miolos espalhados e ossos partidos nos cinco primeiros minutos, tudo adicionado com mestria recorrendo a um computador e complicadas técnicas de manipulação de imagem. O horror seria genuíno, mais não fosse pelo nojo provocado. Naquela altura, apenas a música e a expressão das personagens tinham o poder de levar ao terror, baseado numa tensão psicológica difícil de ignorar e que prendia à cadeira por curiosidade no desfecho e ausência de reacção física. As personagens não se mostravam apenas más, ou horripilantes, não eram apenas ameaçadoras, em alguns casos eram possuidoras de traços de humanidade que comoviam e davam certa pena. Não eram simplesmente ofensores, eram frequentemente vítimas de um acontecimento qualquer que justificava as suas acções. Não as desculpando tornava congruente a sua existência, a sua razão de ser.
Os efeitos especiais valiam de pouco de tão inverosímeis, com sorte denunciavam o carácter falso do monstro pela incongruência da apresentação.
E por iso vingaram actores como Bela Lugosi, Max Shrek, Boris Karloff ou Christopher Lee...
Depois destes outros vieram utilizando as mesmas armas e conseguiram sempre mais do que aqueles que se limitaram a usar e abusar da imagem virtual.
O que se calhar vem provar que as pessoas gostam de bestas emocionadas, com quem se possam identificar porque possíveis de encontrar numa rua escura ou beco perto.
As pessoas gostam de estar entre seus iguais.

Sem comentários: