quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Visita Catalunha

"Caçadores convertidos em pedra. Segundo uma lenda é o que são certas montanhas: Els Encantats. Talvez a melhor desculpa para observar eternamente uma paisagem, a dos Pirinéus Catalães, que não deixam ninguém indiferente. Lagos que são espelhos. Árvores guardiãs. Pueblos românicos. Águas bravas, espaços para desfrutar a pé, a cavalo, de balão ou de caiaque.
Descobre outra forma de olhar a Catalunha e cria a tua própria lenda"
http://www.catalunyaturisme.com

Tsunami - Maremoto

Fez ontem, 26 de Dezembro de 2006, 2 anos que um imenso tsunami varreu o litoral de praticamente todo o sudoeste asiático. Não é aniversário para parabéns nem ocasião para celebrações. Morreram, ou estima-se que morreram, 220.000 pessoas. Foram notícia os turistas. Pouco menos de 2500. O valor da vida aparentemente sofre cotações de mercado...
217.500 escaparam aos media mas não às ondas, não à sina de viverem em pedaços de areia, terra e rocha negra, largados ao acaso pelo Índico, ou por ele banhados. Fosse no Pacífico e não teria acontecido, que não é oceano para grandes altercações. Ou talvez acontecesse, que isto de paz e descanso nem sempre evita que se salte a tampa.
Sem pejo tantos seres minúsculos foram engolidos, alguns até aí nunca tinham visto o mar. NUNCA. Foram apanhados no meio da selva de onde nunca tinham saído, alguns a vários km do oceano. Foram apanhados a meio da viagem de comboio a caminho do trabalho, algures numa cidade tão pobre quanto eles, apanhados no decurso do seu atormentado percurso.
Imediatamente se mobilizou a boa vontade do mundo que imediatamente montou um plano de ajuda à escala planetária. Dinheiro, mantimentos e roupas chegaram rapidamente. Já nem vou questionar porque é que a ajuda não é constante e igual durante todo o ano a toda esta metade desfavorecida da Terra. Recursos há-os, obviamente.
Questiono-me, isso sim, se fazemos tudo o que podemos por este sudoeste asiático imenso que vive no limiar da dignidade e no pranto de não saber se tem futuro. Existem ilhas que deixam de o ser com certas marés que cobrem toda a pretensão de ser terra firme, costas que se vêem assediadas pela força das ondas mais fortes. Existem vidas a prazo, suspensas num fio feito d'água.
Faz 2 anos que se deu o maremoto.
faz 100 anos que afogamos lentamente uma parte da Humanidade.
Nota: A poluição atmosférica que afecta a camada do ozono, que afecta a temperatura média, que a faz aumentar, que faz derreter as calotes polares, que adiciona milhões de litros aos oceanos... tem aumentado continuamente desde a revolução industrial. Ainda é preciso lembrar que estamos apenas à boleia de um planeta? Será que andamos aos pontapés nos meios de transporte diários que temos de apanhar? Então porque o fazemos a quem nos leva do tempo A ao tempo B?

1000Passos

Saint Jean Pied de Port - Roncesvalles - Trinidad de Arre - Obanos - Cirauqui - Estella - Torres del Rio - Navarrete - Azofra - Redecilla del Camino - Villafranca del Bierzo - Atapuerca - Pabé de las Calzadas - Castrojeriz - Carrión de los Condes - Calzadila de La Cueza - Bercianos del Camino - Mansilla - Léon - Hospital de Órbigo - Rabanal del Camino - Molinaseca - Cacabelos - Vega de Valcarce - Triacastela - Sarria - Ventas de Naron - Melide - Arca - Monte de Gozo - Santiago de Compostela

Agarra-me Esta Noite


Onde estiveres, eu estou
onde tu fores, eu vou
Se tu quiseres, assim
Meu corpo é o teu mundo
Um beijo, um segundo, és parte de mim.

Para onde olhares, eu corro
Se me faltares, eu morro
Quando vieres, distante
Solto as amarras e tocam guitarras
Por ti, como dantes

Agarra-me esta noite
Sente o tempo que eu perdi
Agarra-me esta noite
Que amanhã não estou aqui

Agarra-me esta noite
Sente o tempo que eu perdi
Agarra-me esta noite
Que amanhã não estou aqui


in "Tempo", Pedro Abrunhosa

Para lá do Marão


"Para lá do Marão, mandam os que lá estão" reza o adágio popular. manda a genética local, a tradição, os costumes de quem se viu encurralado entre montanhas e teve de encontrar modos de ultrapassar dificuldades. O clima, o isolamento, a distância de todas as decisões ajudaram a temperar as gentes e a incutir nelas um sentimento muito forte de independência. Que se mantém até hoje. A origem do dito perde-se nas malhas do passado, enlaçado em mil versões diferentes, em histórias de aldeia, em factos trazidos na História, em lendas de subjugação de estrangeiros estranhos à vontade e leis locais. Perde-se em fundos de verdade. Se é boa ou má esta autonomia extrema, esta independência acirrada, não há, deste lado, a competência para o julgar. Atrevo-me a pensar que sim, com a humildade que a subjectividade desse julgamento acarreta. Se de fora não chegam os ecos da justiça, da organização, da gestão do território e dos cuidados com as gentes, então têm as mesmas de lançar as mãos a essas tarefas e responsabilidades. E a responder e a fazer responder por elas.

Talvez devessemos fazer o mesmo...

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Narciso


Creio que todos gostaríamos de ser de outra maneira qualquer. Uns mais gordos, outros mais magros, outros mais fortes, outros mais espertos, outros mais corajosos, outros a jogar melhor à bola, outros a tocar um instrumento musical... A lista continuaria pelo número exacto de pessoas existentes no planeta... A insatisfação deve ser um dos traços mais intrisecamente humanos e se nalguns casos passa despercebida, noutros é causa de grandes conquistas, motor de enormes descobertas. Porém noutros casos é o motivo que arrasta o ser para um tipo de existência doentia e sem sentido, marcada pela dependência mórbida de uma ou outra bengala para o Ego. fazem-se as coisas mais estúpidas para se tentar ser como o modelo que se escolheu, por mais idiota e impossível de alcançar que esse Ellos seja. E vice-versa. Fazem-se igualmente decisões mentecaptas por se achar que não se pode lá chegar.
A insatisfação devia vir com instruções de uso. Para ser o motor de coisas boas era importante que as pessoas soubessem como a transformar nesse élan primordial e fundamental que guia os passos numa direcção decidida, única, transponível. Até lá, até vir com as ditas sugestões de utilização, cada qual faça a sua sentença e aguente-se à bronca devida.
Dizem que o cinema antigo tinha outra magia, os actores e actrizes eram de outra estirpe e os argumentos com mais enredo. Os filmes não primavam pelos efeitos especiais, ora porque a tecnologia não permitia mais , ora porque os géneros mais em voga não necessitavam de tais enganos. Mas como ainda ainda sucede, alguns temas mereciam outro empenho por parte da realização: o terror e a sci-fi . Em comparação não eram necessariamente melhores, tecnicamente não eram certamente e artisticamente a avaliação depende de cada um. Eram diferentes, com tudo o que de valorativo ou pejorativo a palavra encerra...
Os defensores falam de uma chama, um toque de subtil chamamento ao público que nutria pelos artistas verdadeiras paixões e reconhecimento. Há quem diga que o cinema era mais autêntico...
No outro dia, enquanto fazia zapping passei os olhos por um separador de um canal qualquer, no intervalo de uma série qualquer que jogava com imagens dos filmes mudos. Não eram filmes quaisquer. O preto e branco e as expressões exageradas continham realmente algo de diferente, especialmente tratando-se de películas de terror onde o susto e a emoção exarcebada constituem as reacções ansiadas, e frequentemente alcançadas.
Compreendi que a tal magia, a tal autenticidade, a tal genuinidade eram conferidas não pelo milagre da tecnologia, mas pelo mistério da humanidade, que encerra em si a capacidade de ser tudo pela força da expressão. Aqueles actores eram realmente actores. Qualquer filme moderno já teria sangue e tripas de fora, miolos espalhados e ossos partidos nos cinco primeiros minutos, tudo adicionado com mestria recorrendo a um computador e complicadas técnicas de manipulação de imagem. O horror seria genuíno, mais não fosse pelo nojo provocado. Naquela altura, apenas a música e a expressão das personagens tinham o poder de levar ao terror, baseado numa tensão psicológica difícil de ignorar e que prendia à cadeira por curiosidade no desfecho e ausência de reacção física. As personagens não se mostravam apenas más, ou horripilantes, não eram apenas ameaçadoras, em alguns casos eram possuidoras de traços de humanidade que comoviam e davam certa pena. Não eram simplesmente ofensores, eram frequentemente vítimas de um acontecimento qualquer que justificava as suas acções. Não as desculpando tornava congruente a sua existência, a sua razão de ser.
Os efeitos especiais valiam de pouco de tão inverosímeis, com sorte denunciavam o carácter falso do monstro pela incongruência da apresentação.
E por iso vingaram actores como Bela Lugosi, Max Shrek, Boris Karloff ou Christopher Lee...
Depois destes outros vieram utilizando as mesmas armas e conseguiram sempre mais do que aqueles que se limitaram a usar e abusar da imagem virtual.
O que se calhar vem provar que as pessoas gostam de bestas emocionadas, com quem se possam identificar porque possíveis de encontrar numa rua escura ou beco perto.
As pessoas gostam de estar entre seus iguais.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Quebrou-se o encanto...


Quebrou-se o encanto e esvaiu-se o conforto proporcionado pela ignorância. Não aquela de nada saber mas a outra de assumir verdades que o não são. Ante a evidência da limitação do espiríto não me resta mais nada a fazer senão aceitar o retrocesso, o voltar atrás da condição humana: perdeu-se a capacidade de aprender e regenerar o ser. Simplesmente isso. Quando se julga que se atingiu a superioridade o espiríto fica preguiçoso, desleixado, entra num marasmo ignorante, que todos subestima e todos afasta. Eu afasto-me neste momento. Não é um jogo em que queira participar, porque não gosto de ver perder...

O pedestal em que alguns se colocam tem má acústica e fica longe. Os de baixo cansam-se antes de lá chegar e gritando não se conseguem fazer ouvir. E num assomo de clarividência autista, aquele que se senta no trono alto só vê a ausência de reacções. Não sente os apelos nem os atropelos, os desdobramentos e o esforço pelo bem comum. Lá em cima onde a multidão não chega, e os ecos chegam adormecidos, cresce a sensação da solidão. Primeiro uma impressão desconfortável que atravessa o corpo, depois o silêncio que ocupa a maior parte dos dias, lá mais para o frente o monólogo apaixonado em torno da incompreensão.

Já não sensação mas solidão cheia e farta, vive-se no castelo de cartas sem perceber a fragilidade dos alicerces. Como monarca em reino do absoluto, não é preciso questionar o milagre dos produtos acabados, das tarefas realizadas, dos serviços cumpridos. A aparição é o milagre da organização desse estado de perfeição auto induzido e sem compreender a intrincada relação de acções e cooperações, de trocas e ajudas entre a populaça, recolhe-se ao leito com a grata recompensa do fruto colhido. A árvore não precisa que lhe digam que tem de dar os seus frutos. Tampouco precisa de agradecimento. É um estádio natural da sua vida e quem mais digno para se saciar que um monarca do absoluto?

Lá em baixo, desmobilizam as tentativas, fartos de gritar e tentar trepar até ao cimo da montanha. No topo, o escuro da paisagem toma conta da vista, embalando os olhos num sono negro, sem novidades, sem aprendizagens...

No céu, os deuses repetem até à exaustão as receitas de antanho. E a vida continua lá em baixo na terra aprendendo a cada dia a forma de melhorar o anterior. O legado de Darwin permanece vivo.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

PTG 100

Os médicos dizem que andar de bicicleta faz bem. Referem as vantagens para o sistema cardiovascular, a perda de peso, o fortalecimento dos músculos, a melhoria na capacidade respiratória... Em tudo isso estão certos, foi para isso que estudaram e é até do domínio público.
Contudo esquecem, ou não sabem o que é realmente mais importante e o motivo pelo qual milhares de pessoas por esse mundo fora saem de casa montados nas suas bicicletas, rumo ao emprego, às compras simples do dia, ou então por puro lazer.
As pessoas fazem-no porque não é poluente, fazem-no porque é rápido, porque vão em contacto com os elementos. Fazem-no porque acabada a cavalaria andante, tiveram de buscar alternativas, e esta é a que melhor entende a liberdade do conceito. Pode-se ir de bicicleta até ao fim do mundo, disso podem ter a certeza. Não se fica dependente de combustível, a manutenção é reduzida, viaja-se a um ritmo que nos coloca em real contacto com os locais.

No meu caso, a bicicleta é um veículo de evasão, um meio para afastar as preocupações ao mesmo tempo que me afasto das cidades, rumo ao campo, à natureza, à liberdade dos grandes espaços. Deram-lhe o nome de BTT - a bicicleta todo o terreno. E eu acedo a ir a todos os terrenos.
Agora nasceu o interesse pelas maratonas, participar em provas com mais gente para testar a resistência e a capacidade de sacrifício. Competir comigo mesmo, com a medalha a ser atribuída à capacidade de chegar ao fim, doam as pernas, doa o corpo, doam as eventuais feridas do caminho. Mas chegar ao fim!

Portalegre e a sua maratona simbolizam esse espírito e os milhares de betetístas que lá acorrem compreendem certamente isto que acabei de dizer. Outros não. Aqueles que atiram ao chão os invólucros das barras de cereais, que deixam as camâras de ar furadas no meio dos montes, que só olham para a frente e para o pódio, ignorando a partilha da experiência, a entreajuda, a camaradagem, estão a milhas deste sentimento.
Creio, felizmente que não é a maioria. E depois há o coloridos dos jerseys, a variedade de modelos de velocípedes, os carbonos, os titânios, os alumínios e os aços. Há as gentes de todo o país e até do entrangeiro. E o tiro de partida que a todos coloca em marcha. Depois somos nós e o terreno, nós contra o tempo e as dificuldades do traçado.
As subidas são o mal que todos temem, é aí onde o sacrifício é feito e onde as capacidades mais têm de ser mobilizadas. Eu gosto, escolho uma relação de mudanças ao meu gosto, nem muito leve , e certamente que não pesada e atiro-me às curvas de nível, a respiração pausada, regular, inspira pelo nariz, expira pela boca...
Há uma imagem que recordo da última participação: uma subida estreita, entupida por tanta gente, impossível de fazer montado por causa da multidão. Pé ante pé, bicicleta ao lado a empurrão e o olhar para trás, para avaliar a posição relativa para saber se se estava à frente. As cabeças saltitando pareciam lembrar um exército, o de Aníbal atravessando os Alpes com os seus elefantes, ordenados, ritmados, como uma peça numa engrenagem maior.
Afinal, o resumo da nossa importância: uma peça numa engrenagem maior.
Melhorei o registo em relação ao ano anterior, roubei tempo e posições mas tampouco é isso o mais importante.
Ver a Serra de São Mamede lá de cima, os vales verdes, o recorte das ribeiras, os prados cobertos de flores, as pistas encurvadas por entre os sobreiros, tudo contribuí para distrair a mente enquanto o corpo se dá ao manifesto.
A cada saída de bicicleta é um mundo novo que se descobre e nós descobrimo-nos com ele. Somos sempre capazes de mais do que julgamos e cada pedalada extra é um ganho acrescentado. Para o olhar fica a contemplação, para a alma a satisfação de saber que há mais para além da pequenez do dia a dia.

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Pont Des Arts


Le Pont Des Arts acaba por ser o ponto de partida mais adequado para partir rumo à descoberta da Paris dos pintores de rua, das paisagens cartão postal, dos alfarrabistas de beira-rio.

Situada mesmo ao lado do Louvre foi originalmente construída em 1804. A estrutura de ferro forjado assente sobre pilares de pedra testemunham a engenharia da época, nos primórdios da Revolução Industrial.

Em 1985 voltaram as obras para devolver à estrutura o brilho e funcionalidade naquela que ficou a ser uma ponte exclusivamente pedonal. Os artistas escolheram-na para poisar os seus cavaletes e recolherem a partir dali a inspiração que guia os traços na tela. É uma ponte ligeira, elegante, daquelas que enganam o olhar fazendo-se de mais rígidas e robustas do que são na realidade. Os milhares de pés em passagem vêem devolvida toda a trepidação e vibração como um terramoto em pequenino mas os artistas permanecem impassíveis, imperturbáveis, como que acometidos pelo feitiço da fada verde dos impressionistas, o bom e velho absinto.

Por baixo o Sena navegando no seu percurso silencioso e silenciado. A poluição deixa-o moribundo e sem resposta. A cidade olha-se em espelho baço procurando a devolução de alguma coisa, a confirmação da beleza e da vaidade. "Sena meu, há alguma cidade mais bela que eu?"

Já não devolve uma resposta capaz, fica indeciso, duvidoso. Os milhares de turistas que se sentam nas suas margens segredam confidências que o deixam a pensar. Uns dizem que Nova Iorque é mais imponente, outros que Londres é mais viciante, alguns que não há como a luz de Lisboa, outros que não há história como a de Roma.

Paris pergunta novamente, busca conforto na confirmação da beleza. O Sena já não sabe e a cidade também não por causa dos reflexos distorcidos.

Dizem que as cidades recolhem dos rios que as banham parte da sua personalidade. Acho que não, nenhum rio se rala, toda a água trazida as abandona na torrente, seguindo em frente sem olhar para trás. As cidades é que bebem das qualidades dos rios, do seu ímpeto, da sua imagem...

Na Pont Des Arts e olhando com atenção, não sei se são artistas os pintores que lá param... os motivos repetidos, as telas sempre iguais. São sempre o mesmo Louvre deitado sobre a margem, os mesmos arcobotantes de Notre Dame, a mesma fachada da Madeleine. Há até quem monte o cavalete e exiba a Torre Eiffel, de tão afastada não se dá visto, recolhida noutra curva do rio. Pintar à vista não consegue e de memória não convence. Porquê ali de onde a paisagem é tão distractiva, tão plena de estímulos e inspirações?

Le Pont des Arts, afinal é como as ruas da Baixa Pombalina organizadas por profissões, artistas de ramos diversos. É uma espécie de ghetto cultural para onde remetem os fiéis do pincel e óleo mantendo o resto da cidade limpa. Ainda há muito para fazer nesse sentido... muitas almas para converter e atrair ao passadiço.

Acabei de me lembrar de algo macabro: imaginem que queriam honrar os heróis da revolução, a Praça da Bastilha despida de castelo-prisão. Avante guilhotineiros, a vós o vosso espaço!

O veneno - Le Poison



"O vinho sabe dar à espelunca mais sórdida
um luxo miraculoso
E faz surgir mais de um pórtico fabuloso
No oiro dos seus vapores,
como um sol no ocaso de um céu nebuloso
(...)"

"Le vin sait revêtir le plus sordide bouge
D'un luxe miraculeux,
Et fait surgir plus d'un portique fabuleux
Dans l'or se sa vapeur rouge,
comme um soleil couchant dans um ciel nébuleux
(...)"


Charles Baudelaire

Ile Saint Louis

É um daqueles recantos da cidade luz que sem ter nenhum monumento dos ditos turísticos, daqueles que atraem as multidões e hordas de fotógrafos compulsivos e amadores, exerce sobre o visitante grande poder de sedução. É um lugar para saborear devagar, de braço dado ao nosso par como nos passeios de antigamente, sem preocupações de tempo nem tiques de pressa. Andar pelo andar, parando para contemplar as fachadas das mansões construídas entre 1627 e 1664 pelas famílias ricas e influentes. Discretas, de bom gosto, cada uma levemente diferente da do lado para marcar individualidade sem chocar, sem ofender, sem ostentar.
Algumas janelas com os cortinados afastados deixam antever o luxo e opulência dos interiores, hoje, ainda e sempre nas mãos de uma burguesia endinheirada, fina flor das listas de clientes de qualquer banco na Suiça.
Foi assim, por acaso e sem pressas que demos com aquela loja magnífica expositora das mais belas máscaras venezianas e outras caraças de teatro.
Minto ligeiramente, foi à pressa! Urgência de protecção de um aguaceiro de Verão. A nuvem sem avisar atirou a despejar o dilúvio sobre Saint Louis e apanhando-nos pelo meio, em fuga nos colocou. Corremos pela calçada escorregadia e a primeira loja que encontrámos transformou-se em refúgio. Entrámos de um salto, ficámos uns segundos mirando a bátega de água em queda, desfazendo-se numa ligeira névoa no impacto com o solo mas quando nos virámos, já agora para ver o que se vendia, espanto ante a beleza dos artigos, a suavidade das cores, a profusão das expressões. Máscaras de alegria, de tristeza, de medo, de admiração, de dúvida... Faces de mimo arrancadas do mimo, só a cara impressa em gesso.
A chuva foi-se como veio e nós fomos mais ricos, mais preenchidos e felizes. Descemos o resto da rua até ao semáforo, o braço dado como nos idos de antigamente. Ao virar da esquina um olhar a dois para a rua encharcada até aos alicerces e um sorriso cúmplice a uma viagem prometida: a Veneza no carnaval. C'est pas mal!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

A vida transportada para sons


A música é a vida transportada para sons. É a condensação do momento, de momentos, é o exacto momento da inscrição na eternidade.

Guardo os meus cd's com o carinho de quem guarda livros, uns e outros contadores de histórias que só eles sabem guardar. Quando eu atiro para a prateleira do esquecimento um ou outro episódio, eles sabem-no recuperar. Aquela frase que marcou um pensamento, aquela melodia que desenhou um acontecimento... E eu, devolvido ao meu mais profundo de mim, gratifico os guardiões do meu passado com reverência e genuína gratidão.

Volto às minhas músicas de tempos a tempos com a intenção clara de beber dessa fuga ao desaparecimento. Depois de eu me esquecer, quem se lembrará? Quem se fará mensageiro da minha memória, dos meus passos por este mundo? Quem me devolverá a riqueza das emoções, a quentura das ilusões, o ritmo das sensações? Quem me alavancará para esse degrau superior que é o da permissão à nostalgia pela lembrança de algo que vale a pena revisitar?

Prometi a mim mesmo, por várias e diversas ocasiões, que não me iria esquecer jamais de certos sucedidos. Quero, mas não estou certo de saber como, cumprir a promessa. Rodeio-me dos mais pequenos nadas: bilhetes torcidos de andarem nos bolsos, postais riscados de tomar notas, recortes mal amanhados, paus de gelado meio mordidos... amonto inscrições em papéis soltos... acumulo frustrações por não ser capaz de guardar tudo. Deixo fugir muito passado!

Restam-me as notas teimosas aprisionadas em disco. s letras serenas repousando no papel.

As primeiras ganham ordem de soltura nas colunas da aparelhagem e logo me levam com elas a vibrar contentamentos idos ou saudades do que foi. Alegrias regressadas ou lágrimas dependuradas...

As segundas, rememoradas com o passar leve dos dedos sobre elas indicam-me a memória ansiada, umas vezes forçada, outras vindo sem pedir licença.

Sou as letras e sons suspensos na estante, como sou carne e sangue suspensos no corpo.

A sensualidade feita dança - Tango Vals by Julio Balmaceda and Corina de la Rosa

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

A gente vai continuar


Tira a mão do queixo, não penses mais nisso.
O que lá vai já deu o que tinha a dar.
Quem ganhou, ganhou, usou-se disso,
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar.

E enquanto alguns fazem figura,
Outros sucumbem à batota,
Chega a mão ao que tu quiseres
Mas goza bem a tua rota.

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar,
enquanto houver estrada pra andar.

Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar,
Enquanto houver ventos e mar.

Todos nós pagamos por tudo o que usamos.
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não!
Somos todos escravos do que precisamos,
Reduz as necessidades, se queres passar bem.

Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo.

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar.

Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar.

Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

O mapa espinho


Havia na parede do meu quarto um mapa. Era um mapa de Portugal, parecido com aqueles que haviam nas escolas primárias, com as províncias de cada cor, as principais cidades e as zonas de maior relevo.

O meu ajuntava ao panorama as estradas e autoestradas, sistema capilar de circulação nacional e marcava com algum rigor muitas terras, terrinhas e terreolas. Um dia dei comigo a espetar-lhe alfinetes, cada nome que me era familiar por já lá ter estado recebia a sua espetadela. Estava a usar daqueles com uma bola colorida na extremidade, pensava que assim seria mais fácil visualizar no conjunto do país as zonas que tinha tido oportunidade de conhecer. É um facto que deu essa visão de conjunto mas em certos casos havia demasiado conjunto! As bolas de plástico encavalitavam-se umas nas outras porque os locais que marcavam eram igualmente próximos no terreno. Só que assim, tornava-se impossível ler os nomes e descobrir novamente que itinerários haviam sido cumpridos.

Um a um arranquei cada um daqueles alfintes de cabeço bojuda e substitui-os por normais, de cabeça metálica, pequena e discreta. Não demorou a parecer-se com um porco espinho com uma série de alfinetes metálicos sobressaindo do papel colorido, desde Braga a Bragança, de Évora a Évoramonte, de Lisboa a Almeida. Obviamente as maiores concentrações acompanhavam o litoral e o traçado das autoestradas, consequência natural e directa do (des)ordenamento do território realizado nas últimas décadas. Mas aqui e ali afastando-se desses itinerários principais para dar de caras com um Penedono, um Montesinho, um Mourão, um Marmelete, ou um Deixa o Resto.

Lembro-me de ter pensado que parecia um país numa sessão de acumpunctura, sabe-se lá para tratar que males. Pensei melhor. As agulhas, afinal, não tratavam Portugal, destinavam-se a apaziguar outro mal: os meus bichos carpinteiros.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Ferragudo

Guardo de Ferragudo gratas memórias, memórias de um Verão Azul, numa consciente alusão à saudosa série espanhola dos anos 80.
Foi no ano de 2006 e foi o Verão da minha libertação das asinhas protectoras da D. Edite. A confirmação da responsabilidade e autonomia aos olhos da mãe galinha que depois destas férias assumiu finalmente a minha idade adulta.
Ferragudo materializou esse momento na evasão que proporcionou, na descoberta, na feitura de amizades, na vivência do namoro da juventude que não veio a vingar mas colocou a capacidade de amar à prova... Tenho consciência que não voltarei a repetir a experiência. Terei outras, diferentes, umas a guardar, outras a descartar. Mas não aquelas. Foram um degrau para chegar onde me encontro, um patamar sem o qual não seria o mesmo.
Dizem que somos a soma das nossas experiências e circunstâncias... então eu sou parte feito da água salgada da Praia dos Caneiros, do cloro da piscina do parque do C.C.L., do sabor a chili com carne na janta tardia no areal. Sou parte pó do campismo, canto das cigarras, bolas de berlim pela manhã. Sou misto de You oughta know da Alanis com o Tonight, tonight dos Smashing Pumpkins. Sou o AX 10 TRE vermelho, UG-52-18 que o Ricardo apelidou de Farrilhas por causa da farra consumida a gosto, sempre de pastilha trident na boca. Sou parte gelados gigantescos de 4 e mais sabores do centro de Portimão. Sou raios de sol quente a aquecer a tenda pela manhã...
Sou o medo de esquecer esse passado e as conquistas com ele.
Sou hoje a certeza de dever dizer a todos a importância que tiveram para mim, que têm para mim e a alguns, nem todos, que terão para mim. E a quem me acompanhar desde hoje, sou tudo isto sem concessões à lealdade e amizade que deposito nas minhas relações.
Porque tal como quando parti para Ferragudo a intenção é a mais simples possível: dou-me a este trabalho todo só para ser Feliz.

Mira



Da Lagoa de Mira a Mira vão meia dúzia de quilómetros. Meia dúzia é exagero, é quase navegação à vista, basta contornar a água para lá se chegar. É um instante. E foi um instante precioso.
Nesta história entram 4 personagens, 2 principais, 1 secundária e 1 figurante. Do figurante não ficou memória, nem o nome se guardou. Apanhou boleia e entrou num filme quase por acaso. A personagem secundária, por sua vez, teve um daqueles papéis sem os quais o enredo não avança pois se não fosse ter perdido os óculos, não teria pedido boleia para ir a Mira comprar lentes, a amiga não teria ido com ela e as personagens principais não se teriam cruzado. Perder-se-ia um excelente romance. Uma vida a dois destinada a durar para sempre.
Foi assim que aconteceu: era uma vez a Gaby, vamos chamar-lhe assim para dar nome à personagem, que perdeu os óculos. Sem eles, digamos que fica sem ver lá muito bem: dores de cabeça começam a atormentá-la, passa a viver num mundo de formas difusas e desfocadas... a bem dizer fica para lá de cegueta. Em casa tinha outros mas ia demorar-se ali todo o fim de semana e era incomportável estar 2 dias naquela situação.
No hotel, ia o actor principal a passar com as chaves do carro a tilintar na mão, absorto nos seus pensamentos, e logo a Gaby lhe fez o "fadinho" para a ajudar a encontrar um oculista. Certamente que em Mira haveria um, não parecia ser terra assim tão pequena...
- "Eu pago a gasolina. É que não consigo ver nada sem óculos!"
Deixou-se convencer, sair do aldeamento até seria bem vindo para vencer o marasmo da fria tarde de Novembro naquelas latitudes. Quando deu por ele já tinha o carro lotado de acompanhantes: o figurante que estava farto do café rasca do aldeamento e a amiga que ia com a estouvada da esquecida para evitar que se metesse em sarilhos. Uma espécie de anjo da guarda. E ele anjo da guarda das duas. O outro, faz de conta, era como o burrico do presépio, simplesmente para compor o cenário.
Durante o curto trajecto ambos os anjos trocaram olhares e observações: ela avaliando a segurança e suavidade da condução, as mudanças escolhidas e a doçura dos gestos, ele descobrindo os olhos castanhos reflectidos no retrovisor. Dir-se-ia que foi o início de alguma coisa...
Em Mira o oculista estava fechado. Nada de lentes de contacto para ninguém. Foram então beber o tal café. Encontraram um saboroso e cheiroso expresso, cheio de espuma e qualidades, e o dono do estabelecimento cheio de conhecimentos. Logo foi informando que junto ao mar, na localidade sobranceira ao oceano, num centro comercial "ali próximo do centro", havia ma óptica que "com toda a certeza está aberta".
A troupe enfiou-se no carro, contornou a lagoa, passou o aldeamento e fez-se à dita terrinha. tal como vaticinado, a loja estava aberta e, golpe de sorte, haviam as lentes desejadas. Regressaram ao hotel, a Gaby feliz que nem um rato, a conversa amaciada pelo sucesso, os assuntos escorreitos como cerejas e a combinação de uma bebida tardia, depois do jantar, quem sabe um pé de dança no escuro da discoteca.
Assim aconteceu, a bebida, mais assuntos explorados, o figurante que não apareceu e a Gaby encostada a um canto a curar a embriaguez. Restaram os dois. Sussurros ao ouvido para vencer a música alta, mais um pouco de bebida, mais sussurros, uma mão sobre a mão, uma carícia ao de leve, um olhar mais penetrante, um silêncio incómodo. O pressentimento de um beijo. O suave toque dos lábios, primeiro a medo, depois com vontade. O entrelaçar de um abraço.
E a eternidade condensada num momento!

Hotel Astória

Andou um dia inteiro pelas ruas de Coimbra, errante, queimando tempo, vendo todas as montras que encontrava, entrando em cada igreja e lendo cada placa informativa dos monumentos. Mesmo assim sobrava tempo, entupido nessa ampulheta universal que a todos rege. Por mais que se esforçasse em olhares demorados e passos lentos, cada mirada para o relógio só confirmava essa conspiração que atentava contra si. O encontro estava marcado para as 5 horas junto ao Hotel Astória no Largo da Portagem. Daí partiriam para as serras acompanhando o Mondego em busca de algum refúgio. Dos chamados problemas da vida, das pessoas, do trabalho, do próprio mundo quando este começa a pesar demasiado.
A demora estava a ser demasiada, a própria cidade arriscava-se a não chegar para gastar tanto tempo...
Andava, andava... e quanto mais andava mais vinha parar ao mesmo sítio, como se o anfiteatro natural onde a cidade foi erigida lhe conduzisse os passos sempre na mesma direcção. No seu périplo pela cidade do conhecimento verificou as suas origens antigas. Os panos de muralhas restantes, as portas acasteladas, as torres resistentes e adaptadas a outros fins evocavam um passado muçulmano eloquente, do qual nem sequer a Universidade, no alto, ex-libris por mérito próprio, escapa. O seu traçado vai buscar a esquadria à fortificação árabe destinada a ocupar a posição cimeira. Depois, por ali abaixo, ruas, ruelas e becos confundem-se com qualquer localidade mourisca com os seus cotovelos apertados, os recantos escondidos e as passagens estreitas. A chegada dos cristãos não foi suficiente para "civilizar" essa aparente desordem, talvez porque não fossem assim tão "civilizados", quiçá porque não tinham arte nem engenho para melhorar o que encontraram.
Perdurou assim o esquisso até aos dias actuais que a mole de estudantes vestidos de negro soube re-inventar e dar fama com as suas serenatas, as suas tertúlias, as suas bebedeiras... À luz do dia as Repúblicas ainda existentes repousam dos desavrios nocturnos. Não fossem os escritos irreverentes nas paredes e nada as denunciaria na pacatez sonolenta do centro histórico.
Às 5 em ponto lá estava ele em frente ao Astória lançando o olhar sobre o Basófias, esse rio empola-tudo que se fazia de grande no Inverno para minguar à farta no pico do calor. Hoje um dique próximo disfarça tamanha gabarolice. é um acordo que serve ambas as partes: o rio não passa vergonhas, a urbe vê-se ao espelho todo o ano.
5 horas e ele lá. Duas mãos vindas de trás tapam-lhe os olhos. Uma voz adoçicada sussurra-lhe ao ouvido um desafio de adivinhação. Ele aceita e acerta. Eles beijam-se. As intenções de antes perdem razão de ser, ir para as montanhas buscar os ares da serra fez-se desejo desnecessário.
A noite em Coimbra fez-se de maiores encantos.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

"Levar-te à boca,

beber a água mais funda do teu ser

-se a luz é tanta, como se pode morrer?"

Eugénio de Andrade

Nasceu uma estrela

e uma flor no jardim.

Uma onda acaricia a areia com os lábios de espuma.

Hélder, a tua mãe viaja na vertigem de ser amada por pessoas como tu.

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Amadeu de Souza Cardoso






Gulbenkian é uma das instituições culturais mais importantes do país, e Amadeu de Souza Cardoso, um dos expoentes máximos da arte moderna em Portugal. Em Novembro de 2006 juntaram-se os dois, comemorando dois aniversários: o do cinquentenário da Fundação e a partida do pintor para Paris.

Quanto à pintura, as obras ficaram sem sombra de dúvida na memória, tal como o nosso esforço para compreender o seu conteúdo. Co-adjuvados por um casal também interessado em desvendar os mistérios da arte "Cardoseana" tentou-se entender o porquê dos títulos, as leituras por detrás da primeira impressão, o pormenor escondido que tudo diz. Mais à frente um segurança, que depois de tantas vezes ouvir a explicação do guia e dos visitantes experts em arte, já conhecia os meandros das obras que o rodeavam - um bem-haja ao segurança sem nome ajudou na compreensão de uma ou outra obra. Atabalhoado, sem certezas certas mas com a maior das boas vontades.

Mas foi exactamente um segurança que marcou esta exposição. Esta personagem também sem nome, embora com filiação, encontrava-se numa das portas de entrada para a exposição, e cumprimentava os clientes de forma calorosa.

O primeiro cliente-alvo foi um senhor aparentemente conhecido e conhecedor do nosso anfitrião, que apesar dos esforços de discrição levou uma valente palmada nas costas como cumprimento, mas tão valente, que apesar de não ser um lingrinhas, não teve outra opção senão dar dois passos em frente para se equilibrar. Senti-me bem por não me conhecer...

O segundo cliente, foi alvo de uma situação bem mais caricata, até porque nos deu a conhecer algo mais sobre o nosso personagem. Após olhar com alguma atenção para o ele, disse com um olhar inquisidor mas caloroso: "a sua cara não me é estranha", o cliente olhou também com atenção, mas aparentemente nada no nosso segurança despertou a zona de reconhecimento de faces do seu cérebro. Mas a nossa personagem continuou "Não me está a reconhecer?", e face à expressão envergonhada e avermelhada do interlocutor continuou: "mas eu estou a reconhecê-lo, e o Sr. conhece o meu pai.". O cliente-alvo continuava a olhar como se tivesse sido colocado numa ribalta que não desejava, olhando em volta para tentar perceber a dimensão do palco e da plateia. Por fim a nossa personagem com a já famosa palmada nas costas, alivia o sofrimento do cliente dizendo "Sou eu, o filho do Manuel Bate-Chapas!" No entanto, e apesar das várias oportunidades que o nosso personagem lhe deu, o cliente ficou como estava, a não fazer a mais pálida ideia de quem era aquele senhor sorridente, bem-disposto e à-vontade, mas sem nenhuma ideia do mau-estar que provocava no outro, que se encontava à sua frente.

No Thrills Airlines


Há muita gente que tece duras críticas às chamadas companhias low-cost. na maior parte das vezes dizem que não é justo não poderem ter refeições a bordo, desancam a política de devolução de bilhetes, questionam a segurança dos aviões... Afinal falam mal de tudo menos do preço, que esse já lhes parece "inacreditável", tanto que até desconfiam e questionam a veracidade dos valores que vêem anunciados. Pois a mim não me causa qualquer confusão recorrer aos serviços dessas companhias. Já usei, gostei e estou mortinho por uma folguinha para poder usar novamente. Talvez Amsterdão ou Bruxelas da próxima vez...

Acho até que a pergunta e as críticas deiam ir em sentido inverso: porquê ir a correr para uma companhia de bandeira se são duas, três, quatro, às vezes dez e mais vezes mais caras para um trajecto que leva o mesmo tempo a percorrer. Até os modelos de avião são quase sempre os mesmos e os aeroportos igualmente. Dizem-me que estas companhias têm uma estrutura maior, têm lojas e guichets de atendimento ao público, que não é obrigatório ir à internet comprar o bilhete e que até nos dão de comer a bordo.

Pois...

mas eu comprei o bilhete pela net, tenho o mesmo e-ticket que nas mais baratas e não usei nada dessa chamada "estrutura". Se calhar aquele prato de carne co legumes enlatado e aquele café de água suja com bolo de ontem valem a discrepância de preço pela qualidade e possibilidade... Bem, eu para viajar para Londres dispenso bem o lanchinho, duas horas passam num instante, ainda mais depressa se bater uma sorna.

-"Ah, mas essas companhias não devem ter tanto cuidado com a manutenção dos aviões..."

Não devem ou não têm? Alguma vez caiu algum? Não são sujeitos às mesmas fiscalizações? O que eu sei, de facto é que a British Airways e a Air France, só para atirar às mais carotas, andavam aí a voar com uns chassos de 40 anos e ninguém veio dizer que era um perigo. Até ao dia em que de uma assentada o bom e o seguro ficou espalhado pela pista em mil bocadinhos carbonizados...

Os ingleses usam outra expressão para falar das low-cost: no thrills airlines. Numa tradução muito liberal: companhias sem mariquices. Os aviadores de antanho eram duros e corajosos; de fornicoques e não me toques não fala a história da aviação!

Um raio de luz na noite escura


“Um Raio de Luz na Noite Escura” é o nome do livro do qual fui à apresentação na semana passada no Museu da Cidade. Um livro de Albano Estrela, que seria há uns anos seria Prof. Albano Estrela. Contudo, risque-se o “Prof.”, pois tal como o próprio disse, “Professor já fui, agora estou reformado.” – bem, não sei se um professor deixa alguma vez de o ser, mas quem sabe, sabe!
No seu livro existe um conto “ A Última Noite”, cuja personagem principal é Mário Sá Carneiro. Às páginas tantas Mário diz: “Estou a repetir-me, sempre a repetir-me. Escrevo o que já escrevia há cinco anos.”
Estranhas palavras? Talvez não…
Há escritores que escrevem sempre o mesmo livro, cineastas que fazem sempre o mesmo filme… Será que se vivessemos várias vidas, também viveríamos a mesma? Talvez só mudássemos o cenário das viagens que fazemos... E as verdadeiras viagens? As aprendizagens que fazemos nos caminhos que percorremos?
Será que as pessoas com quem nos cruzaríamos deixariam em nós uma herança diferente, ou será que nos ensinariam, tal como ensinam (se estivermos atentos e disponíveis) exactamente aquilo que temos para aprender?
Talvez só mudássemos o cenário…

Então, afinal, porque é que não vemos tantas vezes o que a vida tem de bom? Teríamos desculpa se vivessemos várias vidas... seria como assistir várias vezes ao mesmo filme e descobrir sempre pormenores novos. Infelizmente só compramos bilhete para uma sessão, acho um desperdício tanta distracção.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Venda Tribe


Algo que se pode descobrir facilmente quando nos dispomos a contactar outras gentes e outras culturas é que por mais reservadas que nos pareçam, estão sempre prontas a dar-se a conhecer. É uma característica humana, a curiosidade, e todos a sentimos por igual. Nós "ocidentais", do "mundo desenvolvido", ansiamos por descobrir como é a vida daqueles homens e mulheres que encontramos nos países distantes e diferentes, às vezes infinitamente mais pobres, outras infinitamente mais ricos.
A curiosidade leva-nos a perguntar e a maior parte das vezes conseguimos as respostas que ansiamos. mas não sem que se estabeleça um processo de troca. Respondem-nos na condição de poderem, também eles, perguntar. O resultado é um processo mútuo de admiração perante o outro, perante os seus costumes e opções de vida.
Por exemplo, Godfried, o jovem guia do safari no Kruger Park. À primeira vista e a julgar também pelo nome que ostenta, poder-se-ia pensar ser um jovem urbano que bebeu do estilo de vida que os "ocidentais" levaram para aquele país, totalmente desgarrado do mosaico étnico local.
NIM. O nome recebeu-o do médico alemão que o ajudou a nascer na sua aldeia no meio do mato. A sua vida perigou em infante, viu a morte a espreitar detrás do embondeiro mas deixou-se ficar para ir à luta. Deus seria seu amigo e aliado? A crença do médico foi que sim e assim ganhou o seu nome: amigo de Deus - Godfried.
Urbano? O suficiente! Consegue receber os turistas e conviver com os visitantes, é conhecedor das ferramentas informáticas e do universo Web, tem conhecimento geral q.b..Ao mesmo tempo permanece fiel às tradições dos seus, da sua cultura ancestral na tribo Venda.
Não sendo dos grupos mais expressivos no puzzle multiracial da África do Sul, é natural que o estrangeiro não tenha deles qualquer ideia. Num breve apontamento são oriundos do Zimbabué e têm expressão naquela faixa de território que une o Zimbabué, a África do Sul e Moçambique. No mais, combinam casamentos entre as famílias, as mulheres são obrigadas a cumprir os acordos feitos pelos progenitores e os rapazes idem idem, aspas aspas. Na fase de vida em que ainda não atingiram a independência são moeda de troca e o lacre que sela acordos e alianças, são a face visível da união de famílias e clãs quando não de aldeias inteiras. Nos olhos dos tão civilizados europeus (os tais das duas guerras mundiais, lembram-se?) isto poderá ser um comportamento bárbaro e inferior mas a verdade é que moldou o carácter e firmou o sentido de honra daquelas pessoas. O nosso interlocutor é apenas o exemplo mais vívido por estar ali, contando no seu inglês perfeito o conteúdo das suas experiências.

No entanto, e apesar do orgulho que tem nas suas raízes, Godfried é um exilado. Bebeu demasiado do estilo de vida moderno. Recusou-se a cumprir o casamento combinado por uma questão de amor: o que não nutria pela rapariga escolhida, o próprio por ser a base da sua dignidade. Preza demasiado o seu livre arbítrio e a capacidade de escolha para não ser ele a decidir sobre a mulher com quem vai casar e assim, de uma forma inapelável, foi forçado a sair de casa.

Contudo, participa nos rituais que pode, com o seu grupo de amigos: canta e dança e atinge os seus nirvanas, mantendo intacta a sua identidade.

Alguma vez teria ouvido falar nos Venda se não tivesse saído de casa? Duvido seriamente. Talvez se por um acaso fossem capa da National Geographic Magazine... Mas até por essa via seria difícil pois sou leitor demasiado esporádico.

http://www.alliance.org.za/article.php3?id_article=335

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Safari no Kruger Park


Quando regressei de África e disse que tinha feito um safari, toda a gente quis saber como era, se era giro, se se viam muitos animais…
Um safari em África é um produto turístico e por isso é feito u enorme esforço para que as expectativas não saíam defraudadas. Os guias conhecem os hábitos dos animais e os seus locais preferidos, pelo que a probabilidade de se conseguir descobrir as várias espécies é relativamente grande. Depois é contar com a sorte e esperar que todos os Big Five se dêem a mostrar. Nisso, posso dizer que os deuses estiveram do meu lado, pois não foram precisas mais do que duas horas para que o nosso hábil guia, o Godfried (amigo de Deus) descobrisse o leopardo, o leão, o búfalo, o rinoceronte e o elefante. Já para não falar das girafas, das zebras, dos macacos, das impalas, dos hipopótamos, dos zebus, dos crocodilos, das hienas, dos javalis, das suricatas, das águias… e espero não ter esquecido nenhum dos ilustres habitantes da savana.
Para quem está acostumado a ver cães e gatos vadios, aquela fauna em ambiente natural é um espectáculo digno de nota. Respondendo às perguntas iniciais, sim, é giro e sim vê-se mais do que no circo. Mas o que trago de mais interessante ainda assim, foi a conversa com os companheiros de ocasião, um casal que se sentou nos lugares atrás do meu.
Ele, Michael Kipping, alemão reformado a viver na Argentina onde vive a sua paixão Beatriz Provitina , artista plástica de Buenos Aires. Só esta história de amor já teria interesse bastante, mas a exploração da conversa ainda revelou mais deste par de personagens. Michael era investigador farmacêutico e foi para a Amazónia em busca de plantas e princípios activos que pudessem ser os medicamentos do futuro. Foi ficando, percorrendo a América latina até se radicar na capital argentina com Beatriz. Gostei da sua filosofia de vida: 25 anos para estudar, 25 para trabalhar e a partir daí gozar a vida, viajar, enfim, fazer tudo o que a vontade ditar. Congratulei-o por ter conseguido isso, como projecto de vida não está nada mal e sinto-me tentado a apropriar-me do modelo para mim.
Depois da África do Sul partiriam para a Ilha de Madagáscar e lá por Abril estava planeada passagem por Portugal. Na Europa, Michael só guarda o seu carro, um descapotável, por sinal. É só retirar a capota e rumar a sul, para o calor e ambientes mediterrânicos.
Obviamente fiz o favor de os convidar, quem sabe que histórias terão eles para contar por essa altura?

British Museum

Os guias de viagens têm tudo ou quase tudo o que é preciso ver numa cidade, país ou região e apesar da sua útil utilidade que lhe temos que reconhecer, não dizem o essencial... E o essencial é o que se sente!
O British Museum foi exactamente assim, referenciado como fundamental de entre os fundamentais museus londrinos, descrito de fio a pavio, inclusive com mapas do interior, indicações das peças mais importantes...mas nada nos prepara para a emoção que é visitar aquele espaço único!
Como definir a sensação de entrar num espaço fisicamente limitado, mas no qual está espelhada a história da Humanidade? E a sensação de estar junto à Pedra de Rosetta, com um decreto de 196 A.C. emitido pelo Ptolomeu V e resgatado pelas tropas napoleónicas? E a emoção de estar próxima do Homem de Lindow com 2000 anos? E a sensação de entrar numa sala e ver um templo de uma civilização que se extinguiu há centenas de anos, intacto, ali à nossa frente como se o tempo não tivesse passado jamais?
“Como definir?” talvez seja mesmo uma pergunta sem resposta, talvez isso explique a opção dos guias de viagens... pois afinal de contas, como definir?

Vasa



Não há como uma tempestade nórdica para nos fazer compreender quão afortunados somos, no que ao clima diz respeito.
Andara toda a manhã a prometer: a temperatura a baixar ligeiramente, o céu a vestir-se de cinzentos progressivamente mais escuros, a brisa a ganhar mais fôlego…
Apesar da promessa de temporal, nem pensar em abdicar do passeio embora antecipássemos a impossibilidade de conhecer Skansen e o seu retrato da Suécia. Fomos caminhando contornando o Báltico e observando a diversidade de barcos, a arquitectura do prédios e o desenho das alamedas. Observando os habitantes de Estocolmo entregues ao seu jogging, ao seu cycling, ao seu rollerskating, enfim ao seu living próprio, despreocupado e descomprometido, indiferente aos humores do clima.
O passeio levou-nos à ilha dos museus e as pernas rapidamente nos guiaram ao Museu Vasa com a chegada das primeiras gotas de chuva. A necessidade de abrigo, acabou por ditar a escolha do programa cultural e assim entrámos no Museu, um hino à incompetência dos homens aliada à mais estúpida e despropositada soberba.
O Museu Vasa recebe o seu nome de um navio, “o mais bem conservado navio do século XVII” com cerca de 90% da sua estrutura original. O navio recebe o seu nome do Rei da altura, figura altamente proeminente do país e do xadrez internacional da época e era suposto ser o maior e mais bonito da armada sueca. Viviam-se tempos de prosperidade e poder, com a coroa a estender o seu domínio por toda a Escandinávia e mares do norte.
O problema é que a ambição desmedida tem por hábito fazer-se pagar caro, primeiro no não olhar-se a custos e depois pelo amargo preço do insucesso. O insucesso do Vasa saiu ao preço das vidas humanas que sugou para o fundo do mar quando se afundou na sua viagem inaugural, duzentos metros depois de soltar amarras.
Os chefes engenheiros sem prática na construção de barcos de tal porte fizeram mal os cálculos e rapidamente se descobriu que o lastro colocado não era suficiente para equilibrar os vários andares de altura de madeira, cordame e lona. Bastou a ligeira ondulação provocada pelo avanço nas águas frias do Báltico, para adornar fatalmente. Seguiram-se os gritos, o pânico, o horror e impotência da populaça que assistia das margens ao lançamento daquele portento. Hoje, o que resta está exposto: um barco de aspecto fantasma e tudo com ele relacionado que o mar entendeu devolver.
O museu em si é espartano e impessoal, consiste num edifício de cimento, quase sem janelas, resguardado da luz exterior por vidros escurecidos. O Vasa anichado em doca seca, com as suas madeiras carcomidas, adensa a atmosfera de luto. É um ser inanimado que jaz perante o visitante e pese embora o empenho e a técnica colocados no seu resgate, pese embora ser o testemunho mais fiel da indústria naval de séculos passados, pese embora tudo isso e mais coisas que as brochuras possam louvar, não deixa de ser também um destroço de uma era em que sangue, suor e lágrimas se confundiam com caprichos reais. E não esquecer igualmente que aquele invólucro de madeira é também o túmulo recuperado de centenas de marinheiros. Corremos toda a exposição, lemos cada um dos painéis informativos, vivemos o museu por dentro. Assimilámos.
Depois, dirigimo-nos para a porta para sair, ir ver mais coisas e mais cidade mas a intempérie, ao invés de abrandar, adensou-se, barrando-nos o caminho. Copiosa, batida a vento e batendo em tudo com estrondo e violência fez-nos reféns da sua vontade. Basta olhar em volta para cimentar a ideia de cerco: uma cortina opaca de água desabando em cima de tudo e unindo-se às águas do Báltico. É o fechar de um ciclo, uma espécie de regresso a casa.
Quanto a nós, creio que percebemos porque é que se visitam menos museus lá pelo burgo, é porque chove menos e a malta quer é praia!

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Signal failure



Habita em Londres, mais precisamente no seu famoso metropolitano uma entidade misteriosa de que já toda a gente ouviu falar mas poucos a viram. Aliás o mistério e fama são tão grandes que basta ouvir falar nela para se desenhar nos rostos a preocupação e o medo. O mistério maior é descobrir como é que os senhores responsáveis pelo Tube sabem que a tal entidade anda presente, pois avisam toda a gente pelo sistema de altifalantes instalados pelas estações.
Due to a signal failure, some delay in trains arrival may be expected. Thank you.
E naturalmente cresce no interior de cada um que espera a frustração de um serviço que não funciona, o receio de um infindável atraso e a antevisão de uma chegada tardia ao destino.
Em Lisboa sempre nos vão dizendo que o metro não vem devido a falha técnica ou que a linha de cor xis se encontra com perturbações. Falha técnica é falha técnica, é avaria, é estragadice, dá para entender. Perturbações todos têm de vez em vez, é do stress e do trabalho em excesso e isso eu desculpo porque vejo as linhas a laborar 7 dias por semana todas as semanas do ano.
Um signal failure é coisa para não se entender. Os locais não fazem a mais pálida ideia do que é e os turistas, alguns nem percebem o que anunciam nos altifalantes. No fundo acho que lhe chamam isso para escamotear. Os londrinos têm um metro velho como o caraças que já levou com bombas dos alemães, bombas dos árabes, que já viu horrores com incêndios brutais, que tem ratos que não acabam… convenhamos que deve estar tudo como há-se ir lá por baixo.
Naturalmente não se pode dizer isso às pessoas e assim nasceu o signal failure para permitir margem de manobra, e, pelo caminho, para se ajuntar no folclore local aos paternalistas mind the gap e mind the step.
Acreditem meus amigos, as t’shirts já não devem demorar.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Bicos de pés

Da serra mais alta avistam-se serras altas mas pequeninas pela distância. A neblina de fim de tarde invade o horizonte trazendo a promessa de uma noite gélida, boa para se passar em frente à lareira ao som da madeira a crepitar. Não será assim de certeza. Será passada na estrada, de regresso a casa depois de um par de dias nos topos de Portugal, primeiro no Caramulo e depois na Estrela, dois dias de retiro sabático entregues ao ar puro e pacatez da vila termal serrana e uma passagem fugaz pelo cimo nevado de Portugal.
Em ambos os casos, tradição e vanguarda andam de mãos dadas: no Caramulo convivem lado a lado aldeias típicas, dependentes da agricultura, da pastorícia, da boa vontade dos elementos, com as torres eólicas mais recentes e modernas. Olham-se de frente o Museu antigo de décadas com a sua extensa coleção de arte, tapeçarias, mobiliário e automóveis e o Hotel, recentemente recuperado e com um Spa de última geração que promete maravilhas de saúde através do poder da água.
Na Estrela os desníveis vencem-se agora com a ajuda das telecadeiras na única estância de ski em solo nacional, enquanto no Centro Comercial da Torre se tentam impingir as antiquadas camisolas de lã e as já demais conhecidas pantufas de pele e pelo.
Não há como negar este cruzamento de passado e futuro, um pé no tempo que foi e outro no tempo que há-de vir. O Portugal profundo, afinal, está na encruzilhada dos tempos, a viver um presente tal qual ele deve ser, uma ponte entre alturas diferentes e atribuindo-lhes sentido e razão de ser. O presente do Portugal profundo é tal qual o vivido em Lisboa, na capital das vontades e das decisões, apenas faz mais frio.
Viajando com a cabeça no ar, passageiros das telecadeiras, ficamos no mais alto deste país e o que vemos, para além dos muitos equívocos, das inúmeras lamentações e das indesmentíveis contradições é o mesmo que Viriato via há séculos de distância. São os montes, os vales, são os pedaços de terra e rocha onde inscrevemos a nossa identidade. E onde, verdade seja dita, no Inverno faz um frio de um corno.

Sogne-fjorden



O Fiorde dos Sonhos: Sogne-Fjorden. Começando no nome, que transmite a ideia de algo étereo e irreal, poderoso, marcante e intocável e terminando na paisagem, ela mesma, tudo impressiona naquele pedaço da Noruega. Pensa-se ir avisado para o que se vai encontrar, já se viu nas revistas de viagens e nos sites da internet imagens do paraíso, e de todos os ângulos possíveis, mas quando se chega ao cais de embarque, em Gudvangen, todas essas certezas desaparecem esmagadas pelo cenário.
As montanhas erguem-se majestosas a toda a volta encimadas por alguns lençóis de neve que resistiram todo o Verão e se eternizam até ao próximo. O céu, azul durante toda a manhã, cede aos ímpetos outonais de fim de Agosto e veste-se gradualmente de cinzento, ameaçando desabar sob a forma de chuva a qualquer momento. E depois o mar. sim, porque mesmo a centenas de quilómetros de distância da costa é o mar que ali está, salgado, escuro, gelado, é o mesmo Mar do Norte que banha Bergen ou Oslo ou onde os vikings se lançaram nas suas descobertas. O cheiro é a maresia, a praia, a nortada numa praia no Inverno português e é isso o que impressiona acima de tudo. Estamos no interior, rodeados de montanhas com mais de mil metros de altitude e inalamos o mesmo ar gelado e salmorento do litoral mais bravio e agreste.
é uma beleza plácida, feita de silêncios apenas interrompidos pelo gorgolejar da água nos blocos de pedra que seguram as paredes do cais, o chocalhar ritmado dos riachos que se despenham do alto, saltitanto violentamente sobre cada desnível e obstáculo da encosta, ou as sirenes dos ferries que anunciam a chegada ou a largada.
É um silêncio que enche a alma, ancestral.
Embarcamos, todo o grupo em desalinho, à pressa, em correria, a ver quem apanha os melhores lugares. Parece a luta do dia a dia por um assento no metro ou autocarro, um reflexo condicionado promovido pelo dia a dia de todos os dias. O problema é que praticamente nenhum daqueles presentes frequenta transportes públicos, deve ser algo que já vem no sangue.
Ninguém faz a mais pálida ideia de quais são os lugares melhores, ninguém de entre estes vizinhos de ocasião esteve aqui antes, mas avançam decididos, atropelando os demais e desculpando-se cinicamente. Uns sentam-se virados à ré, outros penduram-se nas laterais, outros encontram poio mais à frente, próximos da ponte.
O motor ronca violentamente e coloca o navio em marcha. E todos nós, turistas em causa própria, marchamos com ele.
Não tardou a comitiva a perceber que o fiorde é para duros. Aquelas almas saíram do hotel sem casaco substimando claramente o Verão Norueguês e não demorou até sentirem no corpo o efeito do windchill. Assim como escolheram os lugares de contemplação, atiraram-se aos lugares de recolhimento no interior do salão-bar. Mais fica. Veste-se o corta-vento e já está, perfeitamente preparados para a vigia à natureza mais bela, mais calmante, mais mágica que este planeta já nos deu.
O Fiorde dos Sonhos é património da Humanidade por isso mesmo, pela capacidade que tem de transportar os que o visitam para um estado de graça único, como um sonho mas acordados. Depois vêm as justificações: ser o troço onde o Fiorde atinge a menor largura entre margens, uns meros 250 metros medidos a olho, onde as montanhas sobem mais alto acentuando a sensação de entalamento, onde a massa de gelo que o originou escavou a pedra mais fundo.
Não é preciso conhecer as razões e tampouco importa saber que a Unesco se deu ao trabalho de atribuir tal distinção, para se apreciar o espectáculo. Ele está lá para quem o quiser descobrir há milhares de anos e continuará, com ou sem a publicidade.
A desfilar à nossa frente minúsculas aldeias de pescadores, cascatas, gaivotas que rasam as águas, uma foca esquiva confundindo-se com as rochas onde se deita, montanha atrás de montanha num degradé esfumado pela neblina e que fecha o horizonte... não há lugares ideais para assistir a este espectáculo, é necessário vaguear pelo convés, ora a bombordo, ora a estibordo, ora à ré, ora à proa... amealham-se imagens mentais que esperamos conseguir recordar por muito tempo, tiramos fotografias para garantir um pedaço do fiorde para nossa propriedade, inspiramos fundo e exalamos pausadamente para recompor as energias.
Não sei quanto tempo passou até ao cais de chegada. Não me interessa. Sei que passei bom tempo. E interessa-me pensar que um dia regressarei.

Foca



Foca! Foca!
O norueguês saíu da ponte do ferry apontando a margem indicando o animal que a palavra significa em português. Aninhada sobre umas pedras na margem, uma foca repousava, ou apanhava sol, ou se refugiava...
rapidamente as máquinas fotográficas dirigiram as objectivas na direcção apontada para quase todas flharem o objectivo, ou não serem capazes de distinguir o objecto, ou ficarem com resultados esborratados e des-foca-dos.
Ao mesmo tempo o ferry avançou, indiferente aos fracassos dos fotógrafos de ocasião. Ao mesmo tempo os olhos viram cada vez mais afastada a mancha que identificaram como uma foca. Para eles o dito bicho há-de ser para sempre uma mancha no horizonte.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

Josué

Josué era terminantemente contra qualquer tipo de ajuda e compaixão àqueles doentes de que toda a gente falava, os tais do flagelo do século XX, os tais da doença do século, os tais que para ele, só estavam doentes porque tinham atentado contra as regras da natureza e do Senhor Deus.
-"Cambada de anormais" - gritava ele quando nas notícias adiantavam números das estatísticas mais recentes dando a conhecer um cenário crescentemente mais negro.
-"Deviam morrer todos! Acabava-se logo com a peçonha!"
Apesar de incompreendida aquela revolta toda acabava por ir sendo desculpada por colegas e amigos que a atribuíam à "idade" e à "educação", e como "burro velho não aprende línguas", achavam lícito, apesar de incoerentes, aquelas atitudes.
Certa manhã, saía Josué pela porta do prédio e vê passar do outro lado da rua um jovem ostentando uma t'shirt branca com dizeres garrafais a vermelho: "EU TENHO SIDA". Achou de terrível mau gosto, se a tinha para quê ostentar a nódoa e se não tinha, não era assunto para se andar a brincar, nem a exibir daquela forma.
Seguiu o seu caminho barafustando sozinho sobre a falta de dignidade daquela gente, "cambada de maricas e drogados, putas e proxenetas!". Ao virar a esquina quase chocava com as mesmas letras vermelhas "EU TENHO SIDA" apostas na t'shirt, desta vez envergadas por uma moça bem feita, alta e formosa, loira, de olhos azuis. Ficou confuso e assustado.
Deu um passo para trás e quase correu para se afastar.
quando parou, ofegante, uns metros adiante, começou a reparar nos transeuntes, altos, baixos, novos e velhos. Rapazes e raparigas, senhoras e senhores, toda a gente parecia usar aquela horrível roupa branca com as letras encarnadas vivas.. De repente parecia que todo o mundo tinha enlouquecido, devia ser, só podia ser, culpa da televisão e daquelas campanhas, dos jornais e daquelas notícias. de repente a anormalidade virou moda e a presença da morte uma via para fugir ao anonimato.
Ficou sem saber o que fazer, para onde se virar. Certamente que nem todos a teriam, ou será que sim? Como é que toda a gente ficou infectada? Seria alguma coisa no ar? na água? Quis fugir mas ficou sem reacção, fugir por onde? Para onde? As ruas pareciam populosas de tantos fantasmas, todos a olharem para ele cubrindo a sua fuga de perigos.
Inspirou fundo e desatou a correr, parando apenas depois de franquear as portas do seu prédio e a entrada do elevador. Sentiu-se seguro só depois de ter encerrado a porta do seu apartamento atrás de si, com estrondo e rápidos movimentos na fechadura.
Dirigiu-se à janela e lá de cima, do seu quinto andar pôde assistir aquele que era o mais estranho espectáculo da sua vida: centenas, talvez milhares de pessoas, todas com a mesma t'shirt branca, parecia neve a caminhar, todas com a mesma frase estampada a vermelho, aparentando uma mancha sangrenta em impiedoso avanço. Como um anúncio do fim do mundo, o toque de corneta que anuncia o Armagedão.
E agora? Sair estava fora de questão, não se podia arriscar a tocar sequer naqueles cadáveres prometidos...
Os dias foram passando sem que a paisagem mudasse. A cada manhã ia à janela do seu quarto e olhava lá para baixo. Todos os dias, invariavelmente, a multidão aparecia igual, indiferente ao seu medo, à sua desgraça. Nem sequer abria a janela, não fosse o ar estar contaminado e violar irremediavelmente o seu esconderijo. Quanto à água, desconfiava da da torneira e bebia apenas engarrafada. Gradualmente o frigorífico foi-se esvaziando e o lixo acumulando. Embalagens vazias empilhavam-se a um canto da cozinha à espera de um dia poderem ser despejadas no contentor lá da rua. O ar bafiento e mal-cheiroso empestava a casa e era virtualmente irrespirável mas Josué não desarmava da sua ideia de se manter no seu reduto até que a epidemia passasse. Curiosamente não diziam nada nos telejornais nem na rádio, era como se estivessem cegos. Também, outra coisa não seria de esperar já que até o locutor aparecia com aquela maldita camiseta anunciando o seu fim, aparentemente com orgulho...
Definhava lentamente. A barba por fazer, as olheiras pronunciadas, o mau hálito visto que a pasta de dentes já havia terminado, faziam-no parecer cada vez mais velho e acabado. Sofria do efeito "campo de concentração" marcando no corpo os efeitos da perda de liberdade e de estímulos positivos. Sentia-se miserável e sozinho, nos primeiros dias ainda tentou telefonar a alguns amigos a pedir ajuda e ver se eles estavam refugiados daquela ameaça que grassava mas percebeu que também eles tinham sido vítimas quando disseram não estar a compreender nada e que não tinham notado nada de estranho. Fez o sinal da cruz e lamentou a sorte dos seus entes queridos e não pôde evitar-se chorar.
Passaram dois meses exactos desde que se fechara no seu apartamento. As sirenes irromperam pelas ruas e ouviram-se passos apressados nas escadas. Um estrondo coincidiu com o arrombamento da porta. Meia dúzia de bombeiros entraram de rompante pela casa adentro gritando por Josué mas ele não estava. Só o seu corpo jazia no chão, em posição fetal no meio da sala.
os vizinhos já tinham estranhado aquela porta fechada e a ausência do Senhor Josué, tinham batido algumas vezes e foram rapidamente enxotados aos berros. Há muito que achavam o cheiro nauseabundo e se tinham queixado à administração mas sem que tivesse havido qualquer mudança. Ouviam barulho lá dentro, passos de um lado para o outro até que naquele dia só ouviram um estranho silêncio. Contas feitas, talvez aquele dia fosse mesmo aquela semana. Decidiram que o melhor era ligar para alguém, talvez a polícia ou os bombeiros.
Uma roda de pessoas fez-se em torno daquele corpo. Josué tinha partido para longe e atrás de si, só ficaram os restos da sua ignorância.

(A t'shirt existiu mesmo, andava nas ruas de Maputo cobrindo uma enorme barriga de cerveja. A ignorância existiu e existe e provavelmente existirá durante muito tempo e por muito lado)

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Raimundo



Raimundo é taxista em Maputo. Trabalha na companhia Novo Táxi e foi escolhido para nos conduzir porque se mostrou mais honesto que os demais. Andar de táxi nesta cidade é arriscar ser enganado no preço da corrida, mesmo quando se sabe que o valor pedido não corresponde ao devido. o que se vai fazer? Chamar a polícia? Arriscar uma discussão onde outros se poderão envolver e onde estamos em minoria, étnica e de razão? Sim, porque a razão depende do prisma de onde se olha e ali somos ricos, por isso podemos pagar.

Na Novo Táxi há uma tabela, o que já dá maiores garantias. Tabela essa que dá o preço de acordo com os quilómetros percorridos.

O Sr. Raimundo é que nos avisou disso, por isso ficou como boleia preferencial. Com o seu cartão na mão ficou fácil chamá-lo quando necessário e mesmo quando impossibilitado de vir ele mesmo, manda um colega. O amigo do amigo, já se sabe...

Umas vezes é o Noé, outras o Brito, outras vem um que fala pouco e que nunca deixou o cartão pessoal. É o Florêncio.

Em Maputo andar de táxi é a melhor opção para quem é estrangeiro e não tem carro. Disseram-nos que era a única opção. Ali a cor da pele indica dinheiro, mesmo que não o tenhamos e é meio caminho andado para atrair o olhar cobiçoso de vendedores de ocasião, muito chatos, mas relativamente pacíficos e de outros, que na dúvida, é melhor não confiar.

Ter a garantia do preço certo é o mínimo que se pode desejar.

Certa vez, o Raimundo não veio. Parece que na recepção do hotel eles não ligam para telemóveis e assim a central da Novo Táxi mandou um qualquer.

Calhou um noviço, virgem na arte de ser taxista e eu diria que virgem na arte de conduzir. Noite fechada, escura como todas as noites e o homem avança sem ligar as luzes? E avançar para onde? A gente diz: "Para a Sagres" e ele julga que isso é na Costa do Sol. Lá tive de lhe ir indicando o caminho, segue por ali, vira lá, contorna a rotunda, entra naquele parque...

Eu um tuga com uma semana de maputo a ter de indicar direcções a um natural...

Mas até deu para rir na casaca cortada, gargalhadas naturais num bom jantar. Teria sido apenas um episódio anedótico não fosse o caso de se ter repetido novamente no dia seguinte. Da central mandaram o mesmo condutor que percebe tanto do ofício como eu de física nuclear.

Lá o conduzi novamente, desta feita para o Escorpião, outro dos templos gastronómicos da capital moçambicana.

Quando contámos ao Raimundo, este, com sapiência que não estamos habituados a encontrar na nossa praça exclamou: "Não acredito! Isso já não são insuficiências, são deficiências!".

E vá-se lá contrariar a voz da razão.

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Fica a sombra do que foi








África, o berço do mundo. E o seu filho esquecido.
Todas as histórias evocam a magia do continente Negro, o poder dos seus cheiros e cores, o apelo da sua diversidade, a simpatia das suas gentes...
Em Portugal quase toda a gente conhece alguém, de família ou amigos que tem dessas recordações maravilhosas, anunciando saudades de voltar a ver e sentir as terras que conheceu noutros tempos e que deixaram a sua marca impregnada no corpo e na alma. Mesmo os que vieram em tempo de guerra guardam com nostalgia as imagens de um continente abençoado.
Mas talvez essa benção esteja no fim da validade e em África fazem-se sentir problemas de toda a ordem, difícil mesmo é escolher quais os mais graves.
Quando soube que viria a Moçambique não pude deixar de sentir excitação ante a possibilidade de ver com os meus próprios olhos todas essas maravilhas e descobrir pessoalmente os encantos deste continente.
Contudo, já me tinham avisado que nem tudo é o mar de rosas ou o romantismo presente nessas histórias de antanho, Moçambique era há meia dúzia de anos o país mais pobre do mundo e ainda falta muito caminho para atingir a desejada qualidade de vida.
"Vais ter pedintes", "não podes andar na rua livremente", "as ruas vão estar sujas", "cuidado com os assaltos"... não faltaram os avisos sobre as gentes nem sobre as doenças e os perigos da malária.
Profilaxia feita e lá vamos nós.
O primeiro embate não foi muito mau, sair do ambiente hermético do A340 "Fernão Mendes Pinto" e sentir o calorzinho na cara constitui um verdadeiro bálsamo depois do frio sentido de noite a muitos mil pés de altitude.
Nada do dito cheiro a África, apenas o odor a querosene libertado pelos motores da aeronave até sentir a pista do aeroporto debaixo dos pés.
Gostei da sensação de andar pelo alcatrão do aeroporto, senti-me como numa viagem ao passado, ao período áureo das grandes vigens de descoberta a bordo dos mais míticos pássaros de ferro.
O edifício das Chegadas também não me pareceu muito mau com a sua arquitectura Estado Novo Colonial, com linhas limpas, direitas, aqui e ali com decorações artísticas de época. Desesperante a lentidão do sôr polícia, aumentada pela prioridade dada a um passaporte diplomático nativo. Enfim favoritismos no seu melhor.
Pois bem: antigo, lento, mas ainda assim suportável. Até tinha a sua piada.
O pior veio depois, abriram-se as portas da rua e lá fora a confusão era enorme com vendedores das mais diversas inutilidades a juntarem-se a carregadores de bagagem de ocasião que à viva força queriam ajudar, agarrando a mala e pedindo ostensivamente a gorjeta.
À espera o transfer do hotel mas mesmo o condutor nada podia fazer (nem teria interesse nisso) para obviar aquele incómodo local. Qualquer moeda que pudesse vir seria bem vinda para aquela gente, mas tanta ajuda é sempre de desconfiar.
A salvo no interior do minibus a oportunidade para observar a cidade.
A antiga Lourenço Marques, hoje Maputo exibe como seria de esperar toda a degradação e decadência que vem com a pobreza. Bairros de lata de incompreensível extensão alastrando desde a beira da estrada, misturando outdoors da Coca-Cola ou da Laurentina, cerveja de qualidade de exportação, com anúncios do comércio local. Ali um bar, acolá um cabeleireiro, mais à frente uma oficina de tubos de escape. Tudo disposto segundo o mais desorganizado dos desenhos, com as gentes a aglomerarem-se nos passeios, indiferentes às valas de esgotos a céu aberto e ao lixo acumulado.
É quando se entra nos limites da cidade antiga, dos portugueses, que se nota alguma organização, um traço lógico, uma cidade. As vivendas sucedem-se nas amplas avenidas intervaladas com arranha céus em decrépito estado, a merecerem pintura renovadora. Pelo meio alguns zelosos funcionários procuram dar alguma dignidade aos jardins, principalmente aos canteiros defronte de alguma embaixada ou edifício estatal.
Para os saudosistas da antiga Lourenço Marques é aqui que começa a ser possível identificar traços do passado, locais emblemáticos como o Hotel Polana, o recorte da igreja Polana, a Avenida Marginal ou o Museu de História Natural.
Chegado ao Hotel, ao Avenida, as amenidades oferecidas pelas 5 estrelas ajudam a esquecer o primeiro embate, levando a acreditar que talvez não seja tudo assim. 15 dias darão oportunidades mais que suficientes para descobrir muitas coisas boas.
Breve descanso antes do almoço, com a Costa do Sol a ser a eleita para retemperar as forças.
A viagem até lá deixa descobrir a longa baía de Maputo com as suas águas acastanhadas por causa da terra que traz misturada. Terra negra e vermelha continuamente revolvida pelas ondas, depois de roubada às margens sem pedir licença.
A maré está vazia o que deixa espaço no areal para centenas de pessoas poderem usufruir dos prazeres da praia, uns andando, outros apanhando sol, outros mergulhando, outros apenas dentro de água em morna diluição de stress.
Até chegar à conhecida marisqueira oportunidade ainda para observar um grupo de mulheres vestido de branco, fazendo uma espécie de baptismos. Disse-nos o taxista que são de uma confissão religiosa que habitualmente frequenta aquele pedaço de praia para os seus rituais. Quisemos saber mais mas mais ele não disse. Encolheu os ombros e colocou os olhos na estrada.
Finalmente a arquitectura Art Deco do edifício entra-nos vistas adentro, com o seu balcão sobre a baía, as palmeiras ao fundo e as águas a compor o ramalhete. Tudo evoca um período de ouro que já não existe.
Pode continuar a ser um dos mais famosos restaurantes, receber até o epíteto de "o melhor de Maputo" mas não deixa de ser um resquício de um passado há muito partido. O charme do conceito há muito que se esgotou e hoje mais do que um exemplo de qualidade, o que fica é a sombra do que foi.
É agradável estar na esplanada e sentir a aragem morna com o cenário natural da praia e da baía logo ali mas como fechar os olhos às hordas de pedintes que rodeiam cada turista que passa, ou aos vários vendedores que se esforçam por impingir um saco de cajú torrado, ou uma lata de Laurentina refrescada no balde de gelo que traz às costas? E como ignorar aquele saco de cajú que caindo ao chão e rebentando o plástico fez voar frutos para todo o lado, que lentamente voltam a ser enfiados lá dentro, indiferentes a qualquer preocupação com higiene ou sanidade?
É um choque deveras brutal e a solução passará talvez pela abstracção de toda a pobreza que entra pela alma dentro. E como se faz isso? Bem, essa é a resposta que me tem faltado...
O regresso faz-se pela mesma estrada onde só agora reparo na venda de mobílias feitas de vime, cadeiras, espreguiçadeiras, maples, camas... e o vendedor de água de côco ainda no recipiente original... e a venda de grelhados... e aquele a fazer paragliding...
Esquecer e ignorar talvez não dê, mas o olhar é atraído para tanta diferença que a revolta nem sempre é automática e geral. Valha isso...

Prólogo



Há pessoas que gostam de estar sempre no mesmo sítio.

Nós não somos dessas...

Há pessoas que gostam do conforto das mesmas paisagens, dos mesmos cheiros, da mesma gente.

Nós não somos dessas...

Somos de uma raça diferente, de uma estirpe que se realiza no pó dos caminhos a ver e sentir a novidade da diferença. Há todo um mundo de sensações e emoções para descobrir, nem sempre fundeadas no conforto pessoal, quantas das vezes catalisador de revoltas interiores. Mas é assim a vida, é preciso, por vezes sairmos da concha protectora que construímos à nossa volta para darmos substância a um desejado crescimento.

Gostamos de viajar. Do Encontro de culturas e do seu igualmente habitual desencontro. No final regressamos a casa e largamo-nos à recordação e à saudade.


Se somos um grão no Universo, então este planeta é uma praia. Na praia não há grãos sozinhos.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

A par


Não há praias de grãos d'areia sozinhos

O começo

Começa aqui...