quarta-feira, 27 de dezembro de 2006
Visita Catalunha
Tsunami - Maremoto
217.500 escaparam aos media mas não às ondas, não à sina de viverem em pedaços de areia, terra e rocha negra, largados ao acaso pelo Índico, ou por ele banhados. Fosse no Pacífico e não teria acontecido, que não é oceano para grandes altercações. Ou talvez acontecesse, que isto de paz e descanso nem sempre evita que se salte a tampa.
Sem pejo tantos seres minúsculos foram engolidos, alguns até aí nunca tinham visto o mar. NUNCA. Foram apanhados no meio da selva de onde nunca tinham saído, alguns a vários km do oceano. Foram apanhados a meio da viagem de comboio a caminho do trabalho, algures numa cidade tão pobre quanto eles, apanhados no decurso do seu atormentado percurso.
1000Passos
Agarra-me Esta Noite
Para lá do Marão
terça-feira, 26 de dezembro de 2006
Narciso
A insatisfação devia vir com instruções de uso. Para ser o motor de coisas boas era importante que as pessoas soubessem como a transformar nesse élan primordial e fundamental que guia os passos numa direcção decidida, única, transponível. Até lá, até vir com as ditas sugestões de utilização, cada qual faça a sua sentença e aguente-se à bronca devida.
Os defensores falam de uma chama, um toque de subtil chamamento ao público que nutria pelos artistas verdadeiras paixões e reconhecimento. Há quem diga que o cinema era mais autêntico...
No outro dia, enquanto fazia zapping passei os olhos por um separador de um canal qualquer, no intervalo de uma série qualquer que jogava com imagens dos filmes mudos. Não eram filmes quaisquer. O preto e branco e as expressões exageradas continham realmente algo de diferente, especialmente tratando-se de películas de terror onde o susto e a emoção exarcebada constituem as reacções ansiadas, e frequentemente alcançadas.
Compreendi que a tal magia, a tal autenticidade, a tal genuinidade eram conferidas não pelo milagre da tecnologia, mas pelo mistério da humanidade, que encerra em si a capacidade de ser tudo pela força da expressão. Aqueles actores eram realmente actores. Qualquer filme moderno já teria sangue e tripas de fora, miolos espalhados e ossos partidos nos cinco primeiros minutos, tudo adicionado com mestria recorrendo a um computador e complicadas técnicas de manipulação de imagem. O horror seria genuíno, mais não fosse pelo nojo provocado. Naquela altura, apenas a música e a expressão das personagens tinham o poder de levar ao terror, baseado numa tensão psicológica difícil de ignorar e que prendia à cadeira por curiosidade no desfecho e ausência de reacção física. As personagens não se mostravam apenas más, ou horripilantes, não eram apenas ameaçadoras, em alguns casos eram possuidoras de traços de humanidade que comoviam e davam certa pena. Não eram simplesmente ofensores, eram frequentemente vítimas de um acontecimento qualquer que justificava as suas acções. Não as desculpando tornava congruente a sua existência, a sua razão de ser.
Os efeitos especiais valiam de pouco de tão inverosímeis, com sorte denunciavam o carácter falso do monstro pela incongruência da apresentação.
E por iso vingaram actores como Bela Lugosi, Max Shrek, Boris Karloff ou Christopher Lee...
Depois destes outros vieram utilizando as mesmas armas e conseguiram sempre mais do que aqueles que se limitaram a usar e abusar da imagem virtual.
O que se calhar vem provar que as pessoas gostam de bestas emocionadas, com quem se possam identificar porque possíveis de encontrar numa rua escura ou beco perto.
sexta-feira, 22 de dezembro de 2006
quinta-feira, 21 de dezembro de 2006
Quebrou-se o encanto...
quarta-feira, 20 de dezembro de 2006
PTG 100
Contudo esquecem, ou não sabem o que é realmente mais importante e o motivo pelo qual milhares de pessoas por esse mundo fora saem de casa montados nas suas bicicletas, rumo ao emprego, às compras simples do dia, ou então por puro lazer.
As pessoas fazem-no porque não é poluente, fazem-no porque é rápido, porque vão em contacto com os elementos. Fazem-no porque acabada a cavalaria andante, tiveram de buscar alternativas, e esta é a que melhor entende a liberdade do conceito. Pode-se ir de bicicleta até ao fim do mundo, disso podem ter a certeza. Não se fica dependente de combustível, a manutenção é reduzida, viaja-se a um ritmo que nos coloca em real contacto com os locais.
No meu caso, a bicicleta é um veículo de evasão, um meio para afastar as preocupações ao mesmo tempo que me afasto das cidades, rumo ao campo, à natureza, à liberdade dos grandes espaços. Deram-lhe o nome de BTT - a bicicleta todo o terreno. E eu acedo a ir a todos os terrenos.
Agora nasceu o interesse pelas maratonas, participar em provas com mais gente para testar a resistência e a capacidade de sacrifício. Competir comigo mesmo, com a medalha a ser atribuída à capacidade de chegar ao fim, doam as pernas, doa o corpo, doam as eventuais feridas do caminho. Mas chegar ao fim!
Portalegre e a sua maratona simbolizam esse espírito e os milhares de betetístas que lá acorrem compreendem certamente isto que acabei de dizer. Outros não. Aqueles que atiram ao chão os invólucros das barras de cereais, que deixam as camâras de ar furadas no meio dos montes, que só olham para a frente e para o pódio, ignorando a partilha da experiência, a entreajuda, a camaradagem, estão a milhas deste sentimento.
Creio, felizmente que não é a maioria. E depois há o coloridos dos jerseys, a variedade de modelos de velocípedes, os carbonos, os titânios, os alumínios e os aços. Há as gentes de todo o país e até do entrangeiro. E o tiro de partida que a todos coloca em marcha. Depois somos nós e o terreno, nós contra o tempo e as dificuldades do traçado.
As subidas são o mal que todos temem, é aí onde o sacrifício é feito e onde as capacidades mais têm de ser mobilizadas. Eu gosto, escolho uma relação de mudanças ao meu gosto, nem muito leve , e certamente que não pesada e atiro-me às curvas de nível, a respiração pausada, regular, inspira pelo nariz, expira pela boca...
Há uma imagem que recordo da última participação: uma subida estreita, entupida por tanta gente, impossível de fazer montado por causa da multidão. Pé ante pé, bicicleta ao lado a empurrão e o olhar para trás, para avaliar a posição relativa para saber se se estava à frente. As cabeças saltitando pareciam lembrar um exército, o de Aníbal atravessando os Alpes com os seus elefantes, ordenados, ritmados, como uma peça numa engrenagem maior.
Afinal, o resumo da nossa importância: uma peça numa engrenagem maior.
Melhorei o registo em relação ao ano anterior, roubei tempo e posições mas tampouco é isso o mais importante.
Ver a Serra de São Mamede lá de cima, os vales verdes, o recorte das ribeiras, os prados cobertos de flores, as pistas encurvadas por entre os sobreiros, tudo contribuí para distrair a mente enquanto o corpo se dá ao manifesto.
A cada saída de bicicleta é um mundo novo que se descobre e nós descobrimo-nos com ele. Somos sempre capazes de mais do que julgamos e cada pedalada extra é um ganho acrescentado. Para o olhar fica a contemplação, para a alma a satisfação de saber que há mais para além da pequenez do dia a dia.
terça-feira, 19 de dezembro de 2006
Pont Des Arts
O veneno - Le Poison
E faz surgir mais de um pórtico fabuloso
No oiro dos seus vapores,
como um sol no ocaso de um céu nebuloso
(...)"
Dans l'or se sa vapeur rouge,
Ile Saint Louis
Algumas janelas com os cortinados afastados deixam antever o luxo e opulência dos interiores, hoje, ainda e sempre nas mãos de uma burguesia endinheirada, fina flor das listas de clientes de qualquer banco na Suiça.
Foi assim, por acaso e sem pressas que demos com aquela loja magnífica expositora das mais belas máscaras venezianas e outras caraças de teatro.
Minto ligeiramente, foi à pressa! Urgência de protecção de um aguaceiro de Verão. A nuvem sem avisar atirou a despejar o dilúvio sobre Saint Louis e apanhando-nos pelo meio, em fuga nos colocou. Corremos pela calçada escorregadia e a primeira loja que encontrámos transformou-se em refúgio. Entrámos de um salto, ficámos uns segundos mirando a bátega de água em queda, desfazendo-se numa ligeira névoa no impacto com o solo mas quando nos virámos, já agora para ver o que se vendia, espanto ante a beleza dos artigos, a suavidade das cores, a profusão das expressões. Máscaras de alegria, de tristeza, de medo, de admiração, de dúvida... Faces de mimo arrancadas do mimo, só a cara impressa em gesso.
A chuva foi-se como veio e nós fomos mais ricos, mais preenchidos e felizes. Descemos o resto da rua até ao semáforo, o braço dado como nos idos de antigamente. Ao virar da esquina um olhar a dois para a rua encharcada até aos alicerces e um sorriso cúmplice a uma viagem prometida: a Veneza no carnaval. C'est pas mal!
segunda-feira, 18 de dezembro de 2006
A vida transportada para sons
quinta-feira, 14 de dezembro de 2006
A gente vai continuar
O que lá vai já deu o que tinha a dar.
Quem ganhou, ganhou, usou-se disso,
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar.
E enquanto alguns fazem figura,
Outros sucumbem à batota,
Chega a mão ao que tu quiseres
Mas goza bem a tua rota.
Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar,
enquanto houver estrada pra andar.
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar,
Enquanto houver ventos e mar.
Todos nós pagamos por tudo o que usamos.
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não!
Somos todos escravos do que precisamos,
Reduz as necessidades, se queres passar bem.
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo.
Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar.
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar.
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar.
quarta-feira, 13 de dezembro de 2006
O mapa espinho
segunda-feira, 11 de dezembro de 2006
Ferragudo
Mira

Nesta história entram 4 personagens, 2 principais, 1 secundária e 1 figurante. Do figurante não ficou memória, nem o nome se guardou. Apanhou boleia e entrou num filme quase por acaso. A personagem secundária, por sua vez, teve um daqueles papéis sem os quais o enredo não avança pois se não fosse ter perdido os óculos, não teria pedido boleia para ir a Mira comprar lentes, a amiga não teria ido com ela e as personagens principais não se teriam cruzado. Perder-se-ia um excelente romance. Uma vida a dois destinada a durar para sempre.
Foi assim que aconteceu: era uma vez a Gaby, vamos chamar-lhe assim para dar nome à personagem, que perdeu os óculos. Sem eles, digamos que fica sem ver lá muito bem: dores de cabeça começam a atormentá-la, passa a viver num mundo de formas difusas e desfocadas... a bem dizer fica para lá de cegueta. Em casa tinha outros mas ia demorar-se ali todo o fim de semana e era incomportável estar 2 dias naquela situação.
No hotel, ia o actor principal a passar com as chaves do carro a tilintar na mão, absorto nos seus pensamentos, e logo a Gaby lhe fez o "fadinho" para a ajudar a encontrar um oculista. Certamente que em Mira haveria um, não parecia ser terra assim tão pequena...
- "Eu pago a gasolina. É que não consigo ver nada sem óculos!"
Deixou-se convencer, sair do aldeamento até seria bem vindo para vencer o marasmo da fria tarde de Novembro naquelas latitudes. Quando deu por ele já tinha o carro lotado de acompanhantes: o figurante que estava farto do café rasca do aldeamento e a amiga que ia com a estouvada da esquecida para evitar que se metesse em sarilhos. Uma espécie de anjo da guarda. E ele anjo da guarda das duas. O outro, faz de conta, era como o burrico do presépio, simplesmente para compor o cenário.
Durante o curto trajecto ambos os anjos trocaram olhares e observações: ela avaliando a segurança e suavidade da condução, as mudanças escolhidas e a doçura dos gestos, ele descobrindo os olhos castanhos reflectidos no retrovisor. Dir-se-ia que foi o início de alguma coisa...
Em Mira o oculista estava fechado. Nada de lentes de contacto para ninguém. Foram então beber o tal café. Encontraram um saboroso e cheiroso expresso, cheio de espuma e qualidades, e o dono do estabelecimento cheio de conhecimentos. Logo foi informando que junto ao mar, na localidade sobranceira ao oceano, num centro comercial "ali próximo do centro", havia ma óptica que "com toda a certeza está aberta".
A troupe enfiou-se no carro, contornou a lagoa, passou o aldeamento e fez-se à dita terrinha. tal como vaticinado, a loja estava aberta e, golpe de sorte, haviam as lentes desejadas. Regressaram ao hotel, a Gaby feliz que nem um rato, a conversa amaciada pelo sucesso, os assuntos escorreitos como cerejas e a combinação de uma bebida tardia, depois do jantar, quem sabe um pé de dança no escuro da discoteca.
Assim aconteceu, a bebida, mais assuntos explorados, o figurante que não apareceu e a Gaby encostada a um canto a curar a embriaguez. Restaram os dois. Sussurros ao ouvido para vencer a música alta, mais um pouco de bebida, mais sussurros, uma mão sobre a mão, uma carícia ao de leve, um olhar mais penetrante, um silêncio incómodo. O pressentimento de um beijo. O suave toque dos lábios, primeiro a medo, depois com vontade. O entrelaçar de um abraço.
E a eternidade condensada num momento!
Hotel Astória
A demora estava a ser demasiada, a própria cidade arriscava-se a não chegar para gastar tanto tempo...
Andava, andava... e quanto mais andava mais vinha parar ao mesmo sítio, como se o anfiteatro natural onde a cidade foi erigida lhe conduzisse os passos sempre na mesma direcção. No seu périplo pela cidade do conhecimento verificou as suas origens antigas. Os panos de muralhas restantes, as portas acasteladas, as torres resistentes e adaptadas a outros fins evocavam um passado muçulmano eloquente, do qual nem sequer a Universidade, no alto, ex-libris por mérito próprio, escapa. O seu traçado vai buscar a esquadria à fortificação árabe destinada a ocupar a posição cimeira. Depois, por ali abaixo, ruas, ruelas e becos confundem-se com qualquer localidade mourisca com os seus cotovelos apertados, os recantos escondidos e as passagens estreitas. A chegada dos cristãos não foi suficiente para "civilizar" essa aparente desordem, talvez porque não fossem assim tão "civilizados", quiçá porque não tinham arte nem engenho para melhorar o que encontraram.
Perdurou assim o esquisso até aos dias actuais que a mole de estudantes vestidos de negro soube re-inventar e dar fama com as suas serenatas, as suas tertúlias, as suas bebedeiras... À luz do dia as Repúblicas ainda existentes repousam dos desavrios nocturnos. Não fossem os escritos irreverentes nas paredes e nada as denunciaria na pacatez sonolenta do centro histórico.
Às 5 em ponto lá estava ele em frente ao Astória lançando o olhar sobre o Basófias, esse rio empola-tudo que se fazia de grande no Inverno para minguar à farta no pico do calor. Hoje um dique próximo disfarça tamanha gabarolice. é um acordo que serve ambas as partes: o rio não passa vergonhas, a urbe vê-se ao espelho todo o ano.
5 horas e ele lá. Duas mãos vindas de trás tapam-lhe os olhos. Uma voz adoçicada sussurra-lhe ao ouvido um desafio de adivinhação. Ele aceita e acerta. Eles beijam-se. As intenções de antes perdem razão de ser, ir para as montanhas buscar os ares da serra fez-se desejo desnecessário.
A noite em Coimbra fez-se de maiores encantos.
quinta-feira, 7 de dezembro de 2006
terça-feira, 5 de dezembro de 2006
Amadeu de Souza Cardoso

Gulbenkian é uma das instituições culturais mais importantes do país, e Amadeu de Souza Cardoso, um dos expoentes máximos da arte moderna em Portugal. Em Novembro de 2006 juntaram-se os dois, comemorando dois aniversários: o do cinquentenário da Fundação e a partida do pintor para Paris.
Quanto à pintura, as obras ficaram sem sombra de dúvida na memória, tal como o nosso esforço para compreender o seu conteúdo. Co-adjuvados por um casal também interessado em desvendar os mistérios da arte "Cardoseana" tentou-se entender o porquê dos títulos, as leituras por detrás da primeira impressão, o pormenor escondido que tudo diz. Mais à frente um segurança, que depois de tantas vezes ouvir a explicação do guia e dos visitantes experts em arte, já conhecia os meandros das obras que o rodeavam - um bem-haja ao segurança sem nome ajudou na compreensão de uma ou outra obra. Atabalhoado, sem certezas certas mas com a maior das boas vontades.
Mas foi exactamente um segurança que marcou esta exposição. Esta personagem também sem nome, embora com filiação, encontrava-se numa das portas de entrada para a exposição, e cumprimentava os clientes de forma calorosa.
O primeiro cliente-alvo foi um senhor aparentemente conhecido e conhecedor do nosso anfitrião, que apesar dos esforços de discrição levou uma valente palmada nas costas como cumprimento, mas tão valente, que apesar de não ser um lingrinhas, não teve outra opção senão dar dois passos em frente para se equilibrar. Senti-me bem por não me conhecer...
O segundo cliente, foi alvo de uma situação bem mais caricata, até porque nos deu a conhecer algo mais sobre o nosso personagem. Após olhar com alguma atenção para o ele, disse com um olhar inquisidor mas caloroso: "a sua cara não me é estranha", o cliente olhou também com atenção, mas aparentemente nada no nosso segurança despertou a zona de reconhecimento de faces do seu cérebro. Mas a nossa personagem continuou "Não me está a reconhecer?", e face à expressão envergonhada e avermelhada do interlocutor continuou: "mas eu estou a reconhecê-lo, e o Sr. conhece o meu pai.". O cliente-alvo continuava a olhar como se tivesse sido colocado numa ribalta que não desejava, olhando em volta para tentar perceber a dimensão do palco e da plateia. Por fim a nossa personagem com a já famosa palmada nas costas, alivia o sofrimento do cliente dizendo "Sou eu, o filho do Manuel Bate-Chapas!" No entanto, e apesar das várias oportunidades que o nosso personagem lhe deu, o cliente ficou como estava, a não fazer a mais pálida ideia de quem era aquele senhor sorridente, bem-disposto e à-vontade, mas sem nenhuma ideia do mau-estar que provocava no outro, que se encontava à sua frente.
No Thrills Airlines

Um raio de luz na noite escura

No seu livro existe um conto “ A Última Noite”, cuja personagem principal é Mário Sá Carneiro. Às páginas tantas Mário diz: “Estou a repetir-me, sempre a repetir-me. Escrevo o que já escrevia há cinco anos.”
Estranhas palavras? Talvez não…
Há escritores que escrevem sempre o mesmo livro, cineastas que fazem sempre o mesmo filme… Será que se vivessemos várias vidas, também viveríamos a mesma? Talvez só mudássemos o cenário das viagens que fazemos... E as verdadeiras viagens? As aprendizagens que fazemos nos caminhos que percorremos?
Será que as pessoas com quem nos cruzaríamos deixariam em nós uma herança diferente, ou será que nos ensinariam, tal como ensinam (se estivermos atentos e disponíveis) exactamente aquilo que temos para aprender?
Talvez só mudássemos o cenário…
segunda-feira, 4 de dezembro de 2006
Venda Tribe

A curiosidade leva-nos a perguntar e a maior parte das vezes conseguimos as respostas que ansiamos. mas não sem que se estabeleça um processo de troca. Respondem-nos na condição de poderem, também eles, perguntar. O resultado é um processo mútuo de admiração perante o outro, perante os seus costumes e opções de vida.
Por exemplo, Godfried, o jovem guia do safari no Kruger Park. À primeira vista e a julgar também pelo nome que ostenta, poder-se-ia pensar ser um jovem urbano que bebeu do estilo de vida que os "ocidentais" levaram para aquele país, totalmente desgarrado do mosaico étnico local.
NIM. O nome recebeu-o do médico alemão que o ajudou a nascer na sua aldeia no meio do mato. A sua vida perigou em infante, viu a morte a espreitar detrás do embondeiro mas deixou-se ficar para ir à luta. Deus seria seu amigo e aliado? A crença do médico foi que sim e assim ganhou o seu nome: amigo de Deus - Godfried.
Urbano? O suficiente! Consegue receber os turistas e conviver com os visitantes, é conhecedor das ferramentas informáticas e do universo Web, tem conhecimento geral q.b..Ao mesmo tempo permanece fiel às tradições dos seus, da sua cultura ancestral na tribo Venda.
Não sendo dos grupos mais expressivos no puzzle multiracial da África do Sul, é natural que o estrangeiro não tenha deles qualquer ideia. Num breve apontamento são oriundos do Zimbabué e têm expressão naquela faixa de território que une o Zimbabué, a África do Sul e Moçambique. No mais, combinam casamentos entre as famílias, as mulheres são obrigadas a cumprir os acordos feitos pelos progenitores e os rapazes idem idem, aspas aspas. Na fase de vida em que ainda não atingiram a independência são moeda de troca e o lacre que sela acordos e alianças, são a face visível da união de famílias e clãs quando não de aldeias inteiras. Nos olhos dos tão civilizados europeus (os tais das duas guerras mundiais, lembram-se?) isto poderá ser um comportamento bárbaro e inferior mas a verdade é que moldou o carácter e firmou o sentido de honra daquelas pessoas. O nosso interlocutor é apenas o exemplo mais vívido por estar ali, contando no seu inglês perfeito o conteúdo das suas experiências.
quarta-feira, 29 de novembro de 2006
Safari no Kruger Park

Um safari em África é um produto turístico e por isso é feito u enorme esforço para que as expectativas não saíam defraudadas. Os guias conhecem os hábitos dos animais e os seus locais preferidos, pelo que a probabilidade de se conseguir descobrir as várias espécies é relativamente grande. Depois é contar com a sorte e esperar que todos os Big Five se dêem a mostrar. Nisso, posso dizer que os deuses estiveram do meu lado, pois não foram precisas mais do que duas horas para que o nosso hábil guia, o Godfried (amigo de Deus) descobrisse o leopardo, o leão, o búfalo, o rinoceronte e o elefante. Já para não falar das girafas, das zebras, dos macacos, das impalas, dos hipopótamos, dos zebus, dos crocodilos, das hienas, dos javalis, das suricatas, das águias… e espero não ter esquecido nenhum dos ilustres habitantes da savana.
Para quem está acostumado a ver cães e gatos vadios, aquela fauna em ambiente natural é um espectáculo digno de nota. Respondendo às perguntas iniciais, sim, é giro e sim vê-se mais do que no circo. Mas o que trago de mais interessante ainda assim, foi a conversa com os companheiros de ocasião, um casal que se sentou nos lugares atrás do meu.
