quarta-feira, 27 de dezembro de 2006
Visita Catalunha
Tsunami - Maremoto
217.500 escaparam aos media mas não às ondas, não à sina de viverem em pedaços de areia, terra e rocha negra, largados ao acaso pelo Índico, ou por ele banhados. Fosse no Pacífico e não teria acontecido, que não é oceano para grandes altercações. Ou talvez acontecesse, que isto de paz e descanso nem sempre evita que se salte a tampa.
Sem pejo tantos seres minúsculos foram engolidos, alguns até aí nunca tinham visto o mar. NUNCA. Foram apanhados no meio da selva de onde nunca tinham saído, alguns a vários km do oceano. Foram apanhados a meio da viagem de comboio a caminho do trabalho, algures numa cidade tão pobre quanto eles, apanhados no decurso do seu atormentado percurso.
1000Passos
Agarra-me Esta Noite
Para lá do Marão
terça-feira, 26 de dezembro de 2006
Narciso
A insatisfação devia vir com instruções de uso. Para ser o motor de coisas boas era importante que as pessoas soubessem como a transformar nesse élan primordial e fundamental que guia os passos numa direcção decidida, única, transponível. Até lá, até vir com as ditas sugestões de utilização, cada qual faça a sua sentença e aguente-se à bronca devida.
Os defensores falam de uma chama, um toque de subtil chamamento ao público que nutria pelos artistas verdadeiras paixões e reconhecimento. Há quem diga que o cinema era mais autêntico...
No outro dia, enquanto fazia zapping passei os olhos por um separador de um canal qualquer, no intervalo de uma série qualquer que jogava com imagens dos filmes mudos. Não eram filmes quaisquer. O preto e branco e as expressões exageradas continham realmente algo de diferente, especialmente tratando-se de películas de terror onde o susto e a emoção exarcebada constituem as reacções ansiadas, e frequentemente alcançadas.
Compreendi que a tal magia, a tal autenticidade, a tal genuinidade eram conferidas não pelo milagre da tecnologia, mas pelo mistério da humanidade, que encerra em si a capacidade de ser tudo pela força da expressão. Aqueles actores eram realmente actores. Qualquer filme moderno já teria sangue e tripas de fora, miolos espalhados e ossos partidos nos cinco primeiros minutos, tudo adicionado com mestria recorrendo a um computador e complicadas técnicas de manipulação de imagem. O horror seria genuíno, mais não fosse pelo nojo provocado. Naquela altura, apenas a música e a expressão das personagens tinham o poder de levar ao terror, baseado numa tensão psicológica difícil de ignorar e que prendia à cadeira por curiosidade no desfecho e ausência de reacção física. As personagens não se mostravam apenas más, ou horripilantes, não eram apenas ameaçadoras, em alguns casos eram possuidoras de traços de humanidade que comoviam e davam certa pena. Não eram simplesmente ofensores, eram frequentemente vítimas de um acontecimento qualquer que justificava as suas acções. Não as desculpando tornava congruente a sua existência, a sua razão de ser.
Os efeitos especiais valiam de pouco de tão inverosímeis, com sorte denunciavam o carácter falso do monstro pela incongruência da apresentação.
E por iso vingaram actores como Bela Lugosi, Max Shrek, Boris Karloff ou Christopher Lee...
Depois destes outros vieram utilizando as mesmas armas e conseguiram sempre mais do que aqueles que se limitaram a usar e abusar da imagem virtual.
O que se calhar vem provar que as pessoas gostam de bestas emocionadas, com quem se possam identificar porque possíveis de encontrar numa rua escura ou beco perto.
sexta-feira, 22 de dezembro de 2006
quinta-feira, 21 de dezembro de 2006
Quebrou-se o encanto...
quarta-feira, 20 de dezembro de 2006
PTG 100
Contudo esquecem, ou não sabem o que é realmente mais importante e o motivo pelo qual milhares de pessoas por esse mundo fora saem de casa montados nas suas bicicletas, rumo ao emprego, às compras simples do dia, ou então por puro lazer.
As pessoas fazem-no porque não é poluente, fazem-no porque é rápido, porque vão em contacto com os elementos. Fazem-no porque acabada a cavalaria andante, tiveram de buscar alternativas, e esta é a que melhor entende a liberdade do conceito. Pode-se ir de bicicleta até ao fim do mundo, disso podem ter a certeza. Não se fica dependente de combustível, a manutenção é reduzida, viaja-se a um ritmo que nos coloca em real contacto com os locais.
