quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Sogne-fjorden



O Fiorde dos Sonhos: Sogne-Fjorden. Começando no nome, que transmite a ideia de algo étereo e irreal, poderoso, marcante e intocável e terminando na paisagem, ela mesma, tudo impressiona naquele pedaço da Noruega. Pensa-se ir avisado para o que se vai encontrar, já se viu nas revistas de viagens e nos sites da internet imagens do paraíso, e de todos os ângulos possíveis, mas quando se chega ao cais de embarque, em Gudvangen, todas essas certezas desaparecem esmagadas pelo cenário.
As montanhas erguem-se majestosas a toda a volta encimadas por alguns lençóis de neve que resistiram todo o Verão e se eternizam até ao próximo. O céu, azul durante toda a manhã, cede aos ímpetos outonais de fim de Agosto e veste-se gradualmente de cinzento, ameaçando desabar sob a forma de chuva a qualquer momento. E depois o mar. sim, porque mesmo a centenas de quilómetros de distância da costa é o mar que ali está, salgado, escuro, gelado, é o mesmo Mar do Norte que banha Bergen ou Oslo ou onde os vikings se lançaram nas suas descobertas. O cheiro é a maresia, a praia, a nortada numa praia no Inverno português e é isso o que impressiona acima de tudo. Estamos no interior, rodeados de montanhas com mais de mil metros de altitude e inalamos o mesmo ar gelado e salmorento do litoral mais bravio e agreste.
é uma beleza plácida, feita de silêncios apenas interrompidos pelo gorgolejar da água nos blocos de pedra que seguram as paredes do cais, o chocalhar ritmado dos riachos que se despenham do alto, saltitanto violentamente sobre cada desnível e obstáculo da encosta, ou as sirenes dos ferries que anunciam a chegada ou a largada.
É um silêncio que enche a alma, ancestral.
Embarcamos, todo o grupo em desalinho, à pressa, em correria, a ver quem apanha os melhores lugares. Parece a luta do dia a dia por um assento no metro ou autocarro, um reflexo condicionado promovido pelo dia a dia de todos os dias. O problema é que praticamente nenhum daqueles presentes frequenta transportes públicos, deve ser algo que já vem no sangue.
Ninguém faz a mais pálida ideia de quais são os lugares melhores, ninguém de entre estes vizinhos de ocasião esteve aqui antes, mas avançam decididos, atropelando os demais e desculpando-se cinicamente. Uns sentam-se virados à ré, outros penduram-se nas laterais, outros encontram poio mais à frente, próximos da ponte.
O motor ronca violentamente e coloca o navio em marcha. E todos nós, turistas em causa própria, marchamos com ele.
Não tardou a comitiva a perceber que o fiorde é para duros. Aquelas almas saíram do hotel sem casaco substimando claramente o Verão Norueguês e não demorou até sentirem no corpo o efeito do windchill. Assim como escolheram os lugares de contemplação, atiraram-se aos lugares de recolhimento no interior do salão-bar. Mais fica. Veste-se o corta-vento e já está, perfeitamente preparados para a vigia à natureza mais bela, mais calmante, mais mágica que este planeta já nos deu.
O Fiorde dos Sonhos é património da Humanidade por isso mesmo, pela capacidade que tem de transportar os que o visitam para um estado de graça único, como um sonho mas acordados. Depois vêm as justificações: ser o troço onde o Fiorde atinge a menor largura entre margens, uns meros 250 metros medidos a olho, onde as montanhas sobem mais alto acentuando a sensação de entalamento, onde a massa de gelo que o originou escavou a pedra mais fundo.
Não é preciso conhecer as razões e tampouco importa saber que a Unesco se deu ao trabalho de atribuir tal distinção, para se apreciar o espectáculo. Ele está lá para quem o quiser descobrir há milhares de anos e continuará, com ou sem a publicidade.
A desfilar à nossa frente minúsculas aldeias de pescadores, cascatas, gaivotas que rasam as águas, uma foca esquiva confundindo-se com as rochas onde se deita, montanha atrás de montanha num degradé esfumado pela neblina e que fecha o horizonte... não há lugares ideais para assistir a este espectáculo, é necessário vaguear pelo convés, ora a bombordo, ora a estibordo, ora à ré, ora à proa... amealham-se imagens mentais que esperamos conseguir recordar por muito tempo, tiramos fotografias para garantir um pedaço do fiorde para nossa propriedade, inspiramos fundo e exalamos pausadamente para recompor as energias.
Não sei quanto tempo passou até ao cais de chegada. Não me interessa. Sei que passei bom tempo. E interessa-me pensar que um dia regressarei.

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