quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Safari no Kruger Park


Quando regressei de África e disse que tinha feito um safari, toda a gente quis saber como era, se era giro, se se viam muitos animais…
Um safari em África é um produto turístico e por isso é feito u enorme esforço para que as expectativas não saíam defraudadas. Os guias conhecem os hábitos dos animais e os seus locais preferidos, pelo que a probabilidade de se conseguir descobrir as várias espécies é relativamente grande. Depois é contar com a sorte e esperar que todos os Big Five se dêem a mostrar. Nisso, posso dizer que os deuses estiveram do meu lado, pois não foram precisas mais do que duas horas para que o nosso hábil guia, o Godfried (amigo de Deus) descobrisse o leopardo, o leão, o búfalo, o rinoceronte e o elefante. Já para não falar das girafas, das zebras, dos macacos, das impalas, dos hipopótamos, dos zebus, dos crocodilos, das hienas, dos javalis, das suricatas, das águias… e espero não ter esquecido nenhum dos ilustres habitantes da savana.
Para quem está acostumado a ver cães e gatos vadios, aquela fauna em ambiente natural é um espectáculo digno de nota. Respondendo às perguntas iniciais, sim, é giro e sim vê-se mais do que no circo. Mas o que trago de mais interessante ainda assim, foi a conversa com os companheiros de ocasião, um casal que se sentou nos lugares atrás do meu.
Ele, Michael Kipping, alemão reformado a viver na Argentina onde vive a sua paixão Beatriz Provitina , artista plástica de Buenos Aires. Só esta história de amor já teria interesse bastante, mas a exploração da conversa ainda revelou mais deste par de personagens. Michael era investigador farmacêutico e foi para a Amazónia em busca de plantas e princípios activos que pudessem ser os medicamentos do futuro. Foi ficando, percorrendo a América latina até se radicar na capital argentina com Beatriz. Gostei da sua filosofia de vida: 25 anos para estudar, 25 para trabalhar e a partir daí gozar a vida, viajar, enfim, fazer tudo o que a vontade ditar. Congratulei-o por ter conseguido isso, como projecto de vida não está nada mal e sinto-me tentado a apropriar-me do modelo para mim.
Depois da África do Sul partiriam para a Ilha de Madagáscar e lá por Abril estava planeada passagem por Portugal. Na Europa, Michael só guarda o seu carro, um descapotável, por sinal. É só retirar a capota e rumar a sul, para o calor e ambientes mediterrânicos.
Obviamente fiz o favor de os convidar, quem sabe que histórias terão eles para contar por essa altura?

British Museum

Os guias de viagens têm tudo ou quase tudo o que é preciso ver numa cidade, país ou região e apesar da sua útil utilidade que lhe temos que reconhecer, não dizem o essencial... E o essencial é o que se sente!
O British Museum foi exactamente assim, referenciado como fundamental de entre os fundamentais museus londrinos, descrito de fio a pavio, inclusive com mapas do interior, indicações das peças mais importantes...mas nada nos prepara para a emoção que é visitar aquele espaço único!
Como definir a sensação de entrar num espaço fisicamente limitado, mas no qual está espelhada a história da Humanidade? E a sensação de estar junto à Pedra de Rosetta, com um decreto de 196 A.C. emitido pelo Ptolomeu V e resgatado pelas tropas napoleónicas? E a emoção de estar próxima do Homem de Lindow com 2000 anos? E a sensação de entrar numa sala e ver um templo de uma civilização que se extinguiu há centenas de anos, intacto, ali à nossa frente como se o tempo não tivesse passado jamais?
“Como definir?” talvez seja mesmo uma pergunta sem resposta, talvez isso explique a opção dos guias de viagens... pois afinal de contas, como definir?

Vasa



Não há como uma tempestade nórdica para nos fazer compreender quão afortunados somos, no que ao clima diz respeito.
Andara toda a manhã a prometer: a temperatura a baixar ligeiramente, o céu a vestir-se de cinzentos progressivamente mais escuros, a brisa a ganhar mais fôlego…
Apesar da promessa de temporal, nem pensar em abdicar do passeio embora antecipássemos a impossibilidade de conhecer Skansen e o seu retrato da Suécia. Fomos caminhando contornando o Báltico e observando a diversidade de barcos, a arquitectura do prédios e o desenho das alamedas. Observando os habitantes de Estocolmo entregues ao seu jogging, ao seu cycling, ao seu rollerskating, enfim ao seu living próprio, despreocupado e descomprometido, indiferente aos humores do clima.
O passeio levou-nos à ilha dos museus e as pernas rapidamente nos guiaram ao Museu Vasa com a chegada das primeiras gotas de chuva. A necessidade de abrigo, acabou por ditar a escolha do programa cultural e assim entrámos no Museu, um hino à incompetência dos homens aliada à mais estúpida e despropositada soberba.
O Museu Vasa recebe o seu nome de um navio, “o mais bem conservado navio do século XVII” com cerca de 90% da sua estrutura original. O navio recebe o seu nome do Rei da altura, figura altamente proeminente do país e do xadrez internacional da época e era suposto ser o maior e mais bonito da armada sueca. Viviam-se tempos de prosperidade e poder, com a coroa a estender o seu domínio por toda a Escandinávia e mares do norte.
O problema é que a ambição desmedida tem por hábito fazer-se pagar caro, primeiro no não olhar-se a custos e depois pelo amargo preço do insucesso. O insucesso do Vasa saiu ao preço das vidas humanas que sugou para o fundo do mar quando se afundou na sua viagem inaugural, duzentos metros depois de soltar amarras.
Os chefes engenheiros sem prática na construção de barcos de tal porte fizeram mal os cálculos e rapidamente se descobriu que o lastro colocado não era suficiente para equilibrar os vários andares de altura de madeira, cordame e lona. Bastou a ligeira ondulação provocada pelo avanço nas águas frias do Báltico, para adornar fatalmente. Seguiram-se os gritos, o pânico, o horror e impotência da populaça que assistia das margens ao lançamento daquele portento. Hoje, o que resta está exposto: um barco de aspecto fantasma e tudo com ele relacionado que o mar entendeu devolver.
O museu em si é espartano e impessoal, consiste num edifício de cimento, quase sem janelas, resguardado da luz exterior por vidros escurecidos. O Vasa anichado em doca seca, com as suas madeiras carcomidas, adensa a atmosfera de luto. É um ser inanimado que jaz perante o visitante e pese embora o empenho e a técnica colocados no seu resgate, pese embora ser o testemunho mais fiel da indústria naval de séculos passados, pese embora tudo isso e mais coisas que as brochuras possam louvar, não deixa de ser também um destroço de uma era em que sangue, suor e lágrimas se confundiam com caprichos reais. E não esquecer igualmente que aquele invólucro de madeira é também o túmulo recuperado de centenas de marinheiros. Corremos toda a exposição, lemos cada um dos painéis informativos, vivemos o museu por dentro. Assimilámos.
Depois, dirigimo-nos para a porta para sair, ir ver mais coisas e mais cidade mas a intempérie, ao invés de abrandar, adensou-se, barrando-nos o caminho. Copiosa, batida a vento e batendo em tudo com estrondo e violência fez-nos reféns da sua vontade. Basta olhar em volta para cimentar a ideia de cerco: uma cortina opaca de água desabando em cima de tudo e unindo-se às águas do Báltico. É o fechar de um ciclo, uma espécie de regresso a casa.
Quanto a nós, creio que percebemos porque é que se visitam menos museus lá pelo burgo, é porque chove menos e a malta quer é praia!

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Signal failure



Habita em Londres, mais precisamente no seu famoso metropolitano uma entidade misteriosa de que já toda a gente ouviu falar mas poucos a viram. Aliás o mistério e fama são tão grandes que basta ouvir falar nela para se desenhar nos rostos a preocupação e o medo. O mistério maior é descobrir como é que os senhores responsáveis pelo Tube sabem que a tal entidade anda presente, pois avisam toda a gente pelo sistema de altifalantes instalados pelas estações.
Due to a signal failure, some delay in trains arrival may be expected. Thank you.
E naturalmente cresce no interior de cada um que espera a frustração de um serviço que não funciona, o receio de um infindável atraso e a antevisão de uma chegada tardia ao destino.
Em Lisboa sempre nos vão dizendo que o metro não vem devido a falha técnica ou que a linha de cor xis se encontra com perturbações. Falha técnica é falha técnica, é avaria, é estragadice, dá para entender. Perturbações todos têm de vez em vez, é do stress e do trabalho em excesso e isso eu desculpo porque vejo as linhas a laborar 7 dias por semana todas as semanas do ano.
Um signal failure é coisa para não se entender. Os locais não fazem a mais pálida ideia do que é e os turistas, alguns nem percebem o que anunciam nos altifalantes. No fundo acho que lhe chamam isso para escamotear. Os londrinos têm um metro velho como o caraças que já levou com bombas dos alemães, bombas dos árabes, que já viu horrores com incêndios brutais, que tem ratos que não acabam… convenhamos que deve estar tudo como há-se ir lá por baixo.
Naturalmente não se pode dizer isso às pessoas e assim nasceu o signal failure para permitir margem de manobra, e, pelo caminho, para se ajuntar no folclore local aos paternalistas mind the gap e mind the step.
Acreditem meus amigos, as t’shirts já não devem demorar.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Bicos de pés

Da serra mais alta avistam-se serras altas mas pequeninas pela distância. A neblina de fim de tarde invade o horizonte trazendo a promessa de uma noite gélida, boa para se passar em frente à lareira ao som da madeira a crepitar. Não será assim de certeza. Será passada na estrada, de regresso a casa depois de um par de dias nos topos de Portugal, primeiro no Caramulo e depois na Estrela, dois dias de retiro sabático entregues ao ar puro e pacatez da vila termal serrana e uma passagem fugaz pelo cimo nevado de Portugal.
Em ambos os casos, tradição e vanguarda andam de mãos dadas: no Caramulo convivem lado a lado aldeias típicas, dependentes da agricultura, da pastorícia, da boa vontade dos elementos, com as torres eólicas mais recentes e modernas. Olham-se de frente o Museu antigo de décadas com a sua extensa coleção de arte, tapeçarias, mobiliário e automóveis e o Hotel, recentemente recuperado e com um Spa de última geração que promete maravilhas de saúde através do poder da água.
Na Estrela os desníveis vencem-se agora com a ajuda das telecadeiras na única estância de ski em solo nacional, enquanto no Centro Comercial da Torre se tentam impingir as antiquadas camisolas de lã e as já demais conhecidas pantufas de pele e pelo.
Não há como negar este cruzamento de passado e futuro, um pé no tempo que foi e outro no tempo que há-de vir. O Portugal profundo, afinal, está na encruzilhada dos tempos, a viver um presente tal qual ele deve ser, uma ponte entre alturas diferentes e atribuindo-lhes sentido e razão de ser. O presente do Portugal profundo é tal qual o vivido em Lisboa, na capital das vontades e das decisões, apenas faz mais frio.
Viajando com a cabeça no ar, passageiros das telecadeiras, ficamos no mais alto deste país e o que vemos, para além dos muitos equívocos, das inúmeras lamentações e das indesmentíveis contradições é o mesmo que Viriato via há séculos de distância. São os montes, os vales, são os pedaços de terra e rocha onde inscrevemos a nossa identidade. E onde, verdade seja dita, no Inverno faz um frio de um corno.

