quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Raimundo



Raimundo é taxista em Maputo. Trabalha na companhia Novo Táxi e foi escolhido para nos conduzir porque se mostrou mais honesto que os demais. Andar de táxi nesta cidade é arriscar ser enganado no preço da corrida, mesmo quando se sabe que o valor pedido não corresponde ao devido. o que se vai fazer? Chamar a polícia? Arriscar uma discussão onde outros se poderão envolver e onde estamos em minoria, étnica e de razão? Sim, porque a razão depende do prisma de onde se olha e ali somos ricos, por isso podemos pagar.

Na Novo Táxi há uma tabela, o que já dá maiores garantias. Tabela essa que dá o preço de acordo com os quilómetros percorridos.

O Sr. Raimundo é que nos avisou disso, por isso ficou como boleia preferencial. Com o seu cartão na mão ficou fácil chamá-lo quando necessário e mesmo quando impossibilitado de vir ele mesmo, manda um colega. O amigo do amigo, já se sabe...

Umas vezes é o Noé, outras o Brito, outras vem um que fala pouco e que nunca deixou o cartão pessoal. É o Florêncio.

Em Maputo andar de táxi é a melhor opção para quem é estrangeiro e não tem carro. Disseram-nos que era a única opção. Ali a cor da pele indica dinheiro, mesmo que não o tenhamos e é meio caminho andado para atrair o olhar cobiçoso de vendedores de ocasião, muito chatos, mas relativamente pacíficos e de outros, que na dúvida, é melhor não confiar.

Ter a garantia do preço certo é o mínimo que se pode desejar.

Certa vez, o Raimundo não veio. Parece que na recepção do hotel eles não ligam para telemóveis e assim a central da Novo Táxi mandou um qualquer.

Calhou um noviço, virgem na arte de ser taxista e eu diria que virgem na arte de conduzir. Noite fechada, escura como todas as noites e o homem avança sem ligar as luzes? E avançar para onde? A gente diz: "Para a Sagres" e ele julga que isso é na Costa do Sol. Lá tive de lhe ir indicando o caminho, segue por ali, vira lá, contorna a rotunda, entra naquele parque...

Eu um tuga com uma semana de maputo a ter de indicar direcções a um natural...

Mas até deu para rir na casaca cortada, gargalhadas naturais num bom jantar. Teria sido apenas um episódio anedótico não fosse o caso de se ter repetido novamente no dia seguinte. Da central mandaram o mesmo condutor que percebe tanto do ofício como eu de física nuclear.

Lá o conduzi novamente, desta feita para o Escorpião, outro dos templos gastronómicos da capital moçambicana.

Quando contámos ao Raimundo, este, com sapiência que não estamos habituados a encontrar na nossa praça exclamou: "Não acredito! Isso já não são insuficiências, são deficiências!".

E vá-se lá contrariar a voz da razão.

Sem comentários: