
África, o berço do mundo. E o seu filho esquecido.
Todas as histórias evocam a magia do continente Negro, o poder dos seus cheiros e cores, o apelo da sua diversidade, a simpatia das suas gentes...
Em Portugal quase toda a gente conhece alguém, de família ou amigos que tem dessas recordações maravilhosas, anunciando saudades de voltar a ver e sentir as terras que conheceu noutros tempos e que deixaram a sua marca impregnada no corpo e na alma. Mesmo os que vieram em tempo de guerra guardam com nostalgia as imagens de um continente abençoado.
Mas talvez essa benção esteja no fim da validade e em África fazem-se sentir problemas de toda a ordem, difícil mesmo é escolher quais os mais graves.
Quando soube que viria a Moçambique não pude deixar de sentir excitação ante a possibilidade de ver com os meus próprios olhos todas essas maravilhas e descobrir pessoalmente os encantos deste continente.
Contudo, já me tinham avisado que nem tudo é o mar de rosas ou o romantismo presente nessas histórias de antanho, Moçambique era há meia dúzia de anos o país mais pobre do mundo e ainda falta muito caminho para atingir a desejada qualidade de vida.
"Vais ter pedintes", "não podes andar na rua livremente", "as ruas vão estar sujas", "cuidado com os assaltos"... não faltaram os avisos sobre as gentes nem sobre as doenças e os perigos da malária.
Profilaxia feita e lá vamos nós.
O primeiro embate não foi muito mau, sair do ambiente hermético do A340 "Fernão Mendes Pinto" e sentir o calorzinho na cara constitui um verdadeiro bálsamo depois do frio sentido de noite a muitos mil pés de altitude.
Nada do dito cheiro a África, apenas o odor a querosene libertado pelos motores da aeronave até sentir a pista do aeroporto debaixo dos pés.
Gostei da sensação de andar pelo alcatrão do aeroporto, senti-me como numa viagem ao passado, ao período áureo das grandes vigens de descoberta a bordo dos mais míticos pássaros de ferro.
O edifício das Chegadas também não me pareceu muito mau com a sua arquitectura Estado Novo Colonial, com linhas limpas, direitas, aqui e ali com decorações artísticas de época. Desesperante a lentidão do sôr polícia, aumentada pela prioridade dada a um passaporte diplomático nativo. Enfim favoritismos no seu melhor.
Pois bem: antigo, lento, mas ainda assim suportável. Até tinha a sua piada.
O pior veio depois, abriram-se as portas da rua e lá fora a confusão era enorme com vendedores das mais diversas inutilidades a juntarem-se a carregadores de bagagem de ocasião que à viva força queriam ajudar, agarrando a mala e pedindo ostensivamente a gorjeta.
À espera o transfer do hotel mas mesmo o condutor nada podia fazer (nem teria interesse nisso) para obviar aquele incómodo local. Qualquer moeda que pudesse vir seria bem vinda para aquela gente, mas tanta ajuda é sempre de desconfiar.
A salvo no interior do minibus a oportunidade para observar a cidade.
Todas as histórias evocam a magia do continente Negro, o poder dos seus cheiros e cores, o apelo da sua diversidade, a simpatia das suas gentes...
Em Portugal quase toda a gente conhece alguém, de família ou amigos que tem dessas recordações maravilhosas, anunciando saudades de voltar a ver e sentir as terras que conheceu noutros tempos e que deixaram a sua marca impregnada no corpo e na alma. Mesmo os que vieram em tempo de guerra guardam com nostalgia as imagens de um continente abençoado.
Mas talvez essa benção esteja no fim da validade e em África fazem-se sentir problemas de toda a ordem, difícil mesmo é escolher quais os mais graves.
Quando soube que viria a Moçambique não pude deixar de sentir excitação ante a possibilidade de ver com os meus próprios olhos todas essas maravilhas e descobrir pessoalmente os encantos deste continente.
Contudo, já me tinham avisado que nem tudo é o mar de rosas ou o romantismo presente nessas histórias de antanho, Moçambique era há meia dúzia de anos o país mais pobre do mundo e ainda falta muito caminho para atingir a desejada qualidade de vida.
"Vais ter pedintes", "não podes andar na rua livremente", "as ruas vão estar sujas", "cuidado com os assaltos"... não faltaram os avisos sobre as gentes nem sobre as doenças e os perigos da malária.
Profilaxia feita e lá vamos nós.
O primeiro embate não foi muito mau, sair do ambiente hermético do A340 "Fernão Mendes Pinto" e sentir o calorzinho na cara constitui um verdadeiro bálsamo depois do frio sentido de noite a muitos mil pés de altitude.
Nada do dito cheiro a África, apenas o odor a querosene libertado pelos motores da aeronave até sentir a pista do aeroporto debaixo dos pés.
Gostei da sensação de andar pelo alcatrão do aeroporto, senti-me como numa viagem ao passado, ao período áureo das grandes vigens de descoberta a bordo dos mais míticos pássaros de ferro.
O edifício das Chegadas também não me pareceu muito mau com a sua arquitectura Estado Novo Colonial, com linhas limpas, direitas, aqui e ali com decorações artísticas de época. Desesperante a lentidão do sôr polícia, aumentada pela prioridade dada a um passaporte diplomático nativo. Enfim favoritismos no seu melhor.
Pois bem: antigo, lento, mas ainda assim suportável. Até tinha a sua piada.
O pior veio depois, abriram-se as portas da rua e lá fora a confusão era enorme com vendedores das mais diversas inutilidades a juntarem-se a carregadores de bagagem de ocasião que à viva força queriam ajudar, agarrando a mala e pedindo ostensivamente a gorjeta.
À espera o transfer do hotel mas mesmo o condutor nada podia fazer (nem teria interesse nisso) para obviar aquele incómodo local. Qualquer moeda que pudesse vir seria bem vinda para aquela gente, mas tanta ajuda é sempre de desconfiar.
A salvo no interior do minibus a oportunidade para observar a cidade.
A antiga Lourenço Marques, hoje Maputo exibe como seria de esperar toda a degradação e decadência que vem com a pobreza. Bairros de lata de incompreensível extensão alastrando desde a beira da estrada, misturando outdoors da Coca-Cola ou da Laurentina, cerveja de qualidade de exportação, com anúncios do comércio local. Ali um bar, acolá um cabeleireiro, mais à frente uma oficina de tubos de escape. Tudo disposto segundo o mais desorganizado dos desenhos, com as gentes a aglomerarem-se nos passeios, indiferentes às valas de esgotos a céu aberto e ao lixo acumulado.
É quando se entra nos limites da cidade antiga, dos portugueses, que se nota alguma organização, um traço lógico, uma cidade. As vivendas sucedem-se nas amplas avenidas intervaladas com arranha céus em decrépito estado, a merecerem pintura renovadora. Pelo meio alguns zelosos funcionários procuram dar alguma dignidade aos jardins, principalmente aos canteiros defronte de alguma embaixada ou edifício estatal.
Para os saudosistas da antiga Lourenço Marques é aqui que começa a ser possível identificar traços do passado, locais emblemáticos como o Hotel Polana, o recorte da igreja Polana, a Avenida Marginal ou o Museu de História Natural.
Chegado ao Hotel, ao Avenida, as amenidades oferecidas pelas 5 estrelas ajudam a esquecer o primeiro embate, levando a acreditar que talvez não seja tudo assim. 15 dias darão oportunidades mais que suficientes para descobrir muitas coisas boas.
Breve descanso antes do almoço, com a Costa do Sol a ser a eleita para retemperar as forças.
A viagem até lá deixa descobrir a longa baía de Maputo com as suas águas acastanhadas por causa da terra que traz misturada. Terra negra e vermelha continuamente revolvida pelas ondas, depois de roubada às margens sem pedir licença.
A maré está vazia o que deixa espaço no areal para centenas de pessoas poderem usufruir dos prazeres da praia, uns andando, outros apanhando sol, outros mergulhando, outros apenas dentro de água em morna diluição de stress.
Até chegar à conhecida marisqueira oportunidade ainda para observar um grupo de mulheres vestido de branco, fazendo uma espécie de baptismos. Disse-nos o taxista que são de uma confissão religiosa que habitualmente frequenta aquele pedaço de praia para os seus rituais. Quisemos saber mais mas mais ele não disse. Encolheu os ombros e colocou os olhos na estrada.
Finalmente a arquitectura Art Deco do edifício entra-nos vistas adentro, com o seu balcão sobre a baía, as palmeiras ao fundo e as águas a compor o ramalhete. Tudo evoca um período de ouro que já não existe.
Pode continuar a ser um dos mais famosos restaurantes, receber até o epíteto de "o melhor de Maputo" mas não deixa de ser um resquício de um passado há muito partido. O charme do conceito há muito que se esgotou e hoje mais do que um exemplo de qualidade, o que fica é a sombra do que foi.
É agradável estar na esplanada e sentir a aragem morna com o cenário natural da praia e da baía logo ali mas como fechar os olhos às hordas de pedintes que rodeiam cada turista que passa, ou aos vários vendedores que se esforçam por impingir um saco de cajú torrado, ou uma lata de Laurentina refrescada no balde de gelo que traz às costas? E como ignorar aquele saco de cajú que caindo ao chão e rebentando o plástico fez voar frutos para todo o lado, que lentamente voltam a ser enfiados lá dentro, indiferentes a qualquer preocupação com higiene ou sanidade?
É um choque deveras brutal e a solução passará talvez pela abstracção de toda a pobreza que entra pela alma dentro. E como se faz isso? Bem, essa é a resposta que me tem faltado...
O regresso faz-se pela mesma estrada onde só agora reparo na venda de mobílias feitas de vime, cadeiras, espreguiçadeiras, maples, camas... e o vendedor de água de côco ainda no recipiente original... e a venda de grelhados... e aquele a fazer paragliding...
Esquecer e ignorar talvez não dê, mas o olhar é atraído para tanta diferença que a revolta nem sempre é automática e geral. Valha isso...

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