Sogne-fjorden



O Fiorde dos Sonhos: Sogne-Fjorden. Começando no nome, que transmite a ideia de algo étereo e irreal, poderoso, marcante e intocável e terminando na paisagem, ela mesma, tudo impressiona naquele pedaço da Noruega. Pensa-se ir avisado para o que se vai encontrar, já se viu nas revistas de viagens e nos sites da internet imagens do paraíso, e de todos os ângulos possíveis, mas quando se chega ao cais de embarque, em Gudvangen, todas essas certezas desaparecem esmagadas pelo cenário.
As montanhas erguem-se majestosas a toda a volta encimadas por alguns lençóis de neve que resistiram todo o Verão e se eternizam até ao próximo. O céu, azul durante toda a manhã, cede aos ímpetos outonais de fim de Agosto e veste-se gradualmente de cinzento, ameaçando desabar sob a forma de chuva a qualquer momento. E depois o mar. sim, porque mesmo a centenas de quilómetros de distância da costa é o mar que ali está, salgado, escuro, gelado, é o mesmo Mar do Norte que banha Bergen ou Oslo ou onde os vikings se lançaram nas suas descobertas. O cheiro é a maresia, a praia, a nortada numa praia no Inverno português e é isso o que impressiona acima de tudo. Estamos no interior, rodeados de montanhas com mais de mil metros de altitude e inalamos o mesmo ar gelado e salmorento do litoral mais bravio e agreste.
é uma beleza plácida, feita de silêncios apenas interrompidos pelo gorgolejar da água nos blocos de pedra que seguram as paredes do cais, o chocalhar ritmado dos riachos que se despenham do alto, saltitanto violentamente sobre cada desnível e obstáculo da encosta, ou as sirenes dos ferries que anunciam a chegada ou a largada.
É um silêncio que enche a alma, ancestral.
Embarcamos, todo o grupo em desalinho, à pressa, em correria, a ver quem apanha os melhores lugares. Parece a luta do dia a dia por um assento no metro ou autocarro, um reflexo condicionado promovido pelo dia a dia de todos os dias. O problema é que praticamente nenhum daqueles presentes frequenta transportes públicos, deve ser algo que já vem no sangue.
Ninguém faz a mais pálida ideia de quais são os lugares melhores, ninguém de entre estes vizinhos de ocasião esteve aqui antes, mas avançam decididos, atropelando os demais e desculpando-se cinicamente. Uns sentam-se virados à ré, outros penduram-se nas laterais, outros encontram poio mais à frente, próximos da ponte.
O motor ronca violentamente e coloca o navio em marcha. E todos nós, turistas em causa própria, marchamos com ele.
Não tardou a comitiva a perceber que o fiorde é para duros. Aquelas almas saíram do hotel sem casaco substimando claramente o Verão Norueguês e não demorou até sentirem no corpo o efeito do windchill. Assim como escolheram os lugares de contemplação, atiraram-se aos lugares de recolhimento no interior do salão-bar. Mais fica. Veste-se o corta-vento e já está, perfeitamente preparados para a vigia à natureza mais bela, mais calmante, mais mágica que este planeta já nos deu.
O Fiorde dos Sonhos é património da Humanidade por isso mesmo, pela capacidade que tem de transportar os que o visitam para um estado de graça único, como um sonho mas acordados. Depois vêm as justificações: ser o troço onde o Fiorde atinge a menor largura entre margens, uns meros 250 metros medidos a olho, onde as montanhas sobem mais alto acentuando a sensação de entalamento, onde a massa de gelo que o originou escavou a pedra mais fundo.
Não é preciso conhecer as razões e tampouco importa saber que a Unesco se deu ao trabalho de atribuir tal distinção, para se apreciar o espectáculo. Ele está lá para quem o quiser descobrir há milhares de anos e continuará, com ou sem a publicidade.
A desfilar à nossa frente minúsculas aldeias de pescadores, cascatas, gaivotas que rasam as águas, uma foca esquiva confundindo-se com as rochas onde se deita, montanha atrás de montanha num degradé esfumado pela neblina e que fecha o horizonte... não há lugares ideais para assistir a este espectáculo, é necessário vaguear pelo convés, ora a bombordo, ora a estibordo, ora à ré, ora à proa... amealham-se imagens mentais que esperamos conseguir recordar por muito tempo, tiramos fotografias para garantir um pedaço do fiorde para nossa propriedade, inspiramos fundo e exalamos pausadamente para recompor as energias.
Não sei quanto tempo passou até ao cais de chegada. Não me interessa. Sei que passei bom tempo. E interessa-me pensar que um dia regressarei.

Foca



Foca! Foca!
O norueguês saíu da ponte do ferry apontando a margem indicando o animal que a palavra significa em português. Aninhada sobre umas pedras na margem, uma foca repousava, ou apanhava sol, ou se refugiava...
rapidamente as máquinas fotográficas dirigiram as objectivas na direcção apontada para quase todas flharem o objectivo, ou não serem capazes de distinguir o objecto, ou ficarem com resultados esborratados e des-foca-dos.
Ao mesmo tempo o ferry avançou, indiferente aos fracassos dos fotógrafos de ocasião. Ao mesmo tempo os olhos viram cada vez mais afastada a mancha que identificaram como uma foca. Para eles o dito bicho há-de ser para sempre uma mancha no horizonte.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

