Josué era terminantemente contra qualquer tipo de ajuda e compaixão àqueles doentes de que toda a gente falava, os tais do flagelo do século XX, os tais da doença do século, os tais que para ele, só estavam doentes porque tinham atentado contra as regras da natureza e do Senhor Deus.
-"Cambada de anormais" - gritava ele quando nas notícias adiantavam números das estatísticas mais recentes dando a conhecer um cenário crescentemente mais negro.
-"Deviam morrer todos! Acabava-se logo com a peçonha!"
Apesar de incompreendida aquela revolta toda acabava por ir sendo desculpada por colegas e amigos que a atribuíam à "idade" e à "educação", e como "burro velho não aprende línguas", achavam lícito, apesar de incoerentes, aquelas atitudes.
Certa manhã, saía Josué pela porta do prédio e vê passar do outro lado da rua um jovem ostentando uma t'shirt branca com dizeres garrafais a vermelho: "EU TENHO SIDA". Achou de terrível mau gosto, se a tinha para quê ostentar a nódoa e se não tinha, não era assunto para se andar a brincar, nem a exibir daquela forma.
Seguiu o seu caminho barafustando sozinho sobre a falta de dignidade daquela gente, "cambada de maricas e drogados, putas e proxenetas!". Ao virar a esquina quase chocava com as mesmas letras vermelhas "EU TENHO SIDA" apostas na t'shirt, desta vez envergadas por uma moça bem feita, alta e formosa, loira, de olhos azuis. Ficou confuso e assustado.
Deu um passo para trás e quase correu para se afastar.
quando parou, ofegante, uns metros adiante, começou a reparar nos transeuntes, altos, baixos, novos e velhos. Rapazes e raparigas, senhoras e senhores, toda a gente parecia usar aquela horrível roupa branca com as letras encarnadas vivas.. De repente parecia que todo o mundo tinha enlouquecido, devia ser, só podia ser, culpa da televisão e daquelas campanhas, dos jornais e daquelas notícias. de repente a anormalidade virou moda e a presença da morte uma via para fugir ao anonimato.
Ficou sem saber o que fazer, para onde se virar. Certamente que nem todos a teriam, ou será que sim? Como é que toda a gente ficou infectada? Seria alguma coisa no ar? na água? Quis fugir mas ficou sem reacção, fugir por onde? Para onde? As ruas pareciam populosas de tantos fantasmas, todos a olharem para ele cubrindo a sua fuga de perigos.
Inspirou fundo e desatou a correr, parando apenas depois de franquear as portas do seu prédio e a entrada do elevador. Sentiu-se seguro só depois de ter encerrado a porta do seu apartamento atrás de si, com estrondo e rápidos movimentos na fechadura.
Dirigiu-se à janela e lá de cima, do seu quinto andar pôde assistir aquele que era o mais estranho espectáculo da sua vida: centenas, talvez milhares de pessoas, todas com a mesma t'shirt branca, parecia neve a caminhar, todas com a mesma frase estampada a vermelho, aparentando uma mancha sangrenta em impiedoso avanço. Como um anúncio do fim do mundo, o toque de corneta que anuncia o Armagedão.
E agora? Sair estava fora de questão, não se podia arriscar a tocar sequer naqueles cadáveres prometidos...
Os dias foram passando sem que a paisagem mudasse. A cada manhã ia à janela do seu quarto e olhava lá para baixo. Todos os dias, invariavelmente, a multidão aparecia igual, indiferente ao seu medo, à sua desgraça. Nem sequer abria a janela, não fosse o ar estar contaminado e violar irremediavelmente o seu esconderijo. Quanto à água, desconfiava da da torneira e bebia apenas engarrafada. Gradualmente o frigorífico foi-se esvaziando e o lixo acumulando. Embalagens vazias empilhavam-se a um canto da cozinha à espera de um dia poderem ser despejadas no contentor lá da rua. O ar bafiento e mal-cheiroso empestava a casa e era virtualmente irrespirável mas Josué não desarmava da sua ideia de se manter no seu reduto até que a epidemia passasse. Curiosamente não diziam nada nos telejornais nem na rádio, era como se estivessem cegos. Também, outra coisa não seria de esperar já que até o locutor aparecia com aquela maldita camiseta anunciando o seu fim, aparentemente com orgulho...
Definhava lentamente. A barba por fazer, as olheiras pronunciadas, o mau hálito visto que a pasta de dentes já havia terminado, faziam-no parecer cada vez mais velho e acabado. Sofria do efeito "campo de concentração" marcando no corpo os efeitos da perda de liberdade e de estímulos positivos. Sentia-se miserável e sozinho, nos primeiros dias ainda tentou telefonar a alguns amigos a pedir ajuda e ver se eles estavam refugiados daquela ameaça que grassava mas percebeu que também eles tinham sido vítimas quando disseram não estar a compreender nada e que não tinham notado nada de estranho. Fez o sinal da cruz e lamentou a sorte dos seus entes queridos e não pôde evitar-se chorar.
Passaram dois meses exactos desde que se fechara no seu apartamento. As sirenes irromperam pelas ruas e ouviram-se passos apressados nas escadas. Um estrondo coincidiu com o arrombamento da porta. Meia dúzia de bombeiros entraram de rompante pela casa adentro gritando por Josué mas ele não estava. Só o seu corpo jazia no chão, em posição fetal no meio da sala.
os vizinhos já tinham estranhado aquela porta fechada e a ausência do Senhor Josué, tinham batido algumas vezes e foram rapidamente enxotados aos berros. Há muito que achavam o cheiro nauseabundo e se tinham queixado à administração mas sem que tivesse havido qualquer mudança. Ouviam barulho lá dentro, passos de um lado para o outro até que naquele dia só ouviram um estranho silêncio. Contas feitas, talvez aquele dia fosse mesmo aquela semana. Decidiram que o melhor era ligar para alguém, talvez a polícia ou os bombeiros.
Uma roda de pessoas fez-se em torno daquele corpo. Josué tinha partido para longe e atrás de si, só ficaram os restos da sua ignorância.
(A t'shirt existiu mesmo, andava nas ruas de Maputo cobrindo uma enorme barriga de cerveja. A ignorância existiu e existe e provavelmente existirá durante muito tempo e por muito lado)
-"Cambada de anormais" - gritava ele quando nas notícias adiantavam números das estatísticas mais recentes dando a conhecer um cenário crescentemente mais negro.
-"Deviam morrer todos! Acabava-se logo com a peçonha!"
Apesar de incompreendida aquela revolta toda acabava por ir sendo desculpada por colegas e amigos que a atribuíam à "idade" e à "educação", e como "burro velho não aprende línguas", achavam lícito, apesar de incoerentes, aquelas atitudes.
Certa manhã, saía Josué pela porta do prédio e vê passar do outro lado da rua um jovem ostentando uma t'shirt branca com dizeres garrafais a vermelho: "EU TENHO SIDA". Achou de terrível mau gosto, se a tinha para quê ostentar a nódoa e se não tinha, não era assunto para se andar a brincar, nem a exibir daquela forma.
Seguiu o seu caminho barafustando sozinho sobre a falta de dignidade daquela gente, "cambada de maricas e drogados, putas e proxenetas!". Ao virar a esquina quase chocava com as mesmas letras vermelhas "EU TENHO SIDA" apostas na t'shirt, desta vez envergadas por uma moça bem feita, alta e formosa, loira, de olhos azuis. Ficou confuso e assustado.
Deu um passo para trás e quase correu para se afastar.
quando parou, ofegante, uns metros adiante, começou a reparar nos transeuntes, altos, baixos, novos e velhos. Rapazes e raparigas, senhoras e senhores, toda a gente parecia usar aquela horrível roupa branca com as letras encarnadas vivas.. De repente parecia que todo o mundo tinha enlouquecido, devia ser, só podia ser, culpa da televisão e daquelas campanhas, dos jornais e daquelas notícias. de repente a anormalidade virou moda e a presença da morte uma via para fugir ao anonimato.
Ficou sem saber o que fazer, para onde se virar. Certamente que nem todos a teriam, ou será que sim? Como é que toda a gente ficou infectada? Seria alguma coisa no ar? na água? Quis fugir mas ficou sem reacção, fugir por onde? Para onde? As ruas pareciam populosas de tantos fantasmas, todos a olharem para ele cubrindo a sua fuga de perigos.
Inspirou fundo e desatou a correr, parando apenas depois de franquear as portas do seu prédio e a entrada do elevador. Sentiu-se seguro só depois de ter encerrado a porta do seu apartamento atrás de si, com estrondo e rápidos movimentos na fechadura.
Dirigiu-se à janela e lá de cima, do seu quinto andar pôde assistir aquele que era o mais estranho espectáculo da sua vida: centenas, talvez milhares de pessoas, todas com a mesma t'shirt branca, parecia neve a caminhar, todas com a mesma frase estampada a vermelho, aparentando uma mancha sangrenta em impiedoso avanço. Como um anúncio do fim do mundo, o toque de corneta que anuncia o Armagedão.
E agora? Sair estava fora de questão, não se podia arriscar a tocar sequer naqueles cadáveres prometidos...
Os dias foram passando sem que a paisagem mudasse. A cada manhã ia à janela do seu quarto e olhava lá para baixo. Todos os dias, invariavelmente, a multidão aparecia igual, indiferente ao seu medo, à sua desgraça. Nem sequer abria a janela, não fosse o ar estar contaminado e violar irremediavelmente o seu esconderijo. Quanto à água, desconfiava da da torneira e bebia apenas engarrafada. Gradualmente o frigorífico foi-se esvaziando e o lixo acumulando. Embalagens vazias empilhavam-se a um canto da cozinha à espera de um dia poderem ser despejadas no contentor lá da rua. O ar bafiento e mal-cheiroso empestava a casa e era virtualmente irrespirável mas Josué não desarmava da sua ideia de se manter no seu reduto até que a epidemia passasse. Curiosamente não diziam nada nos telejornais nem na rádio, era como se estivessem cegos. Também, outra coisa não seria de esperar já que até o locutor aparecia com aquela maldita camiseta anunciando o seu fim, aparentemente com orgulho...
Definhava lentamente. A barba por fazer, as olheiras pronunciadas, o mau hálito visto que a pasta de dentes já havia terminado, faziam-no parecer cada vez mais velho e acabado. Sofria do efeito "campo de concentração" marcando no corpo os efeitos da perda de liberdade e de estímulos positivos. Sentia-se miserável e sozinho, nos primeiros dias ainda tentou telefonar a alguns amigos a pedir ajuda e ver se eles estavam refugiados daquela ameaça que grassava mas percebeu que também eles tinham sido vítimas quando disseram não estar a compreender nada e que não tinham notado nada de estranho. Fez o sinal da cruz e lamentou a sorte dos seus entes queridos e não pôde evitar-se chorar.
Passaram dois meses exactos desde que se fechara no seu apartamento. As sirenes irromperam pelas ruas e ouviram-se passos apressados nas escadas. Um estrondo coincidiu com o arrombamento da porta. Meia dúzia de bombeiros entraram de rompante pela casa adentro gritando por Josué mas ele não estava. Só o seu corpo jazia no chão, em posição fetal no meio da sala.
os vizinhos já tinham estranhado aquela porta fechada e a ausência do Senhor Josué, tinham batido algumas vezes e foram rapidamente enxotados aos berros. Há muito que achavam o cheiro nauseabundo e se tinham queixado à administração mas sem que tivesse havido qualquer mudança. Ouviam barulho lá dentro, passos de um lado para o outro até que naquele dia só ouviram um estranho silêncio. Contas feitas, talvez aquele dia fosse mesmo aquela semana. Decidiram que o melhor era ligar para alguém, talvez a polícia ou os bombeiros.
Uma roda de pessoas fez-se em torno daquele corpo. Josué tinha partido para longe e atrás de si, só ficaram os restos da sua ignorância.
(A t'shirt existiu mesmo, andava nas ruas de Maputo cobrindo uma enorme barriga de cerveja. A ignorância existiu e existe e provavelmente existirá durante muito tempo e por muito lado)

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