Interlaken é um nome sem grande imaginação. Deve ser lido no seu sentido literal - entre lagos - pois é aí mesmo, entre dois belos lagos de azul celeste, sem comparação com o céu ou o mar, que a localidade se situa. Foi aí que decidimos que iríamos passar os primeiros dias. A sua localização central no país torna-a o ponto ideal para partir em excursões para outrops locais, a decidir mais tarde, fosse para ambientes citadinos ou para cenários naturais extremos.
2200km separam Lisboa de Interlaken, coisa que se resolve com um dia de viagem, quanto mais de seguida melhor. Ou pior, caso o cansaço aperte e obrigue a algum descanso.
Noite e dia a conduzir são de deixar qualquer um zonzo e quando o corpo pede tréguas a este esforço, o melhor mesmo é ouvir o que tem para dizer e aceitar a exigência com desportivismo. O tempo que se perde é tempo ganho, umas horas, por uma vida.
Fizemos duas paragens ao abrigo deste acordo, primeiro aportámos numa das muitas áreas de serviço que antecedem Bordéus e que abrigam outros como nós numa espécie de motel improvisado em que os próprios carros fazem as vezes de quartos. Para alguns a existência de pequenos canteiros relvados é a oportunidade ideal para sacarem da tenda que transportam consigo e arranjar moradia mais confortável... A segunda foi junto a Clermont-Ferrand, cidade união de duas que cresceram até se fundirem. Com o Puy de Dôme bem à nossa frente e os restantes vulcões da cordilheira a fazerem-lhe companhia fechámos os olhos e retemperámos forças. Nestas situações o cansaço revela-se um oportunista sem escrúpulos que espera pela mais pequena distracção para atacar. Cada vez que se pestaneja é uma oportunidade que lhe damos, com os olhos a quererem permanecer fechados por mais tempo. Cada segundo a mais que passa são vários metros percorridos sem ver a estrada...
Será este fantasma o maior problema ao viajar tanto tempo seguido, ainda mais com a noite pelo meio, com o escuro e os hábitos de sono a fazerem-se notar. mas outros perigos não são de menosprezar. Os do costume. Na área de serviço de Donostia-San Sebastian um enorme aparato policial denunciava que algo anormal tinha acontecido. Um jovem aguardava escoltado por dois agentes que o viessem buscar ou talvez que a situação se esclarecesse. Um pouco desviado, um casal de holandeses contava como um carro preto os forçou a encostar com direito a arma apontada e tudo. Os coletes à prova de bala que alguns polícias exibiam eram sintomáticos para perceber que ali os problemas são da pesada e que os cuidados a ter são sempre poucos.
Abastecia com os olhos postos neste espectáculo, enquanto ao lado enormes carrinhas mistas com cortinas tapando todos os vidros e que todos sabemos, ou imaginamos transportarem emigrantes ilegais de leste permaneciam paradas e vazias, não se vislumbrando os condutores em parte alguma.
No fundo são os mesmos predadores da noite que sempre existiram e que se aproveitam das sombras para se esgueirarem até junto das suas vítimas e atacando como uma mamba negra à primeira oportunidade. Antigamente creio que era pior, viajar era perigoso, muitas vezes mortal, agora acho que é a nossa imaginação que é perigosa, vendo monstros onde a maior parte das vezes não existe.
Numa das ocasiões parámos numa dessas áreas destinadas a camiões de longo curso. O receio ancestral das sombras e do escuro veio ao de cima. Estava calor, os pinheiros sussurravam acariciados pela brisa uma canção desconfortável mas toda a gente dormia ou o tentava nas cabines dos deus TIR. O medo levou a melhor e fomos para onde a luz pudesse denunciar a ameaça. E aí dormimos um pouco.