Josué

Josué era terminantemente contra qualquer tipo de ajuda e compaixão àqueles doentes de que toda a gente falava, os tais do flagelo do século XX, os tais da doença do século, os tais que para ele, só estavam doentes porque tinham atentado contra as regras da natureza e do Senhor Deus.
-"Cambada de anormais" - gritava ele quando nas notícias adiantavam números das estatísticas mais recentes dando a conhecer um cenário crescentemente mais negro.
-"Deviam morrer todos! Acabava-se logo com a peçonha!"
Apesar de incompreendida aquela revolta toda acabava por ir sendo desculpada por colegas e amigos que a atribuíam à "idade" e à "educação", e como "burro velho não aprende línguas", achavam lícito, apesar de incoerentes, aquelas atitudes.
Certa manhã, saía Josué pela porta do prédio e vê passar do outro lado da rua um jovem ostentando uma t'shirt branca com dizeres garrafais a vermelho: "EU TENHO SIDA". Achou de terrível mau gosto, se a tinha para quê ostentar a nódoa e se não tinha, não era assunto para se andar a brincar, nem a exibir daquela forma.
Seguiu o seu caminho barafustando sozinho sobre a falta de dignidade daquela gente, "cambada de maricas e drogados, putas e proxenetas!". Ao virar a esquina quase chocava com as mesmas letras vermelhas "EU TENHO SIDA" apostas na t'shirt, desta vez envergadas por uma moça bem feita, alta e formosa, loira, de olhos azuis. Ficou confuso e assustado.
Deu um passo para trás e quase correu para se afastar.
quando parou, ofegante, uns metros adiante, começou a reparar nos transeuntes, altos, baixos, novos e velhos. Rapazes e raparigas, senhoras e senhores, toda a gente parecia usar aquela horrível roupa branca com as letras encarnadas vivas.. De repente parecia que todo o mundo tinha enlouquecido, devia ser, só podia ser, culpa da televisão e daquelas campanhas, dos jornais e daquelas notícias. de repente a anormalidade virou moda e a presença da morte uma via para fugir ao anonimato.
Ficou sem saber o que fazer, para onde se virar. Certamente que nem todos a teriam, ou será que sim? Como é que toda a gente ficou infectada? Seria alguma coisa no ar? na água? Quis fugir mas ficou sem reacção, fugir por onde? Para onde? As ruas pareciam populosas de tantos fantasmas, todos a olharem para ele cubrindo a sua fuga de perigos.
Inspirou fundo e desatou a correr, parando apenas depois de franquear as portas do seu prédio e a entrada do elevador. Sentiu-se seguro só depois de ter encerrado a porta do seu apartamento atrás de si, com estrondo e rápidos movimentos na fechadura.
Dirigiu-se à janela e lá de cima, do seu quinto andar pôde assistir aquele que era o mais estranho espectáculo da sua vida: centenas, talvez milhares de pessoas, todas com a mesma t'shirt branca, parecia neve a caminhar, todas com a mesma frase estampada a vermelho, aparentando uma mancha sangrenta em impiedoso avanço. Como um anúncio do fim do mundo, o toque de corneta que anuncia o Armagedão.
E agora? Sair estava fora de questão, não se podia arriscar a tocar sequer naqueles cadáveres prometidos...
Os dias foram passando sem que a paisagem mudasse. A cada manhã ia à janela do seu quarto e olhava lá para baixo. Todos os dias, invariavelmente, a multidão aparecia igual, indiferente ao seu medo, à sua desgraça. Nem sequer abria a janela, não fosse o ar estar contaminado e violar irremediavelmente o seu esconderijo. Quanto à água, desconfiava da da torneira e bebia apenas engarrafada. Gradualmente o frigorífico foi-se esvaziando e o lixo acumulando. Embalagens vazias empilhavam-se a um canto da cozinha à espera de um dia poderem ser despejadas no contentor lá da rua. O ar bafiento e mal-cheiroso empestava a casa e era virtualmente irrespirável mas Josué não desarmava da sua ideia de se manter no seu reduto até que a epidemia passasse. Curiosamente não diziam nada nos telejornais nem na rádio, era como se estivessem cegos. Também, outra coisa não seria de esperar já que até o locutor aparecia com aquela maldita camiseta anunciando o seu fim, aparentemente com orgulho...
Definhava lentamente. A barba por fazer, as olheiras pronunciadas, o mau hálito visto que a pasta de dentes já havia terminado, faziam-no parecer cada vez mais velho e acabado. Sofria do efeito "campo de concentração" marcando no corpo os efeitos da perda de liberdade e de estímulos positivos. Sentia-se miserável e sozinho, nos primeiros dias ainda tentou telefonar a alguns amigos a pedir ajuda e ver se eles estavam refugiados daquela ameaça que grassava mas percebeu que também eles tinham sido vítimas quando disseram não estar a compreender nada e que não tinham notado nada de estranho. Fez o sinal da cruz e lamentou a sorte dos seus entes queridos e não pôde evitar-se chorar.
Passaram dois meses exactos desde que se fechara no seu apartamento. As sirenes irromperam pelas ruas e ouviram-se passos apressados nas escadas. Um estrondo coincidiu com o arrombamento da porta. Meia dúzia de bombeiros entraram de rompante pela casa adentro gritando por Josué mas ele não estava. Só o seu corpo jazia no chão, em posição fetal no meio da sala.
os vizinhos já tinham estranhado aquela porta fechada e a ausência do Senhor Josué, tinham batido algumas vezes e foram rapidamente enxotados aos berros. Há muito que achavam o cheiro nauseabundo e se tinham queixado à administração mas sem que tivesse havido qualquer mudança. Ouviam barulho lá dentro, passos de um lado para o outro até que naquele dia só ouviram um estranho silêncio. Contas feitas, talvez aquele dia fosse mesmo aquela semana. Decidiram que o melhor era ligar para alguém, talvez a polícia ou os bombeiros.
Uma roda de pessoas fez-se em torno daquele corpo. Josué tinha partido para longe e atrás de si, só ficaram os restos da sua ignorância.