No meu caso, a bicicleta é um veículo de evasão, um meio para afastar as preocupações ao mesmo tempo que me afasto das cidades, rumo ao campo, à natureza, à liberdade dos grandes espaços. Deram-lhe o nome de BTT - a bicicleta todo o terreno. E eu acedo a ir a todos os terrenos.
Agora nasceu o interesse pelas maratonas, participar em provas com mais gente para testar a resistência e a capacidade de sacrifício. Competir comigo mesmo, com a medalha a ser atribuída à capacidade de chegar ao fim, doam as pernas, doa o corpo, doam as eventuais feridas do caminho. Mas chegar ao fim!
Portalegre e a sua maratona simbolizam esse espírito e os milhares de betetístas que lá acorrem compreendem certamente isto que acabei de dizer. Outros não. Aqueles que atiram ao chão os invólucros das barras de cereais, que deixam as camâras de ar furadas no meio dos montes, que só olham para a frente e para o pódio, ignorando a partilha da experiência, a entreajuda, a camaradagem, estão a milhas deste sentimento.
Creio, felizmente que não é a maioria. E depois há o coloridos dos jerseys, a variedade de modelos de velocípedes, os carbonos, os titânios, os alumínios e os aços. Há as gentes de todo o país e até do entrangeiro. E o tiro de partida que a todos coloca em marcha. Depois somos nós e o terreno, nós contra o tempo e as dificuldades do traçado.
As subidas são o mal que todos temem, é aí onde o sacrifício é feito e onde as capacidades mais têm de ser mobilizadas. Eu gosto, escolho uma relação de mudanças ao meu gosto, nem muito leve , e certamente que não pesada e atiro-me às curvas de nível, a respiração pausada, regular, inspira pelo nariz, expira pela boca...
Há uma imagem que recordo da última participação: uma subida estreita, entupida por tanta gente, impossível de fazer montado por causa da multidão. Pé ante pé, bicicleta ao lado a empurrão e o olhar para trás, para avaliar a posição relativa para saber se se estava à frente. As cabeças saltitando pareciam lembrar um exército, o de Aníbal atravessando os Alpes com os seus elefantes, ordenados, ritmados, como uma peça numa engrenagem maior.
Afinal, o resumo da nossa importância: uma peça numa engrenagem maior.
Melhorei o registo em relação ao ano anterior, roubei tempo e posições mas tampouco é isso o mais importante.
Ver a Serra de São Mamede lá de cima, os vales verdes, o recorte das ribeiras, os prados cobertos de flores, as pistas encurvadas por entre os sobreiros, tudo contribuí para distrair a mente enquanto o corpo se dá ao manifesto.
A cada saída de bicicleta é um mundo novo que se descobre e nós descobrimo-nos com ele. Somos sempre capazes de mais do que julgamos e cada pedalada extra é um ganho acrescentado. Para o olhar fica a contemplação, para a alma a satisfação de saber que há mais para além da pequenez do dia a dia.
terça-feira, 19 de dezembro de 2006
Pont Des Arts
O veneno - Le Poison
E faz surgir mais de um pórtico fabuloso
No oiro dos seus vapores,
como um sol no ocaso de um céu nebuloso
(...)"
Dans l'or se sa vapeur rouge,
Ile Saint Louis
Algumas janelas com os cortinados afastados deixam antever o luxo e opulência dos interiores, hoje, ainda e sempre nas mãos de uma burguesia endinheirada, fina flor das listas de clientes de qualquer banco na Suiça.
Foi assim, por acaso e sem pressas que demos com aquela loja magnífica expositora das mais belas máscaras venezianas e outras caraças de teatro.
Minto ligeiramente, foi à pressa! Urgência de protecção de um aguaceiro de Verão. A nuvem sem avisar atirou a despejar o dilúvio sobre Saint Louis e apanhando-nos pelo meio, em fuga nos colocou. Corremos pela calçada escorregadia e a primeira loja que encontrámos transformou-se em refúgio. Entrámos de um salto, ficámos uns segundos mirando a bátega de água em queda, desfazendo-se numa ligeira névoa no impacto com o solo mas quando nos virámos, já agora para ver o que se vendia, espanto ante a beleza dos artigos, a suavidade das cores, a profusão das expressões. Máscaras de alegria, de tristeza, de medo, de admiração, de dúvida... Faces de mimo arrancadas do mimo, só a cara impressa em gesso.
A chuva foi-se como veio e nós fomos mais ricos, mais preenchidos e felizes. Descemos o resto da rua até ao semáforo, o braço dado como nos idos de antigamente. Ao virar da esquina um olhar a dois para a rua encharcada até aos alicerces e um sorriso cúmplice a uma viagem prometida: a Veneza no carnaval. C'est pas mal!
segunda-feira, 18 de dezembro de 2006
A vida transportada para sons
quinta-feira, 14 de dezembro de 2006
A gente vai continuar
O que lá vai já deu o que tinha a dar.
Quem ganhou, ganhou, usou-se disso,
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar.
E enquanto alguns fazem figura,
Outros sucumbem à batota,
Chega a mão ao que tu quiseres
Mas goza bem a tua rota.
Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar,
enquanto houver estrada pra andar.
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar,
Enquanto houver ventos e mar.
Todos nós pagamos por tudo o que usamos.
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não!
Somos todos escravos do que precisamos,
Reduz as necessidades, se queres passar bem.
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo.
Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar.
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar.
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar.
quarta-feira, 13 de dezembro de 2006
O mapa espinho
segunda-feira, 11 de dezembro de 2006
Ferragudo
Mira

Nesta história entram 4 personagens, 2 principais, 1 secundária e 1 figurante. Do figurante não ficou memória, nem o nome se guardou. Apanhou boleia e entrou num filme quase por acaso. A personagem secundária, por sua vez, teve um daqueles papéis sem os quais o enredo não avança pois se não fosse ter perdido os óculos, não teria pedido boleia para ir a Mira comprar lentes, a amiga não teria ido com ela e as personagens principais não se teriam cruzado. Perder-se-ia um excelente romance. Uma vida a dois destinada a durar para sempre.
Foi assim que aconteceu: era uma vez a Gaby, vamos chamar-lhe assim para dar nome à personagem, que perdeu os óculos. Sem eles, digamos que fica sem ver lá muito bem: dores de cabeça começam a atormentá-la, passa a viver num mundo de formas difusas e desfocadas... a bem dizer fica para lá de cegueta. Em casa tinha outros mas ia demorar-se ali todo o fim de semana e era incomportável estar 2 dias naquela situação.
No hotel, ia o actor principal a passar com as chaves do carro a tilintar na mão, absorto nos seus pensamentos, e logo a Gaby lhe fez o "fadinho" para a ajudar a encontrar um oculista. Certamente que em Mira haveria um, não parecia ser terra assim tão pequena...
- "Eu pago a gasolina. É que não consigo ver nada sem óculos!"
Deixou-se convencer, sair do aldeamento até seria bem vindo para vencer o marasmo da fria tarde de Novembro naquelas latitudes. Quando deu por ele já tinha o carro lotado de acompanhantes: o figurante que estava farto do café rasca do aldeamento e a amiga que ia com a estouvada da esquecida para evitar que se metesse em sarilhos. Uma espécie de anjo da guarda. E ele anjo da guarda das duas. O outro, faz de conta, era como o burrico do presépio, simplesmente para compor o cenário.
Durante o curto trajecto ambos os anjos trocaram olhares e observações: ela avaliando a segurança e suavidade da condução, as mudanças escolhidas e a doçura dos gestos, ele descobrindo os olhos castanhos reflectidos no retrovisor. Dir-se-ia que foi o início de alguma coisa...
Em Mira o oculista estava fechado. Nada de lentes de contacto para ninguém. Foram então beber o tal café. Encontraram um saboroso e cheiroso expresso, cheio de espuma e qualidades, e o dono do estabelecimento cheio de conhecimentos. Logo foi informando que junto ao mar, na localidade sobranceira ao oceano, num centro comercial "ali próximo do centro", havia ma óptica que "com toda a certeza está aberta".
A troupe enfiou-se no carro, contornou a lagoa, passou o aldeamento e fez-se à dita terrinha. tal como vaticinado, a loja estava aberta e, golpe de sorte, haviam as lentes desejadas. Regressaram ao hotel, a Gaby feliz que nem um rato, a conversa amaciada pelo sucesso, os assuntos escorreitos como cerejas e a combinação de uma bebida tardia, depois do jantar, quem sabe um pé de dança no escuro da discoteca.
Assim aconteceu, a bebida, mais assuntos explorados, o figurante que não apareceu e a Gaby encostada a um canto a curar a embriaguez. Restaram os dois. Sussurros ao ouvido para vencer a música alta, mais um pouco de bebida, mais sussurros, uma mão sobre a mão, uma carícia ao de leve, um olhar mais penetrante, um silêncio incómodo. O pressentimento de um beijo. O suave toque dos lábios, primeiro a medo, depois com vontade. O entrelaçar de um abraço.
E a eternidade condensada num momento!
Hotel Astória
A demora estava a ser demasiada, a própria cidade arriscava-se a não chegar para gastar tanto tempo...
Andava, andava... e quanto mais andava mais vinha parar ao mesmo sítio, como se o anfiteatro natural onde a cidade foi erigida lhe conduzisse os passos sempre na mesma direcção. No seu périplo pela cidade do conhecimento verificou as suas origens antigas. Os panos de muralhas restantes, as portas acasteladas, as torres resistentes e adaptadas a outros fins evocavam um passado muçulmano eloquente, do qual nem sequer a Universidade, no alto, ex-libris por mérito próprio, escapa. O seu traçado vai buscar a esquadria à fortificação árabe destinada a ocupar a posição cimeira. Depois, por ali abaixo, ruas, ruelas e becos confundem-se com qualquer localidade mourisca com os seus cotovelos apertados, os recantos escondidos e as passagens estreitas. A chegada dos cristãos não foi suficiente para "civilizar" essa aparente desordem, talvez porque não fossem assim tão "civilizados", quiçá porque não tinham arte nem engenho para melhorar o que encontraram.
Perdurou assim o esquisso até aos dias actuais que a mole de estudantes vestidos de negro soube re-inventar e dar fama com as suas serenatas, as suas tertúlias, as suas bebedeiras... À luz do dia as Repúblicas ainda existentes repousam dos desavrios nocturnos. Não fossem os escritos irreverentes nas paredes e nada as denunciaria na pacatez sonolenta do centro histórico.
Às 5 em ponto lá estava ele em frente ao Astória lançando o olhar sobre o Basófias, esse rio empola-tudo que se fazia de grande no Inverno para minguar à farta no pico do calor. Hoje um dique próximo disfarça tamanha gabarolice. é um acordo que serve ambas as partes: o rio não passa vergonhas, a urbe vê-se ao espelho todo o ano.
5 horas e ele lá. Duas mãos vindas de trás tapam-lhe os olhos. Uma voz adoçicada sussurra-lhe ao ouvido um desafio de adivinhação. Ele aceita e acerta. Eles beijam-se. As intenções de antes perdem razão de ser, ir para as montanhas buscar os ares da serra fez-se desejo desnecessário.
A noite em Coimbra fez-se de maiores encantos.
quinta-feira, 7 de dezembro de 2006
terça-feira, 5 de dezembro de 2006
Amadeu de Souza Cardoso

Gulbenkian é uma das instituições culturais mais importantes do país, e Amadeu de Souza Cardoso, um dos expoentes máximos da arte moderna em Portugal. Em Novembro de 2006 juntaram-se os dois, comemorando dois aniversários: o do cinquentenário da Fundação e a partida do pintor para Paris.
Quanto à pintura, as obras ficaram sem sombra de dúvida na memória, tal como o nosso esforço para compreender o seu conteúdo. Co-adjuvados por um casal também interessado em desvendar os mistérios da arte "Cardoseana" tentou-se entender o porquê dos títulos, as leituras por detrás da primeira impressão, o pormenor escondido que tudo diz. Mais à frente um segurança, que depois de tantas vezes ouvir a explicação do guia e dos visitantes experts em arte, já conhecia os meandros das obras que o rodeavam - um bem-haja ao segurança sem nome ajudou na compreensão de uma ou outra obra. Atabalhoado, sem certezas certas mas com a maior das boas vontades.
Mas foi exactamente um segurança que marcou esta exposição. Esta personagem também sem nome, embora com filiação, encontrava-se numa das portas de entrada para a exposição, e cumprimentava os clientes de forma calorosa.
O primeiro cliente-alvo foi um senhor aparentemente conhecido e conhecedor do nosso anfitrião, que apesar dos esforços de discrição levou uma valente palmada nas costas como cumprimento, mas tão valente, que apesar de não ser um lingrinhas, não teve outra opção senão dar dois passos em frente para se equilibrar. Senti-me bem por não me conhecer...
O segundo cliente, foi alvo de uma situação bem mais caricata, até porque nos deu a conhecer algo mais sobre o nosso personagem. Após olhar com alguma atenção para o ele, disse com um olhar inquisidor mas caloroso: "a sua cara não me é estranha", o cliente olhou também com atenção, mas aparentemente nada no nosso segurança despertou a zona de reconhecimento de faces do seu cérebro. Mas a nossa personagem continuou "Não me está a reconhecer?", e face à expressão envergonhada e avermelhada do interlocutor continuou: "mas eu estou a reconhecê-lo, e o Sr. conhece o meu pai.". O cliente-alvo continuava a olhar como se tivesse sido colocado numa ribalta que não desejava, olhando em volta para tentar perceber a dimensão do palco e da plateia. Por fim a nossa personagem com a já famosa palmada nas costas, alivia o sofrimento do cliente dizendo "Sou eu, o filho do Manuel Bate-Chapas!" No entanto, e apesar das várias oportunidades que o nosso personagem lhe deu, o cliente ficou como estava, a não fazer a mais pálida ideia de quem era aquele senhor sorridente, bem-disposto e à-vontade, mas sem nenhuma ideia do mau-estar que provocava no outro, que se encontava à sua frente.
No Thrills Airlines

Um raio de luz na noite escura

No seu livro existe um conto “ A Última Noite”, cuja personagem principal é Mário Sá Carneiro. Às páginas tantas Mário diz: “Estou a repetir-me, sempre a repetir-me. Escrevo o que já escrevia há cinco anos.”
Estranhas palavras? Talvez não…
Há escritores que escrevem sempre o mesmo livro, cineastas que fazem sempre o mesmo filme… Será que se vivessemos várias vidas, também viveríamos a mesma? Talvez só mudássemos o cenário das viagens que fazemos... E as verdadeiras viagens? As aprendizagens que fazemos nos caminhos que percorremos?
Será que as pessoas com quem nos cruzaríamos deixariam em nós uma herança diferente, ou será que nos ensinariam, tal como ensinam (se estivermos atentos e disponíveis) exactamente aquilo que temos para aprender?
Talvez só mudássemos o cenário…
segunda-feira, 4 de dezembro de 2006
Venda Tribe

A curiosidade leva-nos a perguntar e a maior parte das vezes conseguimos as respostas que ansiamos. mas não sem que se estabeleça um processo de troca. Respondem-nos na condição de poderem, também eles, perguntar. O resultado é um processo mútuo de admiração perante o outro, perante os seus costumes e opções de vida.
Por exemplo, Godfried, o jovem guia do safari no Kruger Park. À primeira vista e a julgar também pelo nome que ostenta, poder-se-ia pensar ser um jovem urbano que bebeu do estilo de vida que os "ocidentais" levaram para aquele país, totalmente desgarrado do mosaico étnico local.
NIM. O nome recebeu-o do médico alemão que o ajudou a nascer na sua aldeia no meio do mato. A sua vida perigou em infante, viu a morte a espreitar detrás do embondeiro mas deixou-se ficar para ir à luta. Deus seria seu amigo e aliado? A crença do médico foi que sim e assim ganhou o seu nome: amigo de Deus - Godfried.
Urbano? O suficiente! Consegue receber os turistas e conviver com os visitantes, é conhecedor das ferramentas informáticas e do universo Web, tem conhecimento geral q.b..Ao mesmo tempo permanece fiel às tradições dos seus, da sua cultura ancestral na tribo Venda.
Não sendo dos grupos mais expressivos no puzzle multiracial da África do Sul, é natural que o estrangeiro não tenha deles qualquer ideia. Num breve apontamento são oriundos do Zimbabué e têm expressão naquela faixa de território que une o Zimbabué, a África do Sul e Moçambique. No mais, combinam casamentos entre as famílias, as mulheres são obrigadas a cumprir os acordos feitos pelos progenitores e os rapazes idem idem, aspas aspas. Na fase de vida em que ainda não atingiram a independência são moeda de troca e o lacre que sela acordos e alianças, são a face visível da união de famílias e clãs quando não de aldeias inteiras. Nos olhos dos tão civilizados europeus (os tais das duas guerras mundiais, lembram-se?) isto poderá ser um comportamento bárbaro e inferior mas a verdade é que moldou o carácter e firmou o sentido de honra daquelas pessoas. O nosso interlocutor é apenas o exemplo mais vívido por estar ali, contando no seu inglês perfeito o conteúdo das suas experiências.