Ele, Michael Kipping, alemão reformado a viver na Argentina onde vive a sua paixão Beatriz Provitina , artista plástica de Buenos Aires. Só esta história de amor já teria interesse bastante, mas a exploração da conversa ainda revelou mais deste par de personagens. Michael era investigador farmacêutico e foi para a Amazónia em busca de plantas e princípios activos que pudessem ser os medicamentos do futuro. Foi ficando, percorrendo a América latina até se radicar na capital argentina com Beatriz. Gostei da sua filosofia de vida: 25 anos para estudar, 25 para trabalhar e a partir daí gozar a vida, viajar, enfim, fazer tudo o que a vontade ditar. Congratulei-o por ter conseguido isso, como projecto de vida não está nada mal e sinto-me tentado a apropriar-me do modelo para mim.
Depois da África do Sul partiriam para a Ilha de Madagáscar e lá por Abril estava planeada passagem por Portugal. Na Europa, Michael só guarda o seu carro, um descapotável, por sinal. É só retirar a capota e rumar a sul, para o calor e ambientes mediterrânicos.
Obviamente fiz o favor de os convidar, quem sabe que histórias terão eles para contar por essa altura?
British Museum
Os guias de viagens têm tudo ou quase tudo o que é preciso ver numa cidade, país ou região e apesar da sua útil utilidade que lhe temos que reconhecer, não dizem o essencial... E o essencial é o que se sente!O British Museum foi exactamente assim, referenciado como fundamental de entre os fundamentais museus londrinos, descrito de fio a pavio, inclusive com mapas do interior, indicações das peças mais importantes...mas nada nos prepara para a emoção que é visitar aquele espaço único!
Como definir a sensação de entrar num espaço fisicamente limitado, mas no qual está espelhada a história da Humanidade? E a sensação de estar junto à Pedra de Rosetta, com um decreto de 196 A.C. emitido pelo Ptolomeu V e resgatado pelas tropas napoleónicas? E a emoção de estar próxima do Homem de Lindow com 2000 anos? E a sensação de entrar numa sala e ver um templo de uma civilização que se extinguiu há centenas de anos, intacto, ali à nossa frente como se o tempo não tivesse passado jamais?
“Como definir?” talvez seja mesmo uma pergunta sem resposta, talvez isso explique a opção dos guias de viagens... pois afinal de contas, como definir?
Vasa

Andara toda a manhã a prometer: a temperatura a baixar ligeiramente, o céu a vestir-se de cinzentos progressivamente mais escuros, a brisa a ganhar mais fôlego…
Apesar da promessa de temporal, nem pensar em abdicar do passeio embora antecipássemos a impossibilidade de conhecer Skansen e o seu retrato da Suécia. Fomos caminhando contornando o Báltico e observando a diversidade de barcos, a arquitectura do prédios e o desenho das alamedas. Observando os habitantes de Estocolmo entregues ao seu jogging, ao seu cycling, ao seu rollerskating, enfim ao seu living próprio, despreocupado e descomprometido, indiferente aos humores do clima.
O passeio levou-nos à ilha dos museus e as pernas rapidamente nos guiaram ao Museu Vasa com a chegada das primeiras gotas de chuva. A necessidade de abrigo, acabou por ditar a escolha do programa cultural e assim entrámos no Museu, um hino à incompetência dos homens aliada à mais estúpida e despropositada soberba.
O Museu Vasa recebe o seu nome de um navio, “o mais bem conservado navio do século XVII” com cerca de 90% da sua estrutura original. O navio recebe o seu nome do Rei da altura, figura altamente proeminente do país e do xadrez internacional da época e era suposto ser o maior e mais bonito da armada sueca. Viviam-se tempos de prosperidade e poder, com a coroa a estender o seu domínio por toda a Escandinávia e mares do norte.
O problema é que a ambição desmedida tem por hábito fazer-se pagar caro, primeiro no não olhar-se a custos e depois pelo amargo preço do insucesso. O insucesso do Vasa saiu ao preço das vidas humanas que sugou para o fundo do mar quando se afundou na sua viagem inaugural, duzentos metros depois de soltar amarras.
Os chefes engenheiros sem prática na construção de barcos de tal porte fizeram mal os cálculos e rapidamente se descobriu que o lastro colocado não era suficiente para equilibrar os vários andares de altura de madeira, cordame e lona. Bastou a ligeira ondulação provocada pelo avanço nas águas frias do Báltico, para adornar fatalmente. Seguiram-se os gritos, o pânico, o horror e impotência da populaça que assistia das margens ao lançamento daquele portento. Hoje, o que resta está exposto: um barco de aspecto fantasma e tudo com ele relacionado que o mar entendeu devolver.
O museu em si é espartano e impessoal, consiste num edifício de cimento, quase sem janelas, resguardado da luz exterior por vidros escurecidos. O Vasa anichado em doca seca, com as suas madeiras carcomidas, adensa a atmosfera de luto. É um ser inanimado que jaz perante o visitante e pese embora o empenho e a técnica colocados no seu resgate, pese embora ser o testemunho mais fiel da indústria naval de séculos passados, pese embora tudo isso e mais coisas que as brochuras possam louvar, não deixa de ser também um destroço de uma era em que sangue, suor e lágrimas se confundiam com caprichos reais. E não esquecer igualmente que aquele invólucro de madeira é também o túmulo recuperado de centenas de marinheiros. Corremos toda a exposição, lemos cada um dos painéis informativos, vivemos o museu por dentro. Assimilámos.
Depois, dirigimo-nos para a porta para sair, ir ver mais coisas e mais cidade mas a intempérie, ao invés de abrandar, adensou-se, barrando-nos o caminho. Copiosa, batida a vento e batendo em tudo com estrondo e violência fez-nos reféns da sua vontade. Basta olhar em volta para cimentar a ideia de cerco: uma cortina opaca de água desabando em cima de tudo e unindo-se às águas do Báltico. É o fechar de um ciclo, uma espécie de regresso a casa.