(A t'shirt existiu mesmo, andava nas ruas de Maputo cobrindo uma enorme barriga de cerveja. A ignorância existiu e existe e provavelmente existirá durante muito tempo e por muito lado)

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Raimundo



Raimundo é taxista em Maputo. Trabalha na companhia Novo Táxi e foi escolhido para nos conduzir porque se mostrou mais honesto que os demais. Andar de táxi nesta cidade é arriscar ser enganado no preço da corrida, mesmo quando se sabe que o valor pedido não corresponde ao devido. o que se vai fazer? Chamar a polícia? Arriscar uma discussão onde outros se poderão envolver e onde estamos em minoria, étnica e de razão? Sim, porque a razão depende do prisma de onde se olha e ali somos ricos, por isso podemos pagar.

Na Novo Táxi há uma tabela, o que já dá maiores garantias. Tabela essa que dá o preço de acordo com os quilómetros percorridos.

O Sr. Raimundo é que nos avisou disso, por isso ficou como boleia preferencial. Com o seu cartão na mão ficou fácil chamá-lo quando necessário e mesmo quando impossibilitado de vir ele mesmo, manda um colega. O amigo do amigo, já se sabe...

Umas vezes é o Noé, outras o Brito, outras vem um que fala pouco e que nunca deixou o cartão pessoal. É o Florêncio.

Em Maputo andar de táxi é a melhor opção para quem é estrangeiro e não tem carro. Disseram-nos que era a única opção. Ali a cor da pele indica dinheiro, mesmo que não o tenhamos e é meio caminho andado para atrair o olhar cobiçoso de vendedores de ocasião, muito chatos, mas relativamente pacíficos e de outros, que na dúvida, é melhor não confiar.

Ter a garantia do preço certo é o mínimo que se pode desejar.

Certa vez, o Raimundo não veio. Parece que na recepção do hotel eles não ligam para telemóveis e assim a central da Novo Táxi mandou um qualquer.

Calhou um noviço, virgem na arte de ser taxista e eu diria que virgem na arte de conduzir. Noite fechada, escura como todas as noites e o homem avança sem ligar as luzes? E avançar para onde? A gente diz: "Para a Sagres" e ele julga que isso é na Costa do Sol. Lá tive de lhe ir indicando o caminho, segue por ali, vira lá, contorna a rotunda, entra naquele parque...

Eu um tuga com uma semana de maputo a ter de indicar direcções a um natural...

Mas até deu para rir na casaca cortada, gargalhadas naturais num bom jantar. Teria sido apenas um episódio anedótico não fosse o caso de se ter repetido novamente no dia seguinte. Da central mandaram o mesmo condutor que percebe tanto do ofício como eu de física nuclear.

Lá o conduzi novamente, desta feita para o Escorpião, outro dos templos gastronómicos da capital moçambicana.

Quando contámos ao Raimundo, este, com sapiência que não estamos habituados a encontrar na nossa praça exclamou: "Não acredito! Isso já não são insuficiências, são deficiências!".

E vá-se lá contrariar a voz da razão.

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Fica a sombra do que foi








África, o berço do mundo. E o seu filho esquecido.
Todas as histórias evocam a magia do continente Negro, o poder dos seus cheiros e cores, o apelo da sua diversidade, a simpatia das suas gentes...
Em Portugal quase toda a gente conhece alguém, de família ou amigos que tem dessas recordações maravilhosas, anunciando saudades de voltar a ver e sentir as terras que conheceu noutros tempos e que deixaram a sua marca impregnada no corpo e na alma. Mesmo os que vieram em tempo de guerra guardam com nostalgia as imagens de um continente abençoado.
Mas talvez essa benção esteja no fim da validade e em África fazem-se sentir problemas de toda a ordem, difícil mesmo é escolher quais os mais graves.
Quando soube que viria a Moçambique não pude deixar de sentir excitação ante a possibilidade de ver com os meus próprios olhos todas essas maravilhas e descobrir pessoalmente os encantos deste continente.
Contudo, já me tinham avisado que nem tudo é o mar de rosas ou o romantismo presente nessas histórias de antanho, Moçambique era há meia dúzia de anos o país mais pobre do mundo e ainda falta muito caminho para atingir a desejada qualidade de vida.
"Vais ter pedintes", "não podes andar na rua livremente", "as ruas vão estar sujas", "cuidado com os assaltos"... não faltaram os avisos sobre as gentes nem sobre as doenças e os perigos da malária.
Profilaxia feita e lá vamos nós.
O primeiro embate não foi muito mau, sair do ambiente hermético do A340 "Fernão Mendes Pinto" e sentir o calorzinho na cara constitui um verdadeiro bálsamo depois do frio sentido de noite a muitos mil pés de altitude.
Nada do dito cheiro a África, apenas o odor a querosene libertado pelos motores da aeronave até sentir a pista do aeroporto debaixo dos pés.
Gostei da sensação de andar pelo alcatrão do aeroporto, senti-me como numa viagem ao passado, ao período áureo das grandes vigens de descoberta a bordo dos mais míticos pássaros de ferro.
O edifício das Chegadas também não me pareceu muito mau com a sua arquitectura Estado Novo Colonial, com linhas limpas, direitas, aqui e ali com decorações artísticas de época. Desesperante a lentidão do sôr polícia, aumentada pela prioridade dada a um passaporte diplomático nativo. Enfim favoritismos no seu melhor.
Pois bem: antigo, lento, mas ainda assim suportável. Até tinha a sua piada.
O pior veio depois, abriram-se as portas da rua e lá fora a confusão era enorme com vendedores das mais diversas inutilidades a juntarem-se a carregadores de bagagem de ocasião que à viva força queriam ajudar, agarrando a mala e pedindo ostensivamente a gorjeta.
À espera o transfer do hotel mas mesmo o condutor nada podia fazer (nem teria interesse nisso) para obviar aquele incómodo local. Qualquer moeda que pudesse vir seria bem vinda para aquela gente, mas tanta ajuda é sempre de desconfiar.
A salvo no interior do minibus a oportunidade para observar a cidade.
A antiga Lourenço Marques, hoje Maputo exibe como seria de esperar toda a degradação e decadência que vem com a pobreza. Bairros de lata de incompreensível extensão alastrando desde a beira da estrada, misturando outdoors da Coca-Cola ou da Laurentina, cerveja de qualidade de exportação, com anúncios do comércio local. Ali um bar, acolá um cabeleireiro, mais à frente uma oficina de tubos de escape. Tudo disposto segundo o mais desorganizado dos desenhos, com as gentes a aglomerarem-se nos passeios, indiferentes às valas de esgotos a céu aberto e ao lixo acumulado.
É quando se entra nos limites da cidade antiga, dos portugueses, que se nota alguma organização, um traço lógico, uma cidade. As vivendas sucedem-se nas amplas avenidas intervaladas com arranha céus em decrépito estado, a merecerem pintura renovadora. Pelo meio alguns zelosos funcionários procuram dar alguma dignidade aos jardins, principalmente aos canteiros defronte de alguma embaixada ou edifício estatal.
