
Não há como uma tempestade nórdica para nos fazer compreender quão afortunados somos, no que ao clima diz respeito.
Andara toda a manhã a prometer: a temperatura a baixar ligeiramente, o céu a vestir-se de cinzentos progressivamente mais escuros, a brisa a ganhar mais fôlego…
Apesar da promessa de temporal, nem pensar em abdicar do passeio embora antecipássemos a impossibilidade de conhecer Skansen e o seu retrato da Suécia. Fomos caminhando contornando o Báltico e observando a diversidade de barcos, a arquitectura do prédios e o desenho das alamedas. Observando os habitantes de Estocolmo entregues ao seu jogging, ao seu cycling, ao seu rollerskating, enfim ao seu living próprio, despreocupado e descomprometido, indiferente aos humores do clima.
O passeio levou-nos à ilha dos museus e as pernas rapidamente nos guiaram ao Museu Vasa com a chegada das primeiras gotas de chuva. A necessidade de abrigo, acabou por ditar a escolha do programa cultural e assim entrámos no Museu, um hino à incompetência dos homens aliada à mais estúpida e despropositada soberba.
O Museu Vasa recebe o seu nome de um navio, “o mais bem conservado navio do século XVII” com cerca de 90% da sua estrutura original. O navio recebe o seu nome do Rei da altura, figura altamente proeminente do país e do xadrez internacional da época e era suposto ser o maior e mais bonito da armada sueca. Viviam-se tempos de prosperidade e poder, com a coroa a estender o seu domínio por toda a Escandinávia e mares do norte.
O problema é que a ambição desmedida tem por hábito fazer-se pagar caro, primeiro no não olhar-se a custos e depois pelo amargo preço do insucesso. O insucesso do Vasa saiu ao preço das vidas humanas que sugou para o fundo do mar quando se afundou na sua viagem inaugural, duzentos metros depois de soltar amarras.
Os chefes engenheiros sem prática na construção de barcos de tal porte fizeram mal os cálculos e rapidamente se descobriu que o lastro colocado não era suficiente para equilibrar os vários andares de altura de madeira, cordame e lona. Bastou a ligeira ondulação provocada pelo avanço nas águas frias do Báltico, para adornar fatalmente. Seguiram-se os gritos, o pânico, o horror e impotência da populaça que assistia das margens ao lançamento daquele portento. Hoje, o que resta está exposto: um barco de aspecto fantasma e tudo com ele relacionado que o mar entendeu devolver.
O museu em si é espartano e impessoal, consiste num edifício de cimento, quase sem janelas, resguardado da luz exterior por vidros escurecidos. O Vasa anichado em doca seca, com as suas madeiras carcomidas, adensa a atmosfera de luto. É um ser inanimado que jaz perante o visitante e pese embora o empenho e a técnica colocados no seu resgate, pese embora ser o testemunho mais fiel da indústria naval de séculos passados, pese embora tudo isso e mais coisas que as brochuras possam louvar, não deixa de ser também um destroço de uma era em que sangue, suor e lágrimas se confundiam com caprichos reais. E não esquecer igualmente que aquele invólucro de madeira é também o túmulo recuperado de centenas de marinheiros. Corremos toda a exposição, lemos cada um dos painéis informativos, vivemos o museu por dentro. Assimilámos.
Depois, dirigimo-nos para a porta para sair, ir ver mais coisas e mais cidade mas a intempérie, ao invés de abrandar, adensou-se, barrando-nos o caminho. Copiosa, batida a vento e batendo em tudo com estrondo e violência fez-nos reféns da sua vontade. Basta olhar em volta para cimentar a ideia de cerco: uma cortina opaca de água desabando em cima de tudo e unindo-se às águas do Báltico. É o fechar de um ciclo, uma espécie de regresso a casa.
Quanto a nós, creio que percebemos porque é que se visitam menos museus lá pelo burgo, é porque chove menos e a malta quer é praia!
Andara toda a manhã a prometer: a temperatura a baixar ligeiramente, o céu a vestir-se de cinzentos progressivamente mais escuros, a brisa a ganhar mais fôlego…
Apesar da promessa de temporal, nem pensar em abdicar do passeio embora antecipássemos a impossibilidade de conhecer Skansen e o seu retrato da Suécia. Fomos caminhando contornando o Báltico e observando a diversidade de barcos, a arquitectura do prédios e o desenho das alamedas. Observando os habitantes de Estocolmo entregues ao seu jogging, ao seu cycling, ao seu rollerskating, enfim ao seu living próprio, despreocupado e descomprometido, indiferente aos humores do clima.
O passeio levou-nos à ilha dos museus e as pernas rapidamente nos guiaram ao Museu Vasa com a chegada das primeiras gotas de chuva. A necessidade de abrigo, acabou por ditar a escolha do programa cultural e assim entrámos no Museu, um hino à incompetência dos homens aliada à mais estúpida e despropositada soberba.
O Museu Vasa recebe o seu nome de um navio, “o mais bem conservado navio do século XVII” com cerca de 90% da sua estrutura original. O navio recebe o seu nome do Rei da altura, figura altamente proeminente do país e do xadrez internacional da época e era suposto ser o maior e mais bonito da armada sueca. Viviam-se tempos de prosperidade e poder, com a coroa a estender o seu domínio por toda a Escandinávia e mares do norte.
O problema é que a ambição desmedida tem por hábito fazer-se pagar caro, primeiro no não olhar-se a custos e depois pelo amargo preço do insucesso. O insucesso do Vasa saiu ao preço das vidas humanas que sugou para o fundo do mar quando se afundou na sua viagem inaugural, duzentos metros depois de soltar amarras.
Os chefes engenheiros sem prática na construção de barcos de tal porte fizeram mal os cálculos e rapidamente se descobriu que o lastro colocado não era suficiente para equilibrar os vários andares de altura de madeira, cordame e lona. Bastou a ligeira ondulação provocada pelo avanço nas águas frias do Báltico, para adornar fatalmente. Seguiram-se os gritos, o pânico, o horror e impotência da populaça que assistia das margens ao lançamento daquele portento. Hoje, o que resta está exposto: um barco de aspecto fantasma e tudo com ele relacionado que o mar entendeu devolver.
O museu em si é espartano e impessoal, consiste num edifício de cimento, quase sem janelas, resguardado da luz exterior por vidros escurecidos. O Vasa anichado em doca seca, com as suas madeiras carcomidas, adensa a atmosfera de luto. É um ser inanimado que jaz perante o visitante e pese embora o empenho e a técnica colocados no seu resgate, pese embora ser o testemunho mais fiel da indústria naval de séculos passados, pese embora tudo isso e mais coisas que as brochuras possam louvar, não deixa de ser também um destroço de uma era em que sangue, suor e lágrimas se confundiam com caprichos reais. E não esquecer igualmente que aquele invólucro de madeira é também o túmulo recuperado de centenas de marinheiros. Corremos toda a exposição, lemos cada um dos painéis informativos, vivemos o museu por dentro. Assimilámos.
Depois, dirigimo-nos para a porta para sair, ir ver mais coisas e mais cidade mas a intempérie, ao invés de abrandar, adensou-se, barrando-nos o caminho. Copiosa, batida a vento e batendo em tudo com estrondo e violência fez-nos reféns da sua vontade. Basta olhar em volta para cimentar a ideia de cerco: uma cortina opaca de água desabando em cima de tudo e unindo-se às águas do Báltico. É o fechar de um ciclo, uma espécie de regresso a casa.
Quanto a nós, creio que percebemos porque é que se visitam menos museus lá pelo burgo, é porque chove menos e a malta quer é praia!

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