Quanto a nós, creio que percebemos porque é que se visitam menos museus lá pelo burgo, é porque chove menos e a malta quer é praia!
terça-feira, 28 de novembro de 2006
Signal failure

Due to a signal failure, some delay in trains arrival may be expected. Thank you.
E naturalmente cresce no interior de cada um que espera a frustração de um serviço que não funciona, o receio de um infindável atraso e a antevisão de uma chegada tardia ao destino.
Em Lisboa sempre nos vão dizendo que o metro não vem devido a falha técnica ou que a linha de cor xis se encontra com perturbações. Falha técnica é falha técnica, é avaria, é estragadice, dá para entender. Perturbações todos têm de vez em vez, é do stress e do trabalho em excesso e isso eu desculpo porque vejo as linhas a laborar 7 dias por semana todas as semanas do ano.
Um signal failure é coisa para não se entender. Os locais não fazem a mais pálida ideia do que é e os turistas, alguns nem percebem o que anunciam nos altifalantes. No fundo acho que lhe chamam isso para escamotear. Os londrinos têm um metro velho como o caraças que já levou com bombas dos alemães, bombas dos árabes, que já viu horrores com incêndios brutais, que tem ratos que não acabam… convenhamos que deve estar tudo como há-se ir lá por baixo.
Naturalmente não se pode dizer isso às pessoas e assim nasceu o signal failure para permitir margem de manobra, e, pelo caminho, para se ajuntar no folclore local aos paternalistas mind the gap e mind the step.
Acreditem meus amigos, as t’shirts já não devem demorar.
quinta-feira, 23 de novembro de 2006
Bicos de pés
, primeiro no Caramulo e depois na Estrela, dois dias de retiro sabático entregues ao ar puro e pacatez da vila termal serrana e uma passagem fugaz pelo cimo nevado de Portugal.Em ambos os casos, tradição e vanguarda andam de mãos dadas: no Caramulo convivem lado a lado aldeias típicas, dependentes da agricultura, da pastorícia, da boa vontade dos elementos, com as torres eólicas mais recentes e modernas. Olham-se de frente o Museu antigo de décadas com a sua extensa coleção de arte, tapeçarias, mobiliário e automóveis e o Hotel, recentemente recuperado e com um Spa de última geração que promete maravilhas de saúde através do poder da água.
Na Estrela os desníveis vencem-se agora com a ajuda das telecadeiras na única estância de ski em solo nacional, enquanto no Centro Comercial da Torre se tentam impingir as antiquadas camisolas de lã e as já demais conhecidas pantufas de pele e pelo.
Não há como negar este cruzamento de passado e futuro, um pé no tempo que foi e outro no tempo que há-de vir. O Portugal profundo, afinal, está na encruzilhada dos tempos, a viver um presente tal qual ele deve ser, uma ponte entre alturas diferentes e atribuindo-lhes sentido e razão de ser. O presente do Portugal profundo é tal qual o vivido em Lisboa, na capital das vontades e das decisões, apenas faz mais frio.
Viajando com a cabeça no ar, passageiros das telecadeiras, ficamos no mais alto deste país e o que vemos, para além dos muitos equívocos, das inúmeras lamentações e das indesmentíveis contradições é o mesmo que Viriato via há séculos de distância. São os montes, os vales, são os pedaços de terra e rocha onde inscrevemos a nossa identidade. E onde, verdade seja dita, no Inverno faz um frio de um corno.
Sogne-fjorden

As montanhas erguem-se majestosas a toda a volta encimadas por alguns lençóis de neve que resistiram todo o Verão e se eternizam até ao próximo. O céu, azul durante toda a manhã, cede aos ímpetos outonais de fim de Agosto e veste-se gradualmente de cinzento, ameaçando desabar sob a forma de chuva a qualquer momento. E depois o mar. sim, porque mesmo a centenas de quilómetros de distância da costa é o mar que ali está, salgado, escuro, gelado, é o mesmo Mar do Norte que banha Bergen ou Oslo ou onde os vikings se lançaram nas suas descobertas. O cheiro é a maresia, a praia, a nortada numa praia no Inverno português e é isso o que impressiona acima de tudo. Estamos no interior, rodeados de montanhas com mais de mil metros de altitude e inalamos o mesmo ar gelado e salmorento do litoral mais bravio e agreste.
é uma beleza plácida, feita de silêncios apenas interrompidos pelo gorgolejar da água nos blocos de pedra que seguram as paredes do cais, o chocalhar ritmado dos riachos que se despenham do alto, saltitanto violentamente sobre cada desnível e obstáculo da encosta, ou as sirenes dos ferries que anunciam a chegada ou a largada.
É um silêncio que enche a alma, ancestral.
Embarcamos, todo o grupo em desalinho, à pressa, em correria, a ver quem apanha os melhores lugares. Parece a luta do dia a dia por um assento no metro ou autocarro, um reflexo condicionado promovido pelo dia a dia de todos os dias. O problema é que praticamente nenhum daqueles presentes frequenta transportes públicos, deve ser algo que já vem no sangue.
Ninguém faz a mais pálida ideia de quais são os lugares melhores, ninguém de entre estes vizinhos de ocasião esteve aqui antes, mas avançam decididos, atropelando os demais e desculpando-se cinicamente. Uns sentam-se virados à ré, outros penduram-se nas laterais, outros encontram poio mais à frente, próximos da ponte.
O motor ronca violentamente e coloca o navio em marcha. E todos nós, turistas em causa própria, marchamos com ele.
Não tardou a comitiva a perceber que o fiorde é para duros. Aquelas almas saíram do hotel sem casaco substimando claramente o Verão Norueguês e não demorou até sentirem no corpo o efeito do windchill. Assim como escolheram os lugares de contemplação, atiraram-se aos lugares de recolhimento no interior do salão-bar. Mais fica. Veste-se o corta-vento e já está, perfeitamente preparados para a vigia à natureza mais bela, mais calmante, mais mágica que este planeta já nos deu.
O Fiorde dos Sonhos é património da Humanidade por isso mesmo, pela capacidade que tem de transportar os que o visitam para um estado de graça único, como um sonho mas acordados. Depois vêm as justificações: ser o troço onde o Fiorde atinge a menor largura entre margens, uns meros 250 metros medidos a olho, onde as montanhas sobem mais alto acentuando a sensação de entalamento, onde a massa de gelo que o originou escavou a pedra mais fundo.
Não é preciso conhecer as razões e tampouco importa saber que a Unesco se deu ao trabalho de atribuir tal distinção, para se apreciar o espectáculo. Ele está lá para quem o quiser descobrir há milhares de anos e continuará, com ou sem a publicidade.
A desfilar à nossa frente minúsculas aldeias de pescadores, cascatas, gaivotas que rasam as águas, uma foca esquiva confundindo-se com as rochas onde se deita, montanha atrás de montanha num degradé esfumado pela neblina e que fecha o horizonte... não há lugares ideais para assistir a este espectáculo, é necessário vaguear pelo convés, ora a bombordo, ora a estibordo, ora à ré, ora à proa... amealham-se imagens mentais que esperamos conseguir recordar por muito tempo, tiramos fotografias para garantir um pedaço do fiorde para nossa propriedade, inspiramos fundo e exalamos pausadamente para recompor as energias.
Não sei quanto tempo passou até ao cais de chegada. Não me interessa. Sei que passei bom tempo. E interessa-me pensar que um dia regressarei.
Foca

O norueguês saíu da ponte do ferry apontando a margem indicando o animal que a palavra significa em português. Aninhada sobre umas pedras na margem, uma foca repousava, ou apanhava sol, ou se refugiava...
rapidamente as máquinas fotográficas dirigiram as objectivas na direcção apontada para quase todas flharem o objectivo, ou não serem capazes de distinguir o objecto, ou ficarem com resultados esborratados e des-foca-dos.
Ao mesmo tempo o ferry avançou, indiferente aos fracassos dos fotógrafos de ocasião. Ao mesmo tempo os olhos viram cada vez mais afastada a mancha que identificaram como uma foca. Para eles o dito bicho há-de ser para sempre uma mancha no horizonte.
segunda-feira, 20 de novembro de 2006
Josué
-"Cambada de anormais" - gritava ele quando nas notícias adiantavam números das estatísticas mais recentes dando a conhecer um cenário crescentemente mais negro.
-"Deviam morrer todos! Acabava-se logo com a peçonha!"
Apesar de incompreendida aquela revolta toda acabava por ir sendo desculpada por colegas e amigos que a atribuíam à "idade" e à "educação", e como "burro velho não aprende línguas", achavam lícito, apesar de incoerentes, aquelas atitudes.
Certa manhã, saía Josué pela porta do prédio e vê passar do outro lado da rua um jovem ostentando uma t'shirt branca com dizeres garrafais a vermelho: "EU TENHO SIDA". Achou de terrível mau gosto, se a tinha para quê ostentar a nódoa e se não tinha, não era assunto para se andar a brincar, nem a exibir daquela forma.
Seguiu o seu caminho barafustando sozinho sobre a falta de dignidade daquela gente, "cambada de maricas e drogados, putas e proxenetas!". Ao virar a esquina quase chocava com as mesmas letras vermelhas "EU TENHO SIDA" apostas na t'shirt, desta vez envergadas por uma moça bem feita, alta e formosa, loira, de olhos azuis. Ficou confuso e assustado.
Deu um passo para trás e quase correu para se afastar.
quando parou, ofegante, uns metros adiante, começou a reparar nos transeuntes, altos, baixos, novos e velhos. Rapazes e raparigas, senhoras e senhores, toda a gente parecia usar aquela horrível roupa branca com as letras encarnadas vivas.. De repente parecia que todo o mundo tinha enlouquecido, devia ser, só podia ser, culpa da televisão e daquelas campanhas, dos jornais e daquelas notícias. de repente a anormalidade virou moda e a presença da morte uma via para fugir ao anonimato.
Ficou sem saber o que fazer, para onde se virar. Certamente que nem todos a teriam, ou será que sim? Como é que toda a gente ficou infectada? Seria alguma coisa no ar? na água? Quis fugir mas ficou sem reacção, fugir por onde? Para onde? As ruas pareciam populosas de tantos fantasmas, todos a olharem para ele cubrindo a sua fuga de perigos.
Inspirou fundo e desatou a correr, parando apenas depois de franquear as portas do seu prédio e a entrada do elevador. Sentiu-se seguro só depois de ter encerrado a porta do seu apartamento atrás de si, com estrondo e rápidos movimentos na fechadura.
Dirigiu-se à janela e lá de cima, do seu quinto andar pôde assistir aquele que era o mais estranho espectáculo da sua vida: centenas, talvez milhares de pessoas, todas com a mesma t'shirt branca, parecia neve a caminhar, todas com a mesma frase estampada a vermelho, aparentando uma mancha sangrenta em impiedoso avanço. Como um anúncio do fim do mundo, o toque de corneta que anuncia o Armagedão.
E agora? Sair estava fora de questão, não se podia arriscar a tocar sequer naqueles cadáveres prometidos...
Os dias foram passando sem que a paisagem mudasse. A cada manhã ia à janela do seu quarto e olhava lá para baixo. Todos os dias, invariavelmente, a multidão aparecia igual, indiferente ao seu medo, à sua desgraça. Nem sequer abria a janela, não fosse o ar estar contaminado e violar irremediavelmente o seu esconderijo. Quanto à água, desconfiava da da torneira e bebia apenas engarrafada. Gradualmente o frigorífico foi-se esvaziando e o lixo acumulando. Embalagens vazias empilhavam-se a um canto da cozinha à espera de um dia poderem ser despejadas no contentor lá da rua. O ar bafiento e mal-cheiroso empestava a casa e era virtualmente irrespirável mas Josué não desarmava da sua ideia de se manter no seu reduto até que a epidemia passasse. Curiosamente não diziam nada nos telejornais nem na rádio, era como se estivessem cegos. Também, outra coisa não seria de esperar já que até o locutor aparecia com aquela maldita camiseta anunciando o seu fim, aparentemente com orgulho...
Definhava lentamente. A barba por fazer, as olheiras pronunciadas, o mau hálito visto que a pasta de dentes já havia terminado, faziam-no parecer cada vez mais velho e acabado. Sofria do efeito "campo de concentração" marcando no corpo os efeitos da perda de liberdade e de estímulos positivos. Sentia-se miserável e sozinho, nos primeiros dias ainda tentou telefonar a alguns amigos a pedir ajuda e ver se eles estavam refugiados daquela ameaça que grassava mas percebeu que também eles tinham sido vítimas quando disseram não estar a compreender nada e que não tinham notado nada de estranho. Fez o sinal da cruz e lamentou a sorte dos seus entes queridos e não pôde evitar-se chorar.
Passaram dois meses exactos desde que se fechara no seu apartamento. As sirenes irromperam pelas ruas e ouviram-se passos apressados nas escadas. Um estrondo coincidiu com o arrombamento da porta. Meia dúzia de bombeiros entraram de rompante pela casa adentro gritando por Josué mas ele não estava. Só o seu corpo jazia no chão, em posição fetal no meio da sala.
os vizinhos já tinham estranhado aquela porta fechada e a ausência do Senhor Josué, tinham batido algumas vezes e foram rapidamente enxotados aos berros. Há muito que achavam o cheiro nauseabundo e se tinham queixado à administração mas sem que tivesse havido qualquer mudança. Ouviam barulho lá dentro, passos de um lado para o outro até que naquele dia só ouviram um estranho silêncio. Contas feitas, talvez aquele dia fosse mesmo aquela semana. Decidiram que o melhor era ligar para alguém, talvez a polícia ou os bombeiros.
Uma roda de pessoas fez-se em torno daquele corpo. Josué tinha partido para longe e atrás de si, só ficaram os restos da sua ignorância.
(A t'shirt existiu mesmo, andava nas ruas de Maputo cobrindo uma enorme barriga de cerveja. A ignorância existiu e existe e provavelmente existirá durante muito tempo e por muito lado)
quinta-feira, 16 de novembro de 2006
Raimundo

quarta-feira, 15 de novembro de 2006
Fica a sombra do que foi

Todas as histórias evocam a magia do continente Negro, o poder dos seus cheiros e cores, o apelo da sua diversidade, a simpatia das suas gentes...
Em Portugal quase toda a gente conhece alguém, de família ou amigos que tem dessas recordações maravilhosas, anunciando saudades de voltar a ver e sentir as terras que conheceu noutros tempos e que deixaram a sua marca impregnada no corpo e na alma. Mesmo os que vieram em tempo de guerra guardam com nostalgia as imagens de um continente abençoado.
Mas talvez essa benção esteja no fim da validade e em África fazem-se sentir problemas de toda a ordem, difícil mesmo é escolher quais os mais graves.
Quando soube que viria a Moçambique não pude deixar de sentir excitação ante a possibilidade de ver com os meus próprios olhos todas essas maravilhas e descobrir pessoalmente os encantos deste continente.
Contudo, já me tinham avisado que nem tudo é o mar de rosas ou o romantismo presente nessas histórias de antanho, Moçambique era há meia dúzia de anos o país mais pobre do mundo e ainda falta muito caminho para atingir a desejada qualidade de vida.
"Vais ter pedintes", "não podes andar na rua livremente", "as ruas vão estar sujas", "cuidado com os assaltos"... não faltaram os avisos sobre as gentes nem sobre as doenças e os perigos da malária.
Profilaxia feita e lá vamos nós.
O primeiro embate não foi muito mau, sair do ambiente hermético do A340 "Fernão Mendes Pinto" e sentir o calorzinho na cara constitui um verdadeiro bálsamo depois do frio sentido de noite a muitos mil pés de altitude.
Nada do dito cheiro a África, apenas o odor a querosene libertado pelos motores da aeronave até sentir a pista do aeroporto debaixo dos pés.
Gostei da sensação de andar pelo alcatrão do aeroporto, senti-me como numa viagem ao passado, ao período áureo das grandes vigens de descoberta a bordo dos mais míticos pássaros de ferro.
O edifício das Chegadas também não me pareceu muito mau com a sua arquitectura Estado Novo Colonial, com linhas limpas, direitas, aqui e ali com decorações artísticas de época. Desesperante a lentidão do sôr polícia, aumentada pela prioridade dada a um passaporte diplomático nativo. Enfim favoritismos no seu melhor.
Pois bem: antigo, lento, mas ainda assim suportável. Até tinha a sua piada.
O pior veio depois, abriram-se as portas da rua e lá fora a confusão era enorme com vendedores das mais diversas inutilidades a juntarem-se a carregadores de bagagem de ocasião que à viva força queriam ajudar, agarrando a mala e pedindo ostensivamente a gorjeta.
À espera o transfer do hotel mas mesmo o condutor nada podia fazer (nem teria interesse nisso) para obviar aquele incómodo local. Qualquer moeda que pudesse vir seria bem vinda para aquela gente, mas tanta ajuda é sempre de desconfiar.
A salvo no interior do minibus a oportunidade para observar a cidade.
Prólogo