Para os saudosistas da antiga Lourenço Marques é aqui que começa a ser possível identificar traços do passado, locais emblemáticos como o Hotel Polana, o recorte da igreja Polana, a Avenida Marginal ou o Museu de História Natural.
Chegado ao Hotel, ao Avenida, as amenidades oferecidas pelas 5 estrelas ajudam a esquecer o primeiro embate, levando a acreditar que talvez não seja tudo assim. 15 dias darão oportunidades mais que suficientes para descobrir muitas coisas boas.
Breve descanso antes do almoço, com a Costa do Sol a ser a eleita para retemperar as forças.
A viagem até lá deixa descobrir a longa baía de Maputo com as suas águas acastanhadas por causa da terra que traz misturada. Terra negra e vermelha continuamente revolvida pelas ondas, depois de roubada às margens sem pedir licença.
A maré está vazia o que deixa espaço no areal para centenas de pessoas poderem usufruir dos prazeres da praia, uns andando, outros apanhando sol, outros mergulhando, outros apenas dentro de água em morna diluição de stress.
Até chegar à conhecida marisqueira oportunidade ainda para observar um grupo de mulheres vestido de branco, fazendo uma espécie de baptismos. Disse-nos o taxista que são de uma confissão religiosa que habitualmente frequenta aquele pedaço de praia para os seus rituais. Quisemos saber mais mas mais ele não disse. Encolheu os ombros e colocou os olhos na estrada.
Finalmente a arquitectura Art Deco do edifício entra-nos vistas adentro, com o seu balcão sobre a baía, as palmeiras ao fundo e as águas a compor o ramalhete. Tudo evoca um período de ouro que já não existe.
Pode continuar a ser um dos mais famosos restaurantes, receber até o epíteto de "o melhor de Maputo" mas não deixa de ser um resquício de um passado há muito partido. O charme do conceito há muito que se esgotou e hoje mais do que um exemplo de qualidade, o que fica é a sombra do que foi.
É agradável estar na esplanada e sentir a aragem morna com o cenário natural da praia e da baía logo ali mas como fechar os olhos às hordas de pedintes que rodeiam cada turista que passa, ou aos vários vendedores que se esforçam por impingir um saco de cajú torrado, ou uma lata de Laurentina refrescada no balde de gelo que traz às costas? E como ignorar aquele saco de cajú que caindo ao chão e rebentando o plástico fez voar frutos para todo o lado, que lentamente voltam a ser enfiados lá dentro, indiferentes a qualquer preocupação com higiene ou sanidade?
É um choque deveras brutal e a solução passará talvez pela abstracção de toda a pobreza que entra pela alma dentro. E como se faz isso? Bem, essa é a resposta que me tem faltado...
O regresso faz-se pela mesma estrada onde só agora reparo na venda de mobílias feitas de vime, cadeiras, espreguiçadeiras, maples, camas... e o vendedor de água de côco ainda no recipiente original... e a venda de grelhados... e aquele a fazer paragliding...
Esquecer e ignorar talvez não dê, mas o olhar é atraído para tanta diferença que a revolta nem sempre é automática e geral. Valha isso...

Prólogo



Há pessoas que gostam de estar sempre no mesmo sítio.

Nós não somos dessas...

Há pessoas que gostam do conforto das mesmas paisagens, dos mesmos cheiros, da mesma gente.

Nós não somos dessas...

Somos de uma raça diferente, de uma estirpe que se realiza no pó dos caminhos a ver e sentir a novidade da diferença. Há todo um mundo de sensações e emoções para descobrir, nem sempre fundeadas no conforto pessoal, quantas das vezes catalisador de revoltas interiores. Mas é assim a vida, é preciso, por vezes sairmos da concha protectora que construímos à nossa volta para darmos substância a um desejado crescimento.

Gostamos de viajar. Do Encontro de culturas e do seu igualmente habitual desencontro. No final regressamos a casa e largamo-nos à recordação e à saudade.


Se somos um grão no Universo, então este planeta é uma praia. Na praia não há grãos sozinhos.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

A par


Não há praias de grãos d'areia sozinhos

O começo